O antagonismo político nos fatos econômicos

Em: 11 de junho de 2026

Caapiranga-AM, que traduzido da língua tupi significa “folha vermelha”.  Em sua bandeira e brasão, o home do campo, a pesca e a educação são emblemas pujantes no cotidiano da pequena cidade de 14.310 habitantes (FGV MUNICÍPIOS, 2024). Em 12 de dezembro de 2023 o município de Caapiranga é nomeado pela Lei nº 6.701/2024 como Capital Estadual do Cará, lei de autoria do deputado estadual Cristiano D’Ângelo, um ato político de grande representatividade para a sociedade Caapiranguense.

Figura 1: Bandeira de Caapiranga-AM

Fonte: Wikipédia (2020)

FATOS ECONÔMICOS

Em um comparativo com o que a bandeira remete, agricultura, pesca e educação, temos os números do Produto Interno Bruto (PIB) de Caapiranga-AM que são todos os bens e serviços produzidos no município. No gráfico 1 abaixo, apresentaremos o VAB Agrícola a Preços Correntes no município de Caapiranga-AM a partir da série histórica de 2016-2021.

Gráfico 1: Série histórica do VAB Agrícola a Preços Correntes

Fonte: Observatório Sebrae (2026)

Entre 2016-2021 observa-se que o Valor Adicionado Bruto (VAB) Agrícola a Preços Correntes, que é um indicador macroeconômico da diferença entre o que foi produzido e os custos operacionais, vem caindo cerca de 5,65% ao ano (2019-2021). O auge do VAB foi em 2019 com valor total de R$ 63.541,00. Em uma linha de tendência observamos que só a partir deste ano (2026) é que haverá crescimento, porém somente em 2035 é que os números de 2019 serão recuperados, a depender de fatores climáticos e políticos. É irredutível pensar que, ao longo de uma década, não será possível recuperar a contribuição massiva para o PIB.

No que se refere aos discursos políticos, estes nem sempre são refletidos em ganhos econômicos e sociais. Com base nos dados do IPEA DATA, como o demonstrado no gráfico 2, o município de Caapiranga-AM é o menor da microrregião de Coari-AM em estoque de crédito rural acumulado na série histórica de 2005-2025.

Gráfico 2: Estoque de crédito rural – investimento/agrícola

Fonte: Ipea Data (2026)

O estoque de crédito rural é o saldo total de financiamentos agrícolas ativos e pendentes de pagamento. Essas movimentações servem como termômetro para avaliar a capacidade de articulação política para desenvolver e implementar políticas públicas para o setor agrícola. Observa-se a decadência da oferta de crédito em Caapiranga-AM, do montante de R$ 63.864,30 em investimentos, apenas 17,7% desse valor foi para investimentos no setor agrícola. Caapiranga-AM é o município que menos obteve oferta de crédito (ativo e inadimplente) no setor e, os impactos negativos no Valor Adicionado Bruto (VAB) da produção agrícola a preços correntes são vistos no gráfico 1. É irredutível a discrepância entre uma nomeação de capital estadual do Cará e os investimentos.

Segundo os dados de monitoramento da Unidade Local do Idam, em Caapiranga, a produção de cará em 2020 era de aproximadamente 4,2 mil toneladas, números que reforçam a representatividade do município como maior produtor de cará do Amazonas (IDAM). O Gráfico abaixo demonstra a queda de 21,38% na produção (2020-2022) e que a recuperação iniciada na safra de 2022 não recuperou o seu auge. Esse declínio se deve muito a oferta de crédito para modernização e ampliação da produção, às políticas públicos de desenvolvimento do setor, aos longos períodos de estiagem, infraestrutura logística deficitária e a ineficiência da gestão das organizações cooperativas.

Gráfico 3: Produção em (t) do cará (2020-2023)

Fonte: Dados da Unidade Local de Caapiranga – Unloc

 

DIVERSIFICAÇÃO PRODUTIVA

De Capital Estadual do Cará à diversidade produtiva. O gráfico 4, construído a partir de dados do Observatório Seterial Territorial do Sebrae (2026), em 2024 o setor agrícola teve um valor de produção no total de R$ 17.631.000,00, sendo a cultura do açaí com a maior representatividade, cerca de R$ 7.258.000,00.

Gráfico 4: Valor de produção em R$ (permanente/temporárias)

Fonte: Observatório Setorial Territorial do Sebrae

 

O ANTAGONISMO POLÍTICO

A partir de dados abertos do portal de transparência da Câmara Legislativa do Estado do Amazonas, não foram identificadas emendas parlamentares para a “CAPITAL ESTADUAL DO CARÁ” para fins de fortalecimento da produção rural.

Dados do Portal da Transparência para Consulta de Emendas Parlamentares, no período de 2020-2026 foram destinados R$ 9.177.914,53, mas nenhum dos planos orçamentários foram destinados a agricultura. Só haverá investimento privado, o aumento do estoque de crédito, quando houver políticas públicas municipais que promulguem a confiança da iniciativa privada. Vimos que, em linhas gerais, toda a atividade agrícola se concentra na dependência dos recursos próprios, estes que são escassos para uso criativo e dos recursos públicos, que quase sempre não tem um plano exato para a atividade agrícola, seja de ordem direta, investimento em insumos e implementos agrícolas, ou de investimento, qualificando a infraestrutura logística da cidade, como a estradas, ramais e portos.

Autores contemporâneos de economia como, André Lara Rezende e Adolfo Sachsida, dizem que os mercados são desenvolvidos a partir da criação de um ambiente empresarial favorável e confiante para o desempenho das suas atividades e que não cabe ao setor público fazer investimentos diretos, mas sim criar um arcabouço legal e de infraestrutura capaz de atrair tais investimentos.

Não se pode deixar vulgarizar o termo Capital Estadual do Cará, com falas políticas descomprometidas com o desenvolvimento econômico e social. Caapiranga-AM carrega emblemas em sua bandeira que retrata um povo comprometido com o trabalho, educação e bem-estar social.

 

REFERÊNCIAS

Portal da Transparência

https://portaldatransparencia.gov.br/emendas/lista-consultas

Observatório Setorial Territorial do Sebrae

https://observatorio.sebrae.com.br/profile/geo/caapiranga?selector733id=year2020&selector756id=year2024

IPEA DATA

https://www.ipeadata.gov.br/Default.aspx

FGV Municípios – indicadores municipais

https://municipios.fgv.br/indicadores

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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