O interior do Amazonas criou 2.737 novos empregos com carteira assinada, no ano passado. A diferença entre as contratações (+24.847 vagas) e demissões (-22.110) gerou incremento de 5,58% no estoque de postos de trabalho fora da capital, que chegou a 51.806 vínculos celetistas. A alta veio mais reforçada do que a registrada pela média estadual (+3,83%). Foi suficiente para repor a perda de 2024 (-375), em placar próximo ao de 2023 (+2.789). Dos 61 municípios, 49 tiveram saldos positivos, sendo que os melhores números vieram de Iranduba (+1.077), Manacapuru (+479) e Itacoatiara (+409). A oferta, contudo, basicamente se restringiu ao comércio (+1.448) e à indústria (+1.323).
Em contrapartida, os municípios seguiram a tendência sazonal do Estado e fecharam dezembro com saldo negativo de 669 empregos. Os desligamentos (-2.067) superaram as admissões (+1.398) por uma diferença de 0,11% diante do estoque anterior (578.372). Foi o primeiro dado negativo, após dez meses consecutivos de altas, em ano marcado pelos extremos de janeiro (-1.144) e setembro (+804). No mês do Natal, 27 municípios reduziram efetivos e 17 estagnaram. As demissões vieram principalmente de Presidente Figueiredo (-215) e da agropecuária (-237). Os números são do Novo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), compilados pelo Ministério do Trabalho e Previdência.
Entre as 49 cidades que contrataram mais do que demitiram em 2025, 19 não passaram da casa de um dígito. Foram registradas ainda 11 quedas – principalmente em Tabatinga (-986) – e uma estabilidade. Em dezembro, apenas 16 cidades tiveram saldos positivos. Os números confirmaram ainda que a oferta de trabalho formal no interior segue estruturalmente concentrada. A soma do total de vínculos celetistas ativos de seis municípios responde por mais da metade de todo o estoque contabilizado fora da capital (51.806). A lista inclui Itacoatiara (5.951), Iranduba (5.563), Manacapuru (4.727), Parintins (4.326), Tabatinga (3.650) e Presidente Figueiredo (3.565).
Indústria, serviços, agro
Diferente do ocorrido no Amazonas, apenas três dos cinco setores econômicos conseguiram saldos positivos no interior, em 2025. A maior oferta de geração de empregos celetistas veio do comércio (+1.448), favorecido principalmente pelo varejo. Majoritária em âmbito estadual, a prestação de serviços gerou apenas 21 novas vagas fora de Manaus. O impulso veio principalmente dos grupos que reúnem “transporte, armazenagem e correio” e “informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas”. Na variação mensal, os cortes somaram 21 postos de trabalho no primeiro, e 296, no segundo.
A indústria (+1.323), que se concentra mais nos municípios da RMM (Rede Metropolitana de Manaus), encostou na segunda posição. A performance foi induzida especialmente pela indústria de transformação, com destaque absoluto para o segmento de “outros equipamentos de transporte” – que, no interior, incluem o polo naval e componentistas de duas rodas. Em contraste, os setores de construção e (-31) e agropecuária (-24) amargaram cortes na média das 60 localidades interioranas. Na passagem de novembro para dezembro, a manufatura eliminou 70 ocupações, superando a construção (-45), mas não o setor primário (-237).
Levando em conta o comparativo do acumulado de 2025, o crescimento do emprego com carteira assinada em Iranduba (+1.077) foi sustentado principalmente pela indústria de transformação (+936). Em Manacapuru (+479) e em Itacoatiara (+409), as contratações vieram com mais força do comércio varejista (+241 e +179, respectivamente). Já as demissões de Tabatinga (-986) nesse período se concentraram nos serviços de “administração pública em geral” (-1.102). Os cortes de dezembro efetuados em Presidente Figueiredo (-215) foram puxados pelo cultivo de cana-de-açúcar (-190). Um dos poucos contrapontos da variação mensal veio de Novo Airão (+20), graças aos serviços (+19).
“Cenário de acomodação”
A professora do departamento de Economia da Ufam, e ex-presidente do Corecon-AM, Michele Lins Aracaty e Silva, reforça que a geração de emprego no interior é imprescindível para o equilíbrio econômico do Amazonas, além de contribuir para a interiorização de seu desenvolvimento, descentralização econômica, redução das desigualdades, melhoria da qualidade de vida fora da capital e intensificação da economia local, ao gerar emprego e renda. Segundo a economista, os resultados do Novo Caged refletem um cenário de acomodação do mercado de trabalho, após um período de instabilidade, em movimento impactado por fatores regionais e sazonalidade.
“O cenário segue uma tendência de concentração nas cidades que apresentam melhores condições de infraestrutura e logística, além de proximidade com a capital. Fatores infraestruturais e logísticos regionais (custo Amazônia), necessidade de capital humano qualificado, informalidade e formalização de empresas retardam a interiorização do desenvolvimento, chamando a atenção para a necessidade de planejamento e ações coordenadas para a descentralização econômica. Considerando-se a atual conjuntura, acreditamos que o cenário se repita no próximo trimestre, uma vez que os desafios regionais necessitam de tempo e vultosos volumes de investimento para a população poder ser beneficiada com o processo de transformação”, analisou.
“Base frágil”
De acordo com a consultora empresarial, professora universitária e conselheira do Cofecon, Denise Kassama, a geração de empregos no interior é um processo difícil, em virtude da complexidade logística. “Muitos municípios não se comunicam e a atividade econômica fica reescrita a eles, com boa parte das prefeituras sobrevivendo às custas de repasses de ICMS. Os dados mostram melhoria, mas a maior parte dos empregos gerados está em localidades na RMM, onde a comunicação é mais fácil com Manaus, assim como o envio de produtos e a vinda de pessoas. A economia tende a se expandir mais nessa região e mostrar oscilações em cidades que têm eventos, como Parintins e Presidente Figueiredo”, ponderou.
Já o consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, tem entendimento semelhante. “O que mais salta aos olhos é a performance relativa do interior, superando a média do Estado. Mas, a questão está na dependência setorial dos municípios, com a muleta principalmente no comércio. Isso ainda demonstra uma base econômica frágil. Já as demissões de Tabatinga, concentradas na administração pública, acendem um sinal de alerta para as vulnerabilidades de localidades que dependem de repasses e contratos públicos. Há também fatores sazonais, na agropecuária de Figueiredo, por exemplo. Mas, ainda há de se esperar um ano muito bom para a movimentação de capital e geração de empregos”, arrematou.







