Algumas das maiores lições sobre liderança não acontecem dentro de uma sala de treinamento, em uma reunião estratégica ou diante de uma equipe. Às vezes, elas acontecem na vida.
Esta semana, enquanto acompanho meu filho, Felipe, em uma nova etapa de sua vida, percebi que estava diante de uma dessas grandes aprendizagens.
Minha história com a liderança começou muito cedo. Ainda jovem, assumi uma posição de liderança em uma transportadora, na área de SAC, conduzindo uma equipe que atendia grandes multinacionais. Ao mesmo tempo, eu ainda estava concluindo a faculdade, fazendo estágio e enfrentando os desafios do trabalho de conclusão de curso. Era tudo novo!
Naquele período, comecei a compreender que liderar não significava apenas coordenar pessoas ou entregar resultados. Significava aprender a lidar com diferentes perfis, desenvolver pessoas, tomar decisões, assumir responsabilidades e, principalmente, entender que cada pessoa precisava ser conduzida de maneira diferente.
Aquela experiência foi um dos grandes impulsionadores da minha trajetória profissional e despertou em mim o desejo de compreender cada vez mais o universo da liderança. Com o tempo, esse desejo se transformou em propósito: despertar a melhor liderança que existe em cada ser humano.
Hoje, depois de tantos anos trabalhando com desenvolvimento de líderes, percebo que a vida continua sendo uma das minhas maiores escolas, e, foi justamente a maternidade que me trouxe uma das lições mais profundas.
Meu filho Felipe está iniciando uma nova etapa: vai estudar em uma universidade nos Estados Unidos. Eu e o pai dele o acompanhamos até esse novo começo. É um momento de enorme orgulho, mas também de sentimentos difíceis de explicar. Porque existe uma diferença entre preparar alguém para caminhar sozinho e estar emocionalmente preparado para vê-lo partir.
Como mãe, sei que Felipe está pronto. Ele é amoroso, respeitoso, responsável, educado e carrega valores que nos orgulham profundamente. E isso não é apenas uma mãe falando sobre o próprio filho. Quem convive com ele reconhece essas características. Mas saber que alguém está pronto não torna mais fácil deixá-lo ir.
É aí que a maternidade encontra a liderança: Liderar também é preparar pessoas para que possam caminhar com autonomia, fazer suas próprias escolhas e, quem sabe, chegar ainda mais longe do que nós chegamos.
O líder que precisa manter todos dependentes de sua presença talvez ainda não tenha compreendido plenamente o significado de desenvolver pessoas.
Desenvolver é ensinar, orientar, acompanhar, dar espaço, confiar e, no momento certo, permitir que o outro assuma o próprio caminho. Isso não significa ausência. Significa presença de uma forma diferente.
É continuar sendo referência, mesmo quando já não se está ao lado. É confiar nos valores ensinados, nas competências desenvolvidas e nas escolhas que aquela pessoa será capaz de fazer. Foi isso que comecei a compreender enquanto olhava para meu filho prestes a iniciar sua vida universitária longe de casa.
Aquele menino que um dia carregamos no colo, seguramos pela mão agora precisa caminhar com as próprias pernas.
E talvez seja esse o maior desafio de quem lidera: aceitar que o nosso sucesso não está em fazer com que as pessoas precisem de nós para sempre, mas em ajudá-las a se tornarem capazes de seguir sem nós.
Como líder, ainda estou aprendendo. Como mãe, também. E talvez essa seja uma das belezas da vida: perceber que aquilo que ensinamos aos outros muitas vezes volta para nos ensinar e neste ciclo constante evoluímos na medida que permitimos o outro também a evoluir.
Volto para o Brasil sem meu filho ao lado, mas com a certeza de que levamos conosco tudo aquilo que realmente importa: amor, valores, confiança e a certeza de que ele está preparado para escrever a própria história e sempre pode contar com nosso apoio. A liderança corporativa também pode ser o exercício de desenvolver, se afastar e gerar uma conexão. Talvez alguém diria: asas e raízes!
Alguns dos maiores voos que testemunhamos na vida começam exatamente quando precisamos aprender a deixar ir. Liderar é isso também: ter coragem de soltar a mão sem jamais soltar o vínculo.
Conheço muitos líderes corporativos com dificuldade de descentralizar as tarefas pela ausência de confiança e com esta postura limitam seus times, dificultam o crescimento das pessoas e impossibilitam que os seus possam avançar e são para estes e tantos outros que dedico este artigo.
Que Felipe voe. Que sua equipe ganhe asas para voar também.
E que nós, pais, líderes e seres humanos, tenhamos sempre a sabedoria para reconhecer quando chegou a hora de caminhar ao lado, quando chegou a hora de orientar e, principalmente, quando chegou a hora de deixar o outro voar.
Desejo que possamos fazer o nosso trabalho de liderança com respeito e responsabilidade ao desenvolver cada uma das pessoas que chegam até nós e assim estimulá-las a avançarem em sua jornada de crescimento mesmo que para isto seja preciso deixá-las ir.
Ao certo o nome disto é legado!
Cintia Lima
Psicóloga, Trainer e Mentora de Líderes
@psi.cintialima















