Do G7 ao G3: clima, Brasil e a crise do multilateralismo

Em: 3 de junho de 2025

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) alerta: o planeta já aqueceu 1,1°C desde a era pré-industrial (2023), com riscos de atingir 2,5°C até 2030. As consequências já são visíveis: secas históricas na Amazônia (2024), incêndios no Canadá e na Califórnia (2023) e enchentes na China e no Paquistão (2022) resultaram em mais de US$ 345 bilhões em perdas financeiras e econômicas. Além disso, 75% dos ecossistemas terrestres e 66% dos marinhos já foram alterados por atividades humanas.
A ciência é clara: limitar o aquecimento a 1,5°C exige a redução das emissões em 45% até 2030. No entanto, as grandes potências seguem priorizando rivalidades geopolíticas.
Os Estados Unidos investem US$ 370 bilhões em energia limpa, por meio do Inflation Reduction Act, mas mantêm subsídios maciços aos combustíveis fósseis. A China expande suas usinas a carvão enquanto lidera investimentos em energia solar. Já a Rússia utiliza petróleo e gás como armas geopolíticas, minando a transição verde da Europa.
O G7, que inclui os seis países mais ricos e a Rússia, representava 50% do Produto Interno Bruto (PIB) global em 1980; hoje responde por apenas 30%. A União Europeia (UE), outrora farol do multilateralismo, enfrenta divisões internas: o Brexit; a ascensão da ultradireita na Itália e na Alemanha; disputas migratórias originadas na África e na Ásia; e a dependência energética agravada pela invasão da Ucrânia. Sem a costumeira coesão, a UE falha em liderar agendas globais, como a do Acordo de Paris.
Fora do G7, o Brasil tem se posicionado como ator relevante. Entretanto, é um microcosmo das contradições do Sul Global. Apesar de sua liderança histórica em questões ambientais e climáticas, o país enfrenta dificuldades para recuperar protagonismo geopolítico, mesmo tendo presidido o G20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo e a União Africana; os BRICS, bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; e, no futuro próximo, a Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP30). Some-se a isso as peculiaridades domésticas: um Congresso majoritariamente conservador, orientado por interesses privados da mineração e do agronegócio não sustentável.
Com o G7 em declínio, Estados Unidos, China e Rússia, formam um triângulo de poder disfuncional, marcado por rivalidades nas áreas de tecnologia, segurança cibernética, segurança energética e autonomia tarifária.
Nesse jogo, o clima torna-se moeda de barganha. A China domina 80% da produção global de painéis solares, impulsionada por um viés expansionista comercial, mas enfrenta dificuldades para transformar sua própria matriz energética. Os Estados Unidos, por sua vez, investem em soluções tecnológicas e inteligência artificial para conter a influência chinesa, mas retrocedem significativamente na implementação de políticas internas de combate às emissões.
O planeta, portanto, parece caminhar para uma “tempestade perfeita”: crises climática, geopolítica e institucional, intensificadas por uma guerra tarifária, pelo avanço de regimes autoritários e pelo agravamento da fome no mundo.
O que se sabe é que o atual sistema de governança global não tem dado respostas à altura dos desafios. A Organização das Nações Unidas (ONU) parece paralisada diante dos avanços da Rússia sobre a Ucrânia, enquanto a Organização Mundial do Comércio (OMC) está enfraquecida para lidar com a guerra tarifária.
Esse vácuo abre espaço para um multilateralismo de coalizão, exemplificado pela Parceria para Transição Energética Justa, formada pela União Europeia, Estados Unidos e África do Sul; pela Aliança dos Países de Floresta Tropical, liderada pelo Brasil; e pela Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), entre outros.
A migração do polo de poder global, do G7 para o G3 e para novas coalizões, evidencia a fragmentação geopolítica, na qual interesses nacionais colidem com desafios globais. Essa nova ordem caótica permite que novos eixos de poder emerjam. Nesse cenário, três fatores críticos moldam o futuro: as evidências científicas incontestáveis da crise climática; o papel estratégico do Brasil na diplomacia global; e a atual postura negacionista dos Estados Unidos em relação ao clima.
O Brasil precisa liderar uma mudança necessária. Como potência ambiental, pode mediar conflitos entre Norte e Sul; como referência diplomática, pode buscar convergências no combate à fome; como país-líder do Sul Global, pode contribuir para o equilíbrio tarifário internacional; e, como nação diversa, pode demonstrar que as diversidades étnica e cultural são essenciais para a prosperidade.
Apesar do que muitos dizem, não há outro planeta para recomeçarmos a civilização humana. A transformação e a resiliência exigirão diversificação das cadeias produtivas, investimento em diplomacia e discussões democráticas por políticas inclusivas, participativas e equitativas. A janela de oportunidade para evitar o caos climático e geopolítico está se fechando, e não sabemos se nossa casa tem outras janelas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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