Paixão assada na brasa

Em: 25 de outubro de 2026
Banda assada de tambaqui é o prato mais pedido no Peixe Boi (Foto: Evaldo Ferreira)

Pela riqueza da ictiofauna (espécies de peixes) existentes nos rios da Amazônia, o prato principal dos amazônidas é o peixe. Em Manaus não é diferente. Mas antes não era assim. De acordo com o historiador Antonio Loureiro, devido à quantidade de espécies, até as primeiras décadas do século passado o peixe era considerado ‘comida de pobre’ e a elite dava preferência a pratos que não tivessem peixe. Somente na segunda metade daquele século, o peixe começou a entrar no cardápio do manauara e um dos grandes responsáveis por essa mudança foi o empreendedor Aldenor Ernesto Lima (1938/2026) que inaugurou o Canto da Peixada, a primeira peixaria de Manaus, em 1º de maio de 1974, na Praça 14 de Janeiro. Nascido no Careiro da Várzea, Aldenor tornou popular a caldeirada de tucunaré sem espinhas e as costelas de tambaqui na brasa, por sinal, pratos que serviu ao papa João Paulo II, quando este esteve em Manaus, em 1980.

Durante muitos anos o tucunaré ocupou um lugar nobre, em Manaus, mas com o tempo foi perdendo espaço principalmente para a banda assada de tambaqui, depois o filé de pirarucu e, há alguns anos, a matrinchã, que caiu definitivamente no gosto popular ao passar a ser servida sem espinhas e recheada, porém, enquanto o tucunaré praticamente sumiu dos cardápios dos restaurantes, a banda assada de tambaqui se posicionou na linha de frente e hoje é um dos pratos mais pedidos nos restaurantes de Manaus, tendo entrado na lista oficial de comida típica do Amazonas e fazendo sucesso até internacionalmente. Ajuda, também, a disponibilidade da espécie devido à facilidade e praticidade para se criar em cativeiro. O tambaqui é amplamente considerado a principal escolha para quem está começando na piscicultura na Região Norte pela sua impressionante rusticidade e excelente adaptação ao clima local.

É o mais pedido

Quando a paulista Ana Maria Scognamiglio veio para Manaus fazer turismo, jamais pensou que, 38 anos depois, ainda estaria aqui à frente do mais antigo restaurante flutuante do Amazonas, o Peixe Boi, no rio Tarumã, com um cardápio único de peixes amazônicos.

“Comprei uma casinha, na beira do rio, para passar minhas férias quando voltasse a Manaus, porém, logo o pessoal das lanchas que passavam por aqui começou a parar e perguntar se eu tinha peixe frito para vender, mais especificamente sardinhas”, lembrou.

Foi então que Ana teve a ideia de começar a atender aos pedidos. Como não conhecia nada sobre os peixes da região, buscou ajuda com os moradores locais e dona Inês, uma dessas moradoras, acabou se tornando sua cozinheira, e assim começou o empreendimento, em 1988.

“Aprendi o que era ticar um jaraqui, conheci as sardinhas de rio, pois só conhecia sardinha em lata e criei um cardápio baseado no que as pessoas pediam. Os peixes mais solicitados eram a sardinha frita, o jaraqui frito e o tucunaré, que eu pescava aqui mesmo, nas águas do Tarumã”, contou.

Acostumada a comer camarão, caranguejo e filé de pescada branca, em São Paulo, nem demorou para Ana aprender sobre os peixes preferidos pelos manauaras, e se apaixonar por eles, sem exceção. Um destes peixes foi o tambaqui.

“Quando eu comi o tambaqui, eu me apaixonei pelo sabor, porque é impossível alguém falar que não gosta de tambaqui. É um peixe abençoado. Pode ser feito frito, assado, cozido, e arrasa, aqui no flutuante. É o mais solicitado”, revelou.

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Tambaqui frito também é uma opção pela crocância (Foto: Evaldo Ferreira)

Refeição com tambaqui

No concurso gastronômico ‘Comida di Buteco’, de 2018, Ana criou o quibe de tambaqui, feito com picadinho do peixe e todos os demais ingredientes do quibe árabe. O produto fez tanto sucesso no flutuante, que se tornou fixo no cardápio, como entrada.

“Os clientes comem aqui e até levam para viagem”, disse.

Além do quibe, outro item que também se tornou entrada no Peixe Boi são as ripas de tambaqui, que igualmente participou de outra edição do Comida di Buteco.

“E ainda temos o picadinho de tambaqui assado acompanhado de purê de batatas ou bananas fritas. Se você quiser fazer uma refeição completa, apenas com tambaqui, aqui no Peixe Boi, pode começar pelo quibe, ou costelinhas fritas, bem torradinhas, e finalmente a banda assada na brasa. Só trabalhamos com tambaquis de rio, grandes, de 4,5 quilos até mais de dez quilos. Uma banda grande serve facilmente de oito a dez pessoas”, informou.

Para completar, as bandas assadas de tambaqui do Peixe Boi são acompanhadas de baião de dois, arroz, feijão, farofas com ou sem pimenta (pimentas plantadas no próprio flutuante), farinha do Uarini, e molho vinagrete.

O fornecedor dos tambaquis de Ana é o mesmo há mais de 20 anos, filho do primeiro fornecedor, que já faleceu.

“E um detalhe. Meu assador oficial é o Pedro, que faz os assados há 26 anos, ou seja, só pelo aroma do peixe ele já sabe quando está no ponto”, riu.

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Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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