O estigma da dependência tecnológica brasileira e os potenciais das cadeias produtivas de terras raras

Em: 16 de julho de 2026

O Brasil carrega o estigma da dependência tecnológica, um país rico em recursos estratégicos, como os recursos da Amazônia preservada, mas incapaz de transformar essa abundância em inovação e progresso. Exportamos matéria-prima barata e importamos semicondutores, baterias e eletrônicos a preços elevados, perpetuando o paradoxo de uma nação que é rica em recursos, mas pobre em valor agregado. O que verdadeiramente nos falta agora?

A tradição do Brasil sempre foi de um país fornecedor de produtos primários, essa tradição vem moldando ao longo de nossa história a nossa geografia, organização social e nossa estrutura de riqueza.

O processo inicia-se com o ciclo do pau-brasil (século XVI), uma atividade essencialmente extrativista e predatória assentada no escambo com os povos indígenas. A necessidade de fixação territorial e colonização efetiva deu origem ao ciclo do açúcar (séculos XVI e XVII), que introduziu o modelo de plantation, caracterizado pelo latifúndio, monocultura e uso sistemático da mão de obra escrava. Esse modelo gerou uma profunda concentração de renda e uma economia voltada inteiramente para fora.

Segundo Celso Furtado, a Indústria brasileira aparece quando a economia cafeeira entra em colapso já em 1929, não por uma visão estratégica de governo. Más, em substituição às importações, uma vez que as divisas brasileiras não podiam adquirir os produtos industrializados, então a demanda interna passou a canalizar a produção doméstica de produtos  como gravatas, sapatos e alguns tipos de vestes. Sim, diferente de outras nações, o processo produtivo teve uma evolução por um tipo de improviso. Sabe aquela coisa de…E agora, o que fazer? Pois é…

Mais na frente o país é inserido na Divisão de Trabalho Internacional (DTI) com o ciclo da borracha, esse decaiu por esquemas de biopirataria internacional. Mais uma vez, o extrativismo com pouco valor agregado tornou-se inviável para o mercado internacional, frente a uma produção de spvea brasiliensis cultivada com menor custo social e econômico..

Enfim, no século XXI, o país continua inserido em um quadro de DTI por meio de seus commodities que dominam nossa balança comercial. E, sustentamos um quadro de um paradoxo de ricos porém pobres. Óbvio, a riqueza das terras brasileiras sem valor agregado são ofertadas no mercado internacional, que nem antes, e adquirimos em muitos casos produtos com alto valor agregado. Geramos empregos qualificados lá fora. E agora, todo o esquema de engenharia e planejamento estratégico da transição energética que estamos passando….Então, vale lembrar de Ignacio Sachs, ele argumentava que o Brasil é um país com abundância fantástica de recursos naturais e humanos, mas que falha politicamente em canalizar essa riqueza para o desenvolvimento social e sustentável. Eu posso afirmar com base em uma visão estruturalista que diante do potencial produtivo brasileiro, a economia focada apenas no setor primário demonstra uma falha de gestão e de articulação política.

Atualmente estamos passando por mais uma onda de inovação, nessa fase destaca-se a energia limpa, veículos elétricos, Internet of Things (IoT) que chegam aos nosso mercados nos deixando um déficit na faixa de 40 Bilhões de dólares.

Podemos assistir de forma passiva a onda que passa como uma periferia na DTI, o que demonstra a baixa capacidade em governança dos recursos públicos. Válido ressaltar que a carga tributária brasileira não é uma das menores.Logo como não há recursos para incentivar investimentos em recursos estratégicos? O Brasil detém enormes reservas de argilas iônicas de terras raras, mas enfrenta o desafio de desenvolver tecnologias de refino e separação em território nacional para não atuar apenas como exportador de matéria-prima. Sem avaliar as contas públicas, de uma forma simplória, em 2025, o país recolheu algo em torno de 2.9 Trilhões de reais  e o atual investimento Chinês na exploração de terras raras na Amazônia não chega a 1% disso.

O petróleo do futuro se chama terras raras, as novas fontes energéticas dependem disso. Atualmente a China é a líder em refino. Más não só isso, destacando-se em dispositivos robóticos, carros elétricos que vêm tomando os market share mundiais, com mais de 60% em vendas. E aqui não cito as lideranças de Taiwan e Coreia do Sul.

Detentor de uma das maiores reservas de recursos estratégicos e minerais do planeta, o Brasil precisa ir além do papel de fornecedor global de matérias-primas brutas e aprender a transformar abundância em inovação. O futuro do desenvolvimento nacional não reside na simples exportação de commodities. Ele depende da capacidade estratégica de governar para estruturar uma cadeia de valor sustentável e tecnológica, uma engrenagem capaz de refinar nossos ativos naturais, agregar inteligência local e abastecer a transição energética e as indústrias de ponta globais. Trata-se de uma decisão estratégica e soberana. Resumindo,  ou o Brasil assume seu potencial, ou continuará no estigma de rico porém pobre.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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