Nasci em 1983. Isso significa dizer que vim ao mundo em um quadrante histórico bastante particular do século XX: os últimos dias do regime militar brasileiro coabitavam, no plano internacional, com o ato final da Guerra Fria, que culminaria no colapso da União Soviética. Era um tempo de transição, em que antigas estruturas políticas ainda resistiam, enquanto novas formas de organização econômica e geopolítica começavam a se impor.
As mudanças não se restringiam aos cálculos políticos ou à infraestrutura econômica. A década de 1980 foi marcada pela ousadia da vida consumista, pelos filmes violentos, pela popularização da TV colorida, pelo uso da cocaína, pela epidemia da AIDS, pelo pós-punk e pelo rock brasileiro de Cazuza, Renato Russo, Herbert Vianna, entre tantos outros da Geração Coca-Cola.
Naquele momento, a Zona Franca de Manaus consolidava-se como um grande polo de produção e consumo voltado a uma classe média açoitada pela inflação. Pessoas de todo o Brasil vinham a Manaus — acredite! — para adquirir produtos fabricados no polo industrial. Marcas como Gradiente, Polyvox, Sharp e Panasonic simbolizavam não apenas a capacidade produtiva da região, mas também um projeto nacional de industrialização que buscava reduzir a dependência externa e fomentar o consumo e a produção em nosso país.
A economia brasileira era, então, fortemente marcada por um modelo autárquico, orientado pela substituição de importações. Tínhamos, na prática, uma das economias mais fechadas do mundo. A liberalização econômica dos anos 1990 resolveu parcialmente o problema do estrangulamento produtivo, mas trouxe consigo novas incertezas, de maneira especial para empresas nacionais que não estavam preparadas para competir em um ambiente mais aberto e sujeito às externalidades da globalização.
Quando penso na década de 1990, minha memória afetiva imediatamente evoca o Compact Disc. Sim, aquele objeto prateado que prometia revolucionar a música e a forma de consumi-la: e, de fato, o fez. O som digital era mais limpo; o ouvinte podia pular faixas com o simples toque de um botão; e o formato compacto, é claro, ajustava-se perfeitamente a uma classe média cada vez mais adaptada a espaços reduzidos nos automóveis, nas residências, nos aparelhos de som.
A popularização do CD foi rápida e abrangente. Impulsionado pela indústria fonográfica e pela comunidade artística, o novo formato se disseminou como símbolo de modernidade e evolução tecnológica.
Todavia, havia um problema incômodo a ser resolvido: o que fazer com os velhos, grandes e pesados discos de vinil?
Doar para quem? Vender para quem?
Muitas famílias tomaram decisões drásticas para se desfazer daquele inconveniente: jogar no lixo tornou-se uma opção. Assim como ocorreu com livros descartados — prática infelizmente comum no Brasil —, lembro-me de ter visto estoques inteiros de LPs sendo despejados em lixeiras e aterros.
O declínio do vinil e a hegemonia do CD pareciam, então, favas contada no mundo dos negócios.
Ocorre que a supremacia do CD seria, mais tarde, desafiada pela pirataria. Em cada esquina das grandes cidades brasileiras era possível encontrar barracas de camelôs vendendo CDs e DVDs piratas; na internet, o download ilegal de discografias inteiras tornou-se prática corriqueira. Quantas madrugadas a fio passei fazendo downloads de filmes e de discos…
O CD, antes símbolo de inovação, transformou-se em sua principal vítima. Esse processo só seria parcialmente contido décadas depois, com a expansão dos serviços de streaming de áudio e de vídeo.
Mas, como em uma espécie de vingança geracional, o vinil retornou silenciosamente para desafiar outra vez o mercado fonográfico mundial.
O boom do revival do LP começou por volta de 2007, especialmente nos Estados Unidos, após anos de queda nas vendas. Esse ressurgimento foi impulsionado, em grande parte, por fatores como a valorização da experiência analógica, o apelo estético das capas e encartes, o desejo de consumo mais tangível em contraposição à virtualização total da música e o engajamento de artistas e gravadoras independentes. A guerra assimétrica e de guerrilha havia começado.
Após anos de crescimento consistente, o vinil voltou a ocupar um lugar de destaque no mercado internacional de música. Em 2020, superou o CD em receitas pela primeira vez em décadas. Em 2022, as vendas ultrapassaram a casa de 1 bilhão de dólares, algo inédito em toda história fonográfica.
Esses números não devem ser interpretados como uma moda passageira, mas como expressão de uma mudança cultural profunda. Afinal, o vinil conecta gerações distintas — dos Baby Boomers e da geração X, que vivenciaram seu auge, aos Millennials, geração Z e até mesmo a geração Alfa, que hoje lideram, em muitos casos, o consumo dos “bolachões”. Tudo isso parece assustador, irracional, belo e nostálgico.
Na prática, o retorno do vinil reativou um espírito comunitário mediado pela música: audições coletivas, fábricas, selos, trocas em feiras, relançamentos, debates em redes sociais e a proliferação de bares, restaurantes e espaços temáticos para a audição dos discos de vinil. O vinil não representa apenas nostalgia, um teimoso movimento atávico, mas uma forma específica de experiência estética, sensorial e auditiva — a experiência é verdadeiramente mais lenta, mais ritualizada e, para mim, mais significativa. Vinil é definitivamente qualidade de vida em 33 rotações por minuto.
*é cientista político















