Mais de um século depois de um crime que marcou a história de Manaus, a trajetória de Etelvina de Alencar retorna ao debate público pelas lentes do cinema amazônico. No documentário Etelvina – A Ressignificação da Tragédia, o cineasta Cleinaldo Marinho revisita o caso ocorrido em 1901, que transformou a vitima na figura de Santa Etelvina no Amazonas, para propor uma reflexão que ultrapassa o tempo: a permanência da violência contra a mulher e a forma como a memória coletiva transforma dor em fé e significado.
A partir de uma narrativa que combina pesquisa histórica, depoimentos e elementos de reconstrução dramática, o filme mergulha em uma história marcada por devoção popular e lacunas documentais, conectando passado e presente. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, o diretor fala sobre o processo de criação da obra, o interesse por personagens femininas da história amazônica e os caminhos de reflexão que o longa propõe ao público.
ENTREVISTA CLEINALDO MARINHO – Diretor de Etelvina – A Ressignificação da Tragédia
JC: O filme parte de um crime ocorrido em 1901, mas também dialoga com temas atuais, como o feminicídio. De que forma essa história do passado se conecta com as discussões contemporâneas sobre violência contra a mulher?
Cleinaldo Marinho: Embora o termo feminicídio seja contemporâneo, a violência contra a mulher é uma realidade histórica. Se formos considerar a definição de Diana Russell, que serviu de base para legislações e também para organismos internacionais, o feminicídio é o assassinato de mulheres por serem mulheres, destacando motivações estruturais como misoginia, controle e dominação.
O caso da Etelvina reúne todos esses elementos. Um relacionamento abusivo, marcado por rejeição, posse, ciúme e controle. Ao revisitar o episódio, o filme propõe justamente esse diálogo entre passado e presente, mostrando que essas violências fazem parte de uma estrutura que atravessa gerações.

JC: Como foi o processo de pesquisa e reconstrução dessa narrativa mais de um século depois da tragédia?
CM: Foi um processo que exigiu o cruzamento de diferentes fontes: pesquisas nos arquivos da Biblioteca Estadual, no Cemitério São João Batista, na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, diversas entrevistas, além de levantamentos junto ao Tribunal de Justiça do Amazonas. Somam-se a isso as inúmeras visitas ao túmulo e ao bairro que leva seu nome, onde a memória persiste e se mantém viva por meio da devoção, ainda que de poucos populares.
O desafio consistiu em equilibrar esses elementos, entre documentos oficiais e memória oral, para construir uma narrativa que respeitasse a complexidade da história. Nesse sentido, a proposta estética cinematográfica baseia-se na convergência de gêneros, como o filme documental e o docudrama, configurando uma abordagem híbrida. Enquanto o documentário organiza os dados históricos e os testemunhos, o docudrama atua como recurso de reconstituição, preenchendo lacunas e tensionando os limites entre fato e interpretação.
JC: O senhor já realizou outras obras centradas em mulheres da história amazônica, como Ária Ramos e Violeta Branca. O que o motiva a revisitar essas trajetórias femininas em sua filmografia?
CM: Existe uma lacuna histórica na visibilidade dessas mulheres. Muitas trajetórias femininas foram marginalizadas ou reduzidas a notas secundárias nos registros oficiais. Meu interesse é justamente trazer essas histórias para o centro, não apenas como personagens individuais, mas como expressões de contextos sociais, culturais e políticos mais amplos. Ao revisitar essas trajetórias, buscamos também reequilibrar narrativas e ampliar o repertório de memória da região.
JC: Que reflexão o público deve levar consigo após assistir a Etelvina – A Ressignificação da Tragédia?
CM: Espero que o público saia do filme com mais perguntas do que respostas. A obra não pretende encerrar a história, mas abrir caminhos de reflexão sobre memória, violência, fé e construção social de narrativas. Também é um convite a pensar como transformamos dor em significado e como determinadas histórias persistem não apenas pelo que aconteceu, mas pelo que elas passam a representar.
JC: Como o filme trabalha essa tensão entre dor e fé?
CM: O filme não trata dor e fé como opostos, mas como dimensões que muitas vezes caminham juntas. A dor da tragédia é o ponto de partida. É justamente a partir dela que surge a fé, como forma de busca por sentido diante de fenômenos que escapam à compreensão da realidade humana finita, como as preces realizadas e atendidas no jazigo de Etelvina e os relatos populares de um corpo encontrado intacto mesmo dias após a morte.
O roteiro procura mostrar como essa transformação acontece, sem romantizar a violência, mas reconhecendo a complexidade das experiências humanas diante do sofrimento.
JC: A estreia do documentário deve acontecer em um local ligado à história narrada no filme. Qual foi a intenção simbólica por trás dessa escolha?
CM: A escolha do local de estreia tem um forte caráter simbólico, pois reinsere a obra no espaço onde parte da memória foi construída. É uma forma de aproximar o público da história, não apenas de maneira narrativa, mas também sensorial e territorial. Exibir o filme nesse contexto reforça a ideia de que essa não é apenas uma história do passado, mas algo que ainda está presente no cotidiano e na identidade da cidade.







