A confiança do consumidor de Manaus saiu novamente enfraquecida, na passagem de fevereiro para março, e mais uma vez na contramão da média nacional. Os dados locais da ICF (Intenção de Consumo das Famílias) revelam que, o manauara reduziu sua propensão às compras pelo segundo mês consecutivo. Ainda assim, o indicador da CNC continua sinalizando mais otimismo do que o registro de 12 meses atrás. Em síntese, o manauara está mais otimista com a carreira e um pouco mais satisfeito com a renda, embora ainda tenha reduzido suas perspectivas de consumo – principalmente de bens duráveis – diante da maior dificuldade para conseguir crédito.
Segundo a Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o ICF de Manaus registrou 121,3 pontos em fevereiro e ficou 1,7% abaixo da marca de janeiro (123,3 pontos). O índice permanece na zona de satisfação (acima dos 100 pontos) pelo 29º mês seguido. A queda foi puxada principalmente pelas famílias com rendimentos abaixo de dez salários mínimos (118,9 pontos), que regrediu 1,7%. A confiança dos consumidores com renda acima desse patamar (145,8 pontos) decresceu 1,3%. O ICF manauara, contudo, avançou 3% ante da marca de março de 2025 (117,8 pontos), com ganhos restritos as mais pobres (+3,4%) em detrimento dos demais (-1,08%).
Em contraste, a disposição do consumidor brasileiro para as compras aumentou pelo terceiro mês consecutivo, entre fevereiro e março, por uma diferença de 0,4%. O ICF nacional também cresceu 2,4% frente ao mesmo mês do ano passado, na quinta alta seguida nesse tipo de comparação. Com isso, o indicador totalizou 104,6 pontos e reforçou sua posição no quadrante positivo da confiança. Em seu comunicado à imprensa, a Confederação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo assinala que esse foi o melhor dado desde março de 2015 (107,8 pontos), em resultado favorecido pela deflação nos bens duráveis e a maior propensão do brasileiro a adquirir tais produtos.
O esmorecimento na intenção de consumo em Manaus ocorre um mês após a Peic (Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor), da mesma entidade, mostrar recorde no número de famílias de Manaus embarreiradas por contas a pagar (88,2%, ou 623.810 delas), e novo aumento na quantidade de negativadas (50% ou 353.990). Já o Icec (Índice de Confiança do Empresário Comercial), também da CNC, apontou reforço no otimismo dos comerciantes, em melhora induzida pela percepção sobre as condições atuais da economia, do comércio e da própria empresa, embora as expectativas tenham sofrido nova inflexão. Há maior intenção de investir, mas nem tanto de empregar.
Renda e emprego
Na passagem de fevereiro para março, o Índice de Consumo das Famílias manauara perdeu velocidade em cinco de seus sete componentes, sendo que dois se encontram em nível de insatisfação. Em um mês sem datas comemorativas, os progressos se restringiram aos componentes do indicador relativos à perspectiva profissional (+2,1%) e à renda atual (+0,4%). Em contraste, os subíndices de prazo/acesso ao crédito (-6,9%), “momento para duráveis” (-4,7%) e perspectiva de consumo (-4,6%) impulsionaram a queda, assim como o emprego atual (-0,8%) e nível de consumo atual (-0,2%).
A pontuação mais baixa ainda vem do subindicador de “momento para duráveis” (83,9 pontos), que se segue no quadrante da insatisfação. A maioria absoluta (53,6%) garante que esta não é a hora ideal para se endividar com compras longo prazo e apenas 37,5%tem opinião contrária. Com a manutenção da taxa Selic em patamar proibitivo, o entendimento sobre o crédito (95,5 pontos) também entrou em negativo, marcando a segunda mais baixa pontuação. Os consumidores que consideram que o acesso ficou mais difícil (45,9%) inverteram o jogo e conseguira estreita maioria sobre os que pensam o oposto (41,4%), ao passo que 7,5% veem empate.
O nível de consumo atual (109,5 pontos) ainda responde pelo terceiro escore mais baixo da lista em Manaus. A diferença entre as famílias que ganham mais (136,6 pontos) e menos (106,9 pontos) de dez salários mínimos diminuiu, mas continua significativa. Mesmo com o subíndice desfavorecido por um decréscimo mensal, a fatia de manauenses que estão indo mais às compras neste ano do que no anterior (46,1%) ainda detém relativa dianteira sobre a parcela de consumidores que estão consumindo menos (36,6%). Outros 16,8% consideram que a situação não apresentou alterações entre um exercício e outro.
Fortalecida, a avaliação sobre a renda familiar atual (135,9 pontos) tem pontuação melhor, assim como ocorrido com a perspectiva de consumo (120,6 pontos). A fatia de entrevistados que aponta piora nos rendimentos neste ano (22,1%) segue minoritária, assim como a dos que dizem que está igual (19,4%). No outro extremo está a maioria dos que afiançam melhora (58%). Do lado das expectativas, 48,7% das famílias apostam em compras maiores nos próximos meses, 25,2% aguardam cenário adverso e 19,9% confiam na estabilidade.
A perspectiva profissional (161,8 pontos) continua com o maior escore da lista, sendo secundada pelo subindicador de situação atual do emprego (141,9 pontos). Ao menos 77,4% das famílias locais esperam melhora na carreira nos próximos seis meses, em número quase cinco vezes superior aos dos que têm opinião oposta (15,5%). Já a distância entre os entrevistados que se dizem “mais seguros” (54%) quanto ao emprego atual e os que apontam que estão “menos seguros” (12,1%) ficou ainda mais significativa. O público que não enxerga mudanças (10,4%) caiu e a cota de desempregados (23,4%) cresceu.
“Consumo seletivo”
No texto divulgado à imprensa, a CNC destaca que o motor do ganho do otimismo de março no âmbito nacional foi o “momento para compra de bens duráveis”, que saltou 16,6% na variação anual graças à desaceleração do IPCA desses produtos nos 12 meses encerrados em fevereiro (-3,81%). “Para essa equação encontrar equilíbrio e não aumentar ainda mais os níveis de endividamento e inadimplência, precisamos que a política monetária do Banco Central e as autoridades financeiras promovam a redução dos juros, o que deverá garantir a sustentabilidade desse ciclo de consumo e produção”, frisou o presidente do CNC, José Roberto Tadros.
O economista da Fecomercio-AM, Max Cohen, enfatizou à reportagem que o cenário do consumo de Manaus segue positivo, mas com tendência de desaceleração. “Há sinais claros de moderação no curto prazo, especialmente devido à restrição de crédito. Para os empresários, o momento recomenda estratégias comerciais mais direcionadas, com foco em condições de pagamento, gestão de risco de inadimplência e segmentação por renda, priorizando o público de maior poder aquisitivo, que segue mais resiliente. A dinâmica atual não aponta para retração abrupta, mas indica consumo mais seletivo, sensível ao crédito e menos expansivo no primeiro semestre”, arrematou.







