A revolução das renováveis: a energia (quase) sustentável

Em: 12 de junho de 2025

Atualmente, a transição energética para uma economia de baixo carbono representa um dos maiores desafios globais, pois envolve múltiplas dimensões éticas, tecnológicas, ambientais e financeiras.
A crise climática e as metas do Acordo de Paris exigem esforços sem precedentes: de acordo com o World Energy Outlook 2024, manter o aquecimento médio global abaixo de 1,5 °C depende de triplicar a capacidade de geração renovável até 2030 e quadruplicar os investimentos anuais em energia limpa até 2040. A maior demanda de fontes renováveis elevará a pressão para políticas, infraestrutura, financiamento e recursos minerais. E esta pressão já tem ocorrido – principalmente em territórios indígenas na Amazônia brasileira e peruana.
A Organização das Nações Unidas criou normas para o consentimento livre, prévio e informado em territórios tradicionais e originários. Ignorar esse princípio resultará em conflitos sociais e na criação de “zonas de sacríficos” (áreas degradadas por extração intensiva que negligenciam o valor intrínseco dos ecossistemas e da cultura local). E os desafios não são pequenos.
A integração massiva de renováveis demanda redes elétricas mais inteligentes e flexíveis, gerenciadas por sistemas de inteligência artificial (IA) e internet das coisas (IoT), bem como supercomputadores capazes de modelar cenários climáticos de alta resolução e otimizar a operação de usinas e linhas de transmissão.
A extração de minerais críticos (lítio, cobalto, níquel e terras raras) produz enormes volumes de resíduos tóxicos: cada tonelada de terras raras gera até 75 m³ de efluentes ácidos e algumas centenas de quilos de resíduos radioativos.
E para viabilizar essa expansão elétrica e mineral, exige-se trilhões de dólares em títulos verdes, parcerias público-privadas e reformas no sistema financeiro global para atrair investidores.
E o Brasil é central nesses cenários de desenvolvimento. O Brasil e Rússia são os maiores fornecedores de compostos de terras raras para a China – estima-se algo como USD 100 bilhões em 2025. A Índia, segunda maior consumidora de minério para a transição energética, tem aumentado as relações comerciais com Canadá e o próprio Brasil. O terceiro maior comprador é os EUA – que adquiri mais de 70% da produção do Canadá. E mais: a expansão de data centers das big techs busca países com uma matriz renovável e a disponibilidade de minérios. Por isso o Brasil é o principal ator nesta nova “economia energética”.
Não se pode ser ingênuo e não aproveitar essa oportunidade de qualificar a matriz energética brasileira, receber investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento e manter a segurança energética nacional. Entretanto, é preciso avaliar o como fazer. Além dos impactos da mineração, há ainda possíveis impactos na infraestrutura de distribuição de energia e escoamento de matérias primas.
E aqui mora a “escolha de Sofia”: a necessidade intrínseca da transição energética global, melhorar a infraestrutura de geração e distribuição de energia renovável e limpa, e a exploração de terras raras em áreas protegidas?
O modelo de transição energética justa requer políticas que garantam o consentimento livre, prévio e informado, reforcem a governança socioambiental, estimulem a reciclagem de baterias e metais e promovam transparência nas cadeias de valor. Há também a necessidade de investimentos em educação, pesquisa e fortalecimento de comunidades locais. E o Brasil tem plenas condições de nortear essa discussão e a implementação.
Somente um arranjo integrado de inovação tecnológica, financiamento responsável e respeito aos direitos humanos permitirá transformar o potencial das energias renováveis e dos supercomputadores em oportunidades reais de desenvolvimento sustentável, sem perpetuar desigualdades ou degradar os ambientes que buscamos proteger.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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