A repetição de informações históricas sem consulta a documentos originais tem ajudado a consolidar versões equivocadas sobre Manaus, algumas delas incorporadas ao ensino, a publicações e até a trabalhos acadêmicos. O alerta é da jornalista e escritora Etelvina Garcia, que há 50 anos pesquisa a formação econômica, social, política e cultural do Amazonas. Para ela, enfrentar o que chama de “fake history” exige voltar às fontes primárias, cruzar documentos e revisar conteúdos que, de tanto serem reproduzidos, passaram a ser tratados como fatos.
Autora de 27 livros e com outros dois em produção, Etelvina afirma que seu método de pesquisa parte da busca pela origem documental das informações. Isso significa consultar tratados, mapas, relatos, registros oficiais e estudos produzidos no período analisado. “As fontes primárias são aquelas fontes que mostram a origem dos estudos, das pesquisas”, explica. Ao investigar o Tratado de Madri, de 1750, por exemplo, ela diz recorrer ao próprio texto do acordo e aos documentos relacionados à definição dos territórios portugueses e espanhóis.
O método ajuda a entender o problema apontado pela pesquisadora. Um livro didático, uma publicação ou mesmo um estudo posterior podem servir como referência, mas não substituem o confronto com a documentação original. Etelvina sustenta que o risco surge quando uma informação é reproduzida sucessivamente sem que alguém retorne à origem para verificar se ela encontra respaldo documental.
Formação da cidade
Manaus oferece exemplos dessa disputa entre memória repetida e documentação histórica. Um deles envolve o próprio núcleo de formação da cidade. Segundo Etelvina, a ocupação que daria origem a Manaus desenvolveu-se a partir do Forte de São José do Rio Negro, construído em 1669 na área onde hoje está o Palacete Provincial. A partir do forte formou-se um pequeno povoado que cresceria até dar origem à cidade.
A localização é relevante porque, segundo a pesquisadora, tornou-se comum atribuir à rua Bernardo Ramos o ponto inicial da formação urbana de Manaus ou identificar imóveis existentes naquela área como as primeiras casas da cidade. Etelvina contesta essa versão. O argumento é cronológico: o núcleo inicial deve ser procurado no entorno do forte e das primeiras construções associadas a ele, antes da expansão do povoado para outras áreas.

(Foto: Fred Novaes)
Outro caso citado por ela mostra como uma interpretação pode ganhar maior dimensão depois de começar a circular. Durante trabalhos realizados na Catedral Metropolitana de Manaus, foram encontradas antigas estruturas de pedra. A descoberta chegou a ser relacionada aos alicerces da primeira pequena igreja da povoação. Etelvina afirma que a interpretação não corresponde à localização histórica da capela primitiva, que teria ficado próxima ao Forte de São José do Rio Negro.
O problema, segundo ela, cresceu quando essa versão ultrapassou a circulação informal. Etelvina relata que a interpretação chegou ao ambiente acadêmico, sendo reproduzida em trabalho de pesquisa. Para a escritora, é nesse ponto que uma informação equivocada deixa de ser somente uma “fake news” sobre o passado e passa a integrar uma “fake history”: uma versão que ganha aparência de registro histórico porque foi repetida, publicada e incorporada a novas referências.
As redes sociais ampliaram esse risco. “As pessoas ouvem, tiram conclusões e agora, com essa facilidade de redes sociais, o efeito é devastador”, afirma. O mecanismo apontado por Etelvina é semelhante ao observado na circulação contemporânea de desinformação: uma versão simples é reproduzida, passa de uma publicação para outra e, com o tempo, sua origem deixa de ser questionada. No campo histórico, porém, o efeito pode atravessar gerações.
A preocupação aumenta quando o conteúdo chega à escola. Etelvina cita casos de informações sobre personagens da história política do Amazonas que, segundo ela, foram reproduzidas em material didático sem a necessária confrontação documental. Para a pesquisadora, uma informação aprendida na infância tende a adquirir força de verdade justamente porque o estudante recebe o conteúdo em um ambiente de formação.
Por isso, ela defende uma revisão do material utilizado para ensinar a história local. “É preciso mesmo fazer uma revisão de conceito, do que está se dizendo nas escolas”, afirma. A proposta envolve examinar autores, referências bibliográficas e fontes utilizadas na elaboração dos conteúdos. Etelvina ressalva que a revisão não significa estabelecer uma versão pessoal como definitiva. “Eu não sou dona da história, eu não sou dona da verdade. Mas eu me sinto em condição de contribuir, porque eu estudo.”
O trabalho com fontes primárias também permite reconhecer lacunas. Ocorre quando a documentação disponível não permite determinar com precisão determinada informação. A postura faz parte do método que defende: separar aquilo que os documentos permitem afirmar do que permanece como hipótese ou questão ainda aberta.
Esse cuidado ganha peso em uma cidade cuja formação atravessa mais de três séculos e envolve períodos distintos da administração colonial, do Império e da República. Ruas mudaram de nome, igarapés foram aterrados, imóveis desapareceram, fachadas foram modificadas e áreas inteiras do centro passaram por sucessivas intervenções. Sem documentação, construções de épocas diferentes podem ser confundidas e versões posteriores podem ser projetadas sobre períodos anteriores.
Etelvina defende que a correção dessas distorções seja feita pelo confronto de pesquisas, e não pela substituição de uma versão fechada por outra. “Vamos discordar uns dos outros até encontrar a verdade”, afirma. Para ela, esse processo deve alcançar principalmente a base de conhecimento oferecida às novas gerações, começando pela revisão do que os estudantes aprendem sobre Manaus e pela identificação das fontes que sustentam cada informação histórica.














