Manaus enfrenta semanas de fumaça enquanto governo investiga incêndios criminosos

Em: 17 de outubro de 2026

Há semanas sob uma camada de fumaça, Manaus enfrenta uma crise ambiental e de saúde pública que se agravou neste fim de semana. Neste sábado (17), a capital chegou a registrar 637 pontos no índice de qualidade do ar da plataforma IQAir, na categoria perigosa, enquanto o governo federal investiga se há uma organização por trás de parte dos incêndios que atingem o Amazonas.

A dimensão do problema vai além da fumaça visível nas ruas. O avanço das queimadas levou à suspensão de aulas presenciais, mobilizou equipes de combate ao fogo e fez o Ministério da Saúde iniciar o monitoramento da assistência prestada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em municípios afetados.

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) divulgados neste sábado, o Amazonas registrou 1.830 focos de calor entre 1º e 17 de outubro. Lábrea liderava a lista, com 257 registros, seguida por Autazes, com 194; Boca do Acre, com 189; Itacoatiara, com 120; e Novo Aripuanã, com 101.

Os focos de calor indicam pontos detectados por satélite e não correspondem necessariamente a incêndios distintos. Ainda assim, os registros evidenciam a dimensão da atividade do fogo no estado durante o período.

Investigação apura possível ação organizada

O governo federal investiga a origem dos incêndios e a hipótese de que parte deles tenha sido provocada de maneira coordenada. Em entrevista coletiva realizada em Manaus na quarta-feira (14), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que os focos têm origem humana e anunciou medidas para identificar os responsáveis.

Até aquela data, a força-tarefa havia aberto 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs), procedimentos utilizados para apurar possíveis infrações penais. As investigações envolvem as polícias Federal, Rodoviária Federal e Civil do Amazonas, além de outras forças de segurança.

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também participa dos trabalhos para verificar a suspeita de organização por trás dos incêndios. A hipótese ainda está sob investigação e não significa que a existência de um grupo coordenado tenha sido comprovada.

Durante a coletiva, Capobianco afirmou que os responsáveis deverão ser identificados e responsabilizados. O ministro também mencionou a possibilidade de incêndios intencionais em áreas de floresta preservada, com o objetivo de degradar a vegetação e preparar terrenos para usos futuros.

Os responsáveis por provocar incêndios florestais podem sofrer multas administrativas, embargo das áreas atingidas, apreensão de equipamentos e responsabilização criminal, conforme o enquadramento de cada caso.

Fumaça vem de diferentes regiões

A fumaça que chega à capital não depende apenas dos focos localizados nas proximidades da cidade. Incêndios no interior do Amazonas e em estados vizinhos, como Rondônia, Pará e Mato Grosso, também podem contribuir para a poluição atmosférica em Manaus.

As partículas liberadas pelas queimadas são transportadas pelo vento e podem permanecer suspensas na atmosfera. A falta de chuvas e as condições de estiagem dificultam a dispersão dos poluentes e favorecem a persistência da fumaça.

Embora o governo federal tenha informado uma redução recente em parte dos incêndios, a permanência de focos ativos em áreas distantes continua contribuindo para o problema. A direção dos ventos também influencia a chegada da fumaça à capital, o que torna difícil prever com precisão quando a qualidade do ar vai melhorar.

Ações de combate e emergência

No dia 10 de outubro, o governo do Amazonas decretou situação de emergência em 36 municípios em razão dos incêndios florestais. O governo federal mobilizou 11 aeronaves para apoiar as operações no estado, incluindo seis aviões Air Tractor, utilizados no combate direto ao fogo, um KC-390 para lançamento de grandes volumes de água, três helicópteros e uma aeronave Caravan para apoio logístico.

Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde em 16 de outubro, o Ibama havia extinguido 303 focos de incêndio no Amazonas desde o início das operações. O órgão também mobilizou brigadistas para atuar em áreas atingidas.

O número de focos extintos não significa que o problema esteja controlado. As equipes continuam atuando diante da existência de novos incêndios e da dificuldade de acesso a determinadas áreas.

O Ministério da Saúde identificou 12 municípios que necessitam de algum tipo de suporte nos serviços de saúde. Equipes da Força Nacional do SUS, em articulação com autoridades estaduais e municipais, realizam levantamentos para avaliar a capacidade de atendimento e a disponibilidade de insumos essenciais.

Entre as medidas está a avaliação do consumo e da capacidade de fornecimento de oxigênio nas unidades de saúde, incluindo os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs).

Exposição ameaça a saúde

A fumaça contém partículas que podem causar irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse, falta de ar e agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. Os efeitos podem atingir também pessoas sem doenças preexistentes, principalmente em situações de exposição intensa.

Crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas exigem atenção especial. O epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Jesem Orellana, alertou neste sábado para a gravidade da situação e recomendou que a população, sempre que possível, permaneça em ambientes fechados, com portas e janelas fechadas, especialmente os grupos mais vulneráveis.

Em Manaus, a deterioração da qualidade do ar levou à suspensão das aulas presenciais da rede municipal e das atividades acadêmicas presenciais da Universidade do Estado do Amazonas na sexta-feira (16).

Apesar do reforço das equipes e das medidas emergenciais, a capital continuava sob forte influência da fumaça neste sábado. A investigação sobre a origem dos incêndios e a responsabilização dos autores são etapas importantes, enquanto o combate ao fogo e a proteção da população permanecem como desafios imediatos.

Lílian Araújo

É Jornalista, Artista, Gestora de TI, colunista do JC e editora do Jornal do Commercio
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