Em 357 anos, Manaus consolida protagonismo

Em: 24 de outubro de 2026
Nova dinâmica de consumo tem gerado transformações em áreas da capital (Foto: Selma Carvalho)

Manaus muda de escala, amplia suas fronteiras urbanas e incorpora novos hábitos de consumo sem abandonar características que a distinguem de outras capitais brasileiras. A transformação aparece nos empreendimentos imobiliários que avançam pela Zona Norte, na presença crescente de ferramentas digitais nas relações comerciais e na popularização de cozinhas internacionais. 

Ao mesmo tempo, a cultura gastronômica regional, a confiança entre comerciantes e clientes e a busca por soluções para a mobilidade urbana permanecem no centro das discussões sobre o futuro da cidade, que completa 357 anos neste 24 de outubro.

O movimento ocorre em diferentes frentes. A expansão territorial abre espaço para novos empreendimentos residenciais, comerciais e industriais. O comércio precisa responder a consumidores mais informados e exigentes. Na alimentação, redes nacionais, serviços de entrega e novas referências culinárias alteram a rotina de quem vive na capital. As mudanças ampliam as opções disponíveis, mas também impõem desafios relacionados ao custo de vida, à infraestrutura e à capacidade de Manaus de organizar seu crescimento.

Cidade em expansão

A Zona Norte concentra parte importante desse processo. Segundo Henrique Medina, presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário do Amazonas (Ademi-AM), a região da avenida das Torres, das Flores e do Lago Azul reúne condições para continuar atraindo investimentos. A disponibilidade de terrenos e a possibilidade de implantação de empreendimentos residenciais, comerciais e industriais sustentam essa perspectiva.

Medina observa que o adensamento populacional já começa a modificar a dinâmica local. A presença de supermercados, lojas de materiais de construção e outros estabelecimentos acompanha o desenvolvimento imobiliário. A proximidade com eixos viários também favorece a conexão entre diferentes zonas da cidade e amplia o interesse pela região.

A expansão, entretanto, depende de condições que vão além da oferta de terrenos. Para o presidente da Ademi-AM, a disponibilidade de áreas com situação fundiária regularizada e infraestrutura adequada é determinante para viabilizar novos projetos. A Zona Leste, por exemplo, dispõe de terrenos em menor quantidade e com características topográficas que podem elevar os custos dos empreendimentos.

O desafio é conciliar o crescimento horizontal com o aproveitamento de áreas já urbanizadas. Medina defende o adensamento de regiões dotadas de serviços públicos e infraestrutura, especialmente o Centro, como alternativa para reduzir deslocamentos e melhorar a viabilidade econômica da cidade.

A proposta envolve ampliar a oferta de moradias em áreas com acesso a transporte, escolas, saúde e comércio. Na avaliação do dirigente, a expansão periférica exige investimentos adicionais em equipamentos públicos, enquanto a ocupação residencial do Centro pode contribuir para recuperar a movimentação noturna e ampliar o uso de espaços já estruturados.

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Capital amazonense vive boom de expansão imobiliária (Foto: Michell Mello)

O debate também passa pelo planejamento de longo prazo. Medina cita as discussões sobre o Plano Diretor de Manaus e a necessidade de aproximar o poder público das entidades do setor para avaliar os impactos da expansão imobiliária e das novas atividades industriais. O objetivo é compatibilizar o crescimento da cidade com as condições de mobilidade e a oferta de serviços.

Consumo mais conectado

A transformação urbana acompanha mudanças no comportamento do consumidor. Bruno Pinheiro Loureiro, da Associação Comercial do Amazonas, observa que o comprador manauara passou a pesquisar preços pelo celular, comparar produtos e combinar canais digitais com o atendimento presencial.

“Muitas vezes, chega ao estabelecimento já sabendo o produto que deseja e o preço praticado no mercado”, afirma. Essa mudança pressiona o comércio a rever suas estratégias de atendimento e relacionamento com o cliente.

O Pix, as compras pelas redes sociais, o atendimento por WhatsApp e as entregas rápidas ganharam espaço. A pesquisa prévia também reduziu a necessidade de percorrer diferentes lojas apenas para conhecer preços e produtos. Nesse ambiente, o comerciante precisa manter presença digital e oferecer respostas rápidas, sem perder a relação de confiança construída com o público.

O preço continua determinante, sobretudo diante das restrições do orçamento familiar. Conveniência, facilidade de pagamento, qualidade do atendimento e pós-venda, porém, também pesam na decisão de compra. “Tempo também virou valor para o consumidor”, resume Loureiro.

A mudança não elimina características tradicionais do comércio local. A confiança entre cliente e comerciante continua relevante, mesmo com a ampliação das transações digitais. O desafio está em combinar essa relação com novas ferramentas e expectativas de consumo.

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Referência gastronômica ganha amplitude, mas o regional ainda é atrativo (Foto: Selma Carvalho)

Novos sabores, identidade regional

Na alimentação, a mudança aparece tanto na diversificação das opções quanto na forma de consumir. Franco Andrade, presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Amazonas (Abrasel-AM), aponta a chegada de grandes redes nacionais, a consolidação dos serviços de entrega e a popularização da culinária asiática entre as principais transformações da última década.

O sushi, por exemplo, tornou-se uma opção mais presente na rotina dos manauaras. A oferta de restaurantes e o acesso facilitado a diferentes cozinhas ampliaram as referências gastronômicas da população, que passou a alternar entre experiências internacionais e pratos ligados à cultura regional.

Nesse processo, a gastronomia amazonense também ganha espaço como elemento de identidade e atração turística. Andrade cita estabelecimentos que trabalham com ingredientes, técnicas e tradições da região, incluindo preparações com peixes amazônicos e combinações características do café da manhã local, como café com pupunha.

A questão econômica, entretanto, afeta o consumo fora de casa. Segundo o dirigente da Abrasel-AM, os clientes continuam frequentando restaurantes, mas gastam menos em cada visita. Pratos individuais são compartilhados, sobremesas deixam de fazer parte do pedido e entradas são dispensadas.

A resposta dos estabelecimentos envolve a diversificação dos cardápios, a criação de novas opções e a revisão das porções, com maior atenção a preparações à base de proteínas. A adaptação procura atender consumidores com diferentes capacidades de gasto e preservar a frequência dos clientes.

A combinação entre novas referências culinárias e tradições locais coloca a gastronomia no debate sobre a identidade de Manaus. A cidade incorpora tendências nacionais e internacionais, mas mantém práticas alimentares associadas aos peixes regionais, à pupunha, ao tacacá e aos hábitos cotidianos de seus moradores. Esse repertório também integra as experiências oferecidas a visitantes interessados na cultura amazônica.

Fred Novaes

É jornalista
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