Durante a cerimônia de lançamento da fragata Cunha Moreira, em Itajaí (SC), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um dos discursos mais enfáticos de seu atual mandato sobre a necessidade de fortalecer a defesa nacional. Em tom de preocupação e crítica com a crescente instabilidade internacional, afirmou que o Brasil não pode ser surpreendido por um mundo cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências.
Em seu discurso, o presidente afirmou: “eu não quero guerra, mas eu também não quero ser pego de surpresa. Eu não quero constatar que eu não tenho nada. Eu tenho que me cuidar. (…) Tá cheio de nego maluco no mundo. Agora mesmo o presidente americano quer tomar a Groenlândia, o Canadá, o Canal do Panamá. Onde é que nós estamos?”
Mais adiante, ainda em seu discurso, o presidente foi categórico: “Tenho dito em todas as conversas que tenho tido com meus comandantes: nós precisamos construir um projeto estratégico e vamos ter que ter dinheiro para colocar esse projeto em andamento. Fará parte do meu programa de governo a questão da defesa.”
Continua. “Não é possível um país do tamanho do Brasil não colocar a defesa como uma coisa extremamente urgente e prioritária. A gente não pode discutir defesa apenas repondo aquilo que estragou. É preciso que a gente defina um projeto de que país a gente quer e que defesa precisamos para garantir esse país.”
Conclui. “Estamos vendo agora o mundo vivendo a maior concentração de conflito da história da humanidade depois da Segunda Guerra Mundial. Ninguém respeita quem não se respeita. Se nós, no Brasil, não nos respeitarmos, quem é que vai nos respeitar?”
Mais importante do que a falatório eleitoral foi o compromisso anunciado. Lula afirmou que pretende, se reeleito, construir um projeto estratégico para a defesa nacional, destinando recursos permanentes para essa finalidade e transformando o tema em prioridade de governo.
Também ressaltou que um país das dimensões territoriais, demográficas e econômicas do Brasil não pode limitar sua política de defesa à simples reposição de equipamentos obsoletos, mas precisa definir qual projeto de país pretende construir e quais capacidades militares serão necessárias para sustentá-lo.
Antes tarde do que nunca. E por esse motivo, a avaliação presidencial merece um certo reconhecimento. De fato, o sistema internacional atravessa um período de profunda transformação. A competição entre Estados Unidos e China, a guerra entre Rússia e Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, a militarização crescente do Indo-Pacífico e a erosão de diversos mecanismos multilaterais demonstram que o chamado “dividendo da paz” do pós-Guerra Fria ficou para trás.
Em um cenário de rivalidades estratégicas emergentes, autonomia nacional depende, cada vez mais, da capacidade de proteger interesses nacionais permanentes.
Não existe soberania sem capacidade de dissuasão. Países continentais, detentores de grandes reservas de recursos naturais, fronteiras terrestres e costas marítimas extensas ― tal como o Brasil ― não podem tratar a política de defesa como um gasto secundário ou como mera política administrativa, como se tem visto no Brasil, infelizmente, nas últimas décadas.
Ao reconhecer a urgência de um projeto estratégico para a defesa, Lula realiza uma revisão de posições historicamente adotadas por parcelas da esquerda brasileira em relação ao setor de defesa e, notadamente, ao programa nuclear nacional.
Ao longo das décadas de 1990 e dos anos 2000, predominou no debate público brasileiro um ambiente de forte otimismo quanto à consolidação de uma ordem internacional cooperativa. O fim da Guerra Fria alimentou a expectativa de que a interdependência econômica reduziria a importância relativa do poder militar e de programas estratégicos de longo prazo. Iniciativas relacionadas ao desenvolvimento de capacidades nucleares para fins pacíficos e tecnológicos frequentemente passaram a ser vistas com desconfiança por diferentes setores políticos e da sociedade.
Essa mudança de percepção contribuiu para enfraquecer, no debate público, a compreensão de que tecnologia nuclear não se resume à produção de armamentos. Dominar o ciclo do combustível nuclear significa possuir competências científicas, industriais e tecnológicas essenciais para a geração de energia, medicina, agricultura, pesquisa científica e propulsão naval. Para países que pretendem exercer autonomia estratégica, essas capacidades possuem valor que transcende sua dimensão militar.
Foi nesse ambiente que figuras como o médico e político Enéas Carneiro se tornaram alvo frequente de ridicularização. Independentemente das divergências em torno de suas posições políticas e de seu estilo histriônico, Enéas quixotescamente insistia em uma tese que hoje volta ao centro do debate: um país de dimensões continentais dificilmente alcançará plena soberania sem dominar tecnologias estratégicas, entre elas a tecnologia nuclear.
O próprio programa nuclear brasileiro possui uma trajetória marcada por avanços e limitações. Desde os anos 1970, o país buscou desenvolver domínio sobre o ciclo do combustível nuclear e construir uma base científica capaz de sustentar aplicações civis e militares, sempre sob o compromisso constitucional e internacional de utilização exclusivamente pacífica da energia nuclear. O desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear da Marinha representa um dos principais exemplos dessa estratégia de longo prazo.
Ao longo da Nova República, diferentes governos mantiveram o programa nuclear, mas também consolidaram compromissos internacionais de não proliferação, como a Constituição de 1988 — que determina o uso exclusivamente pacífico da energia nuclear —, a criação da Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC) e a adesão ao Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP). Para alguns analistas, esse conjunto de normas fortaleceu a credibilidade internacional do Brasil; para outros, reduziu sua margem de autonomia estratégica. Trata-se de um debate legítimo e ainda aberto.
O fato é que o cenário internacional de 2026 já não é o mesmo da década de 1990. A competição entre grandes potências retornou ao centro da política mundial. Cadeias globais de suprimentos passaram a ser utilizadas como instrumentos de pressão geopolítica. Tecnologias consideradas estratégicas tornaram-se objeto de disputas intensas entre os principais polos de poder global.
É aqui que o Brasil precisa refletir sobre qual lugar pretende ocupar nas relações internacionais próximas décadas. Permanecer dependente das decisões tecnológicas e estratégicas das grandes potências significa aceitar limites permanentes à própria autonomia. Construir capacidades nacionais, ao contrário, exige planejamento de longo prazo, investimentos em ciência, indústria, educação e defesa.
O discurso do presidente Lula talvez represente um reconhecimento tardio dessa realidade. Se esse entendimento resultar na construção de uma política de Estado — e não apenas de governo calcada na agenda eleitoral — voltada para ciência, tecnologia e defesa, poderá marcar uma inflexão importante na trajetória estratégica brasileira.
O desafio, agora, consiste em transformar palavras em planejamento, planejamento em investimento e investimento em capacidade nacional. Somente assim o Brasil poderá exercer uma soberania compatível com sua dimensão territorial, seu potencial econômico e suas responsabilidades internacionais.















