Etelvina: memória, tragédia e cinema

Em: 23 de março de 2026
Filme de Cleinaldo Marinho revisita crime de 1901 e conecta passado à violência contra a mulher nos dias atuais.
"Documentário mistura pesquisa histórica e reconstrução dramática para revisitar o caso de Etelvina."
"Documentário mistura pesquisa histórica e reconstrução dramática para revisitar o caso de Etelvina."

Mais de um século depois de um crime que marcou a história de Manaus, a trajetória de Etelvina de Alencar retorna ao debate público pelas lentes do cinema amazônico. No documentário Etelvina – A Ressignificação da Tragédia, o cineasta Cleinaldo Marinho revisita o caso ocorrido em 1901, que transformou a vitima na figura de Santa Etelvina no Amazonas, para propor uma reflexão que ultrapassa o tempo: a permanência da violência contra a mulher e a forma como a memória coletiva transforma dor em fé e significado.

A partir de uma narrativa que combina pesquisa histórica, depoimentos e elementos de reconstrução dramática, o filme mergulha em uma história marcada por devoção popular e lacunas documentais, conectando passado e presente. Nesta entrevista ao Jornal do Commercio, o diretor fala sobre o processo de criação da obra, o interesse por personagens femininas da história amazônica e os caminhos de reflexão que o longa propõe ao público.

 

ENTREVISTA CLEINALDO MARINHO – Diretor de Etelvina – A Ressignificação da Tragédia

JC: O filme parte de um crime ocorrido em 1901, mas também dialoga com temas atuais, como o feminicídio. De que forma essa história do passado se conecta com as discussões contemporâneas sobre violência contra a mulher?

Cleinaldo Marinho: Embora o termo feminicídio seja contemporâneo, a violência contra a mulher é uma realidade histórica. Se formos considerar a definição de Diana Russell, que serviu de base para legislações e também para organismos internacionais, o feminicídio é o assassinato de mulheres por serem mulheres, destacando motivações estruturais como misoginia, controle e dominação.

O caso da Etelvina reúne todos esses elementos. Um relacionamento abusivo, marcado por rejeição, posse, ciúme e controle. Ao revisitar o episódio, o filme propõe justamente esse diálogo entre passado e presente, mostrando que essas violências fazem parte de uma estrutura que atravessa gerações.

 

"O cineasta Cleinaldo Marinho resgata uma das histórias mais marcantes da memória popular de Manaus."
“O cineasta Cleinaldo Marinho resgata uma das histórias mais marcantes da memória popular de Manaus.”

 


JC: Como foi o processo de pesquisa e reconstrução dessa narrativa mais de um século depois da tragédia?

CM: Foi um processo que exigiu o cruzamento de diferentes fontes: pesquisas nos arquivos da Biblioteca Estadual, no Cemitério São João Batista, na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, diversas entrevistas, além de levantamentos junto ao Tribunal de Justiça do Amazonas. Somam-se a isso as inúmeras visitas ao túmulo e ao bairro que leva seu nome, onde a memória persiste e se mantém viva por meio da devoção, ainda que de poucos populares.

O desafio consistiu em equilibrar esses elementos, entre documentos oficiais e memória oral, para construir uma narrativa que respeitasse a complexidade da história. Nesse sentido, a proposta estética cinematográfica baseia-se na convergência de gêneros, como o filme documental e o docudrama, configurando uma abordagem híbrida. Enquanto o documentário organiza os dados históricos e os testemunhos, o docudrama atua como recurso de reconstituição, preenchendo lacunas e tensionando os limites entre fato e interpretação.

JC: O senhor já realizou outras obras centradas em mulheres da história amazônica, como Ária Ramos e Violeta Branca. O que o motiva a revisitar essas trajetórias femininas em sua filmografia?

CM: Existe uma lacuna histórica na visibilidade dessas mulheres. Muitas trajetórias femininas foram marginalizadas ou reduzidas a notas secundárias nos registros oficiais. Meu interesse é justamente trazer essas histórias para o centro, não apenas como personagens individuais, mas como expressões de contextos sociais, culturais e políticos mais amplos. Ao revisitar essas trajetórias, buscamos também reequilibrar narrativas e ampliar o repertório de memória da região.

 

JC: Que reflexão o público deve levar consigo após assistir a Etelvina – A Ressignificação da Tragédia?

CM: Espero que o público saia do filme com mais perguntas do que respostas. A obra não pretende encerrar a história, mas abrir caminhos de reflexão sobre memória, violência, fé e construção social de narrativas. Também é um convite a pensar como transformamos dor em significado e como determinadas histórias persistem não apenas pelo que aconteceu, mas pelo que elas passam a representar.

JC: Como o filme trabalha essa tensão entre dor e fé?

CM: O filme não trata dor e fé como opostos, mas como dimensões que muitas vezes caminham juntas. A dor da tragédia é o ponto de partida. É justamente a partir dela que surge a fé, como forma de busca por sentido diante de fenômenos que escapam à compreensão da realidade humana finita, como as preces realizadas e atendidas no jazigo de Etelvina e os relatos populares de um corpo encontrado intacto mesmo dias após a morte.

O roteiro procura mostrar como essa transformação acontece, sem romantizar a violência, mas reconhecendo a complexidade das experiências humanas diante do sofrimento.

JC: A estreia do documentário deve acontecer em um local ligado à história narrada no filme. Qual foi a intenção simbólica por trás dessa escolha?

CM: A escolha do local de estreia tem um forte caráter simbólico, pois reinsere a obra no espaço onde parte da memória foi construída. É uma forma de aproximar o público da história, não apenas de maneira narrativa, mas também sensorial e territorial. Exibir o filme nesse contexto reforça a ideia de que essa não é apenas uma história do passado, mas algo que ainda está presente no cotidiano e na identidade da cidade.

Lílian Araújo

É Jornalista, Artista, Gestora de TI, colunista do JC e editora do Jornal do Commercio
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