A queda na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não é apenas resultado de suas políticas domésticas — erros na condução da política fiscal, ausência de uma agenda robusta de infraestrutura, baixo crescimento econômico e o enfraquecimento da política de aliança de classes. Parte desse desgaste pode também ser atribuída a uma política externa errática, sem foco estratégico e excessivamente refém das circunstâncias internacionais. Talvez estejamos diante de um Lula com virtù, mas sem fortuna.
Explico.
Os dois primeiros mandatos do líder petista (2003-2010) foram marcados por uma política exterior audaciosa, orientada por um espírito protagônico e ativista. A chamada Política Externa Altiva e Ativa, formulada e implementada à três mãos — Lula, no plano político, Celso Amorim, no plano diplomático, e Samuel Pinheiro Guimarães, no plano intelectual-estratégico — edificou a principal diretriz da inserção internacional do Brasil naquele período. Com traços de doutrina, essa política foi capaz de reposicionar o país nas grandes discussões globais, ampliando sua margem de autonomia e projetando sua imagem como liderança emergente do Sul Global.
Essa estratégia esteve profundamente ancorada no sistema internacional da época. Tratava-se de um momento de expansão do multilateralismo, do fortalecimento de instituições internacionais e do crescimento do comércio global (início do boom econômico chinês). O Brasil soube explorar com maestria esse ambiente ao diversificar suas parcerias, intensificar sua presença em fóruns como a OMC, o BRICS e o G20, além de investir na integração sul-americana e na cooperação Sul-Sul em diferentes níveis. Ao adotar uma postura ativa, o país conseguiu tanto ampliar mercados quanto fortalecer sua posição negociadora, operando com habilidade dentro de um sistema internacional poliárquico relativamente previsível e baseado em regras.
Sic transit gloria mundi, a segunda década do século XXI inaugura-se sob o signo da ruptura: uma pandemia global, seguida por um conflito armado de grandes proporções no coração da Europa, redefiniu a infraestrutura da política internacional. O declínio relativo do projeto europeu, o aprofundamento do eixo estratégico entre Rússia e China, a emergência de novas potências regionais e as crescentes incertezas quanto à capacidade da hegemonia norte-americana acenderam sinais de alerta e já provocaram mudanças substantivas na ordem global.
O modelo que sustentava a ordem multilateral — o propalado sistema internacional baseado em regras — dá sinais evidentes de exaustão. Em seu lugar, emerge uma configuração mais instável e fragmentada, caracterizada por uma lógica multipolar na qual o poder das potências, e não necessariamente o direito internacional, volta a ocupar posição central na resolução de conflitos internacionais. Trata-se de um ambiente menos cooperativo e mais conflitivo, no qual a previsibilidade dá lugar à disputa aberta por controle e segurança regional.
É diante desse cenário de incerteza e ambiguidade que a política externa brasileira se encontra ancorada. Em vez de formular uma estratégia clara de inserção nesse novo mundo, o país parece oscilar entre referências do passado e respostas improvisadas ao presente.
O dramaturgo Nelson Rodrigues tinha razão ao afirmar que “subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos.” Parafraseando o Anjo Pornográfico, política externa tampouco se improvisa: ela exige continuidade, inteligência estratégica e capacidade de inovação. Não se trata só de uma política de governo, mas de Estado, construída ao longo do tempo e sustentada por consensos mínimos entre as lideranças políticas, diplomáticas e militares.
É fundamental reconhecer que política externa não pode ser refém de clivagens eleitorais. A oscilação entre projetos distintos a cada mudança de governo compromete a credibilidade internacional do país e enfraquece sua capacidade de atuação. O contraste entre o Lula do multilateralismo e o Lula que atua em um mundo multipolar evidencia essa dificuldade de adaptação: a estratégia que outrora foi bem-sucedida já não encontra o mesmo terreno fértil de resultados assertivos.
Além disso, há um elevado custo transação associado a essa desorientação. Internamente, o governo enfrenta restrições significativas: uma oposição bolsonarista militante, altamente mobilizada, e um ambiente de crescente ativismo judicial, que avacalha as relações entre os poderes e restringe a margem de manobra do Executivo na construção do processo decisório via arenas legislativas. A política externa, todavia, deixa de ser um instrumento de projeção estratégica e passa a ser mais um campo de disputa doméstica entre as forças antagônicas do jogo.
Por fim, cabe destacar que o atual governo, ao priorizar o ativismo judicial como ferramenta de enfrentamento político, acabou por relegar a segundo plano a construção de consensos por meio da política partidária tradicional. Essa escolha tem implicações diretas não apenas na governabilidade interna, mas também na coerência e previsibilidade da política externa diante do cenário eleitoral que se aproxima.
O Brasil enfrenta hoje o desafio de redefinir sua inserção internacional em um mundo em transformação acelerada. Isso exige mais do que retórica ou improvisação: requer, isto sim, uma estratégia clara, capaz de articular interesses nacionais, reconhecer limites estruturais e explorar oportunidades emergentes. Sem isso, o país corre o risco de perder relevância em um cenário global cada vez mais competitivo, agora, e mais conflitivo, amanhã.
A aplicação da política externa, como bem sugere a sua história de séculos, não admite improvisos. E, quando improvisada, cobra seu preço — dentro e fora das fronteiras nacionais.
*é cientista político















