Ao ser interpelado sobre a lógica subjacente à Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o cientista político francês Raymond Aron — um dos maiores estudiosos da política internacional do século XX e autor do clássico Paz e Guerra entre as Nações (1962) — ofereceu uma resposta simplificada que se tornaria lugar-comum nas abordagens teóricas da política internacional: “guerra improvável, paz impossível”.
A fórmula aroniana condensava em si o paradoxo estratégico que estruturava o sistema internacional da segunda metade do século 20. A destruição mútua assegurada decorrente da posse de arsenais nucleares tornava o confronto militar direto entre as superpotências praticamente suicida, de um lado. E as incompatibilidades ideológicas, geopolíticas e econômicas entre os dois blocos tornavam inviável uma paz genuína ou uma convivência plenamente cooperativa, de outro.
A Guerra Fria, portanto, não foi um período de paz no sentido estrito do termo, mas um sistema de conflitividades permanentes sob limites claros. A competição global manifestava-se em campos diversos — ideológico, tecnológico, econômico e militar — sem que as duas potências nucleares se enfrentassem diretamente no campo de batalha.
Durante décadas, a sentença de Aron mostrou-se quase tautológica na interação entre superpotências. O conflito militar convencional ou nuclear entre Estados Unidos e União Soviética, como a história demonstrou, foi evitado a duras penas. A partir da década de 1960 e, especialmente, após a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962; os mecanismos de gerenciamento de crise passaram a ser institucionalizados, inclusive com a criação da chamada Linha Vermelha, o canal direto de comunicação entre Washington e Moscou destinado a impedir erros de cálculo em momentos de tensão global.
A crise caribenha transformou-se em détente e coexistência pacífica. Isso não significou o fim da rivalidade entre as superpotências, mas a consolidação de um entendimento tácito: cada potência deveria respeitar a zona de influência estratégica da outra. Esse equilíbrio informal constituía a base de uma espécie de concerto nuclear, um sistema em que a prudência estratégica substituía a lógica da vitória absoluta.
O fim da Guerra Fria, entretanto, alterou profundamente a estrutura do sistema internacional. Com o colapso da URSS, em 1991, os EUA emergiram como a única superpotência global, inaugurando o “momento unipolar”.
A ausência de rivais estratégicos permitiu que Washington exercesse um grau de liberdade de ação sem precedentes na política internacional. A supremacia militar, tecnológica e financeira americana possibilitou intervenções diretas ou indiretas em diferentes regiões do planeta, seja por meio da diplomacia coercitiva, seja pelo uso direto da força militar.
Contudo, os acontecimentos do 11 Setembro em 2001 contribuíram para abalar a percepção de invulnerabilidade da superpotência. A resposta americana, materializada nas intervenções militares no Afeganistão e no Iraque, inaugurou uma longa era de guerras assimétricas e conflitos prolongados no Grande Oriente Médio.
Essas campanhas militares revelaram-se extraordinariamente custosas. Apenas as operações no Afeganistão (2001–2021) e no Iraque (2003–2011) custaram US$ 2,3 trilhões e US$ 1,79 trilhões, respectivamente, além de implicarem elevado custo político para Washington. As chamadas “guerras eternas” demonstraram os limites da supremacia militar em conflitos irregulares e contribuíram para a deterioração da liderança global norte-americana.
Enquanto isso, uma transformação silenciosa ocorria no sistema internacional. A China, que durante a Guerra Fria havia sido uma aliada fundamental dos Estados Unidos na contenção da União Soviética, passou a promover uma expansão geoeconômica de proporções colossais.
Ao contrário da estratégia americana baseada na projeção militar, Pequim investiu pesadamente em infraestrutura, logística, comércio e tecnologia, ampliando sua presença econômica em diferentes regiões do planeta. Iniciativas como a expansão de corredores logísticos, portos e redes ferroviárias — especialmente na Ásia, na África, na Eurásia e, recentemente, na América Latina — consolidaram uma nova forma de projeção de poder baseada na interdependência e cooperação.
Enquanto Washington mobilizava recursos mastodônticos em campanhas militares prolongadas, Pequim priorizava investimentos estruturais capazes de ampliar sua influência econômica global. A política internacional, como a vida ensina, é também uma consequência de escolhas e renúncias. Assim, o declínio relativo da hegemonia americana tornou-se progressivamente perceptível, ao mesmo tempo em que a ascensão chinesa passou a ser interpretada, por muitos analistas, como uma tendência irrefreável.
Logo, até o presente momento, a dinâmica estratégica entre Washington e Pequim não refuta completamente a perspectiva aroniana. Tal como ocorreu durante a Guerra Fria, a interdependência econômica global e os custos potencialmente catastróficos de um conflito direto entre grandes potências funcionam como poderosos fatores de contenção da própria guerra. De tal modo, a nova rivalidade sino-americana parece reproduzir, em muitos aspectos, a lógica estrutural da Guerra Fria, ainda que em um contexto profundamente distinto.
Se pensarmos bem, a competição ocorre simultaneamente em dois níveis. No primeiro nível, observa-se uma relativa estabilidade estratégica entre as duas nações; o risco de guerra direta permanece reduzido devido à dissuasão nuclear, à interdependência econômica e à consciência dos custos sistêmicos de um confronto aberto. No segundo nível, contudo, multiplicam-se as tensões diplomáticas, disputas regionais e conflitos indiretos em áreas estratégicas do sistema internacional; regiões periféricas ou Estados aliados tornam-se espaços privilegiados de competição geopolítica, reproduzindo uma lógica clássica de confrontação indireta.
Ao fim e ao cabo, a política internacional contemporânea parece caminhar novamente para uma situação paradoxal: uma estrutura em que a guerra direta entre grandes potências permanece improvável, mas em que a paz sistêmica continua distante de ser alcançada. A fórmula de Raymond Aron continua surpreendentemente atual.
*é cientista político















