Manaus tem hoje um dos mais altos custos de vida do país. Nas 17 cidades pesquisadas mensalmente pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Sócio-Econômicos), a capital do Amazonas figura na 7ª posição do ranking dos maiores preços registrados da cesta básica de alimentos, composta hoje de 12 itens, só perdendo “hierarquicamente” (nesse caso) para Goiânia e Belo Horizonte.
E essa realidade de preços altíssimos que assusta qualquer visitante do Estado tem um responsável direto: a falta de produção agrícola e pecuária que atendam à demanda local, aliada a uma inoperância total dos órgãos de fomento, obrigando a região a importar pelo menos 65% dos alimentos que consome atualmente. A importação dos itens básicos tem um impacto tão grande no preço final dos alimentos que um quilo de tomate, por exemplo, que custa em média R$ 0,60 em regiões como São Paulo e Rio de Janeiro, sai até por R$ 6,50 nas principais redes de supermercados de Manaus.
Segundo consultores do setor de alimentos, o Amazonas ainda pratica uma agropecuária artesanal e de subsistência que não é suficiente nem para atender ao mercado interno. Até a farinha, cujos insumos básicos (a macaxeira e a mandioca) são nativos e têm grande afinidade pelo solo da região, é importada do Rio Grande do Sul, distante a pelo menos 5 mil quilômetros de Manaus.
E para agravar essa situação de “carestia” tem a questão do alto preço do frete (impacto de aproximadamente 80%, por via aérea) e a elevada sobrecarga de impostos que incide diretamente no preço final dos alimentos. Os últimos números do Dieese apontam um aumento de 0,52% nos preços da cesta básica em setembro em Manaus, em relação ao mês de agosto. E em 34 meses o reajuste dos itens básicos chegou a 12,9% na capital.
“Isso é um paradoxo. Como é que Manaus, que abriga hoje mais de 500 empresas e exporta motocicletas e eletroeletrônicos com tecnologia de última geração, não consegue exportar um quilo de tomate”, questiona o geólogo Fred Cruz, do DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral), também especialista em agricultura e pecuária.
Fred Cruz atribui à falta de um maior incentivo por parte dos órgãos de fomento para viabilizar uma agricultura e uma pecuária com produções suficientes para abastecer o mercado local. Ele conta que desistiu de uma cultura de maxixe, no município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus), na BR 174, por falta de apoio logístico para escoar o produto.
“Quando se recorre aos órgãos governamentais, a ajuda nunca aparece, situação que desmotiva o produtor, que passa a optar por uma agricultura e uma pecuária de subsistência”, acrescenta o geólogo. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário do Estado do Amazonas (Idam), técnicos têm ido constantemente às principais regiões produtoras da região, como nos municípios de Autazes (maior produção de leite) e Careiro Castanho (gado de corte), dando orientações aos produtores.
Piscicultura é apontada como opção regional à crise
Para o zootecnista Geraldo Pereira Filho, o Amazonas está desperdiçando, porém, o potencial da piscicultura, um filão (na visão dele) que pode gerar grandes receitas e oferecer novas oportunidades de emprego e renda na região. Segundo ele, a criação de peixes em cativeiro, principalmente das espécies tambaqui e matrinxã, ainda acontece de forma incipiente e deveria receber um maior incentivo por parte dos órgãos governamentais.
“O Amazonas deveria deixar de pensar em pecuária, pois a vocação da região é mesmo a piscicultura. A criação de gado tem um grande impacto no meio ambiente, degradando vastas áreas de florestas. Hoje está disponível um pacote técnico e financeiro para a criação de tambaqui, mas existe pouco interesse do mercado em dinamizar a atividade no Estado”, afirma o zootecnista.
Segundo consultores do setor, o grande gargalo para incrementar a piscicultura no Amazonas é a importação de insumos para a fabricação de rações, que elevam consideravelmente os custos da produção de peixes em cativeiro. A principal matéria-prima utilizada no fabrico é o milho, importado de outras regiões do país, que tem um grande impacto na atividade.
De acordo com o deputado José Ricardo Wendling (PT), que preside a Comissão de Ciência e Tecnologia da Assembleia Legislativa do Amazonas (ALEAM), o pouco ou quase nenhum interesse do governo estadual em priorizar a agricultura, a pecuária e atividade no campo em geral deve-se a uma situação de “comodismo”, ao contrário da produção de eletroeletrônicos e de motocicletas do Polo Industrial de Manaus (PIM), que conta com muitos incentivos fiscais.
“Incentivar o PIM não custa muito ao governo. A infraestrutura já está montada. Agora, a agricultura e a pecuária precisam de maiores investimentos e o governo, portanto, não quer gastar muito em logística para incentivar essa produção. Então o responsável direto por essa incipiente atividade no campo é o comodismo gerado pelas receitas do parque industrial da região”, afirma o deputado, que recentemente coordenou uma audiência pública na ALEAM na qual foram discutidas medidas para incrementar a produção de hortifrutigranjeiros na região.
Vilões da cesta básica pesam no bolso do manauara
Segundo a última pesquisa do Dieese, o feijão e o arroz foram os vilões da cesta básica em setembro, em Manaus. No período nove produtos apresentaram alta de preços, impactando diretamente no aumento da cesta básica. De acordo com a pesquisa do departamento, o feijão foi o produto que apresentou a maior alta no mês (7,48%), seguido de manteiga (2,75%), do arroz (2,69%), do leite (1,89%), da carne (15,2%), do café em pó (1,14%), do pão francês (1,11%), da farinha de mandioca (0,88%) e do óleo (0,70%).
O Dieese também registrou redução de preços em três produtos durante o mês de setembro. Antes vilão do aumento da cesta básica, o tomate está, porém, mais barato -2,22%, seguido do açúcar (-3,65%, o produto com a maior queda do mês) e banana prata (-2,21%). O feijão também registrou aumento em 11 capitais e uma das maiores altas foi em Manaus, ao contrário do mês de agosto.
No período, o quilo da carne bovina atingiu um preço médio de R$ 15,43, o feijão, R$ 3, a farinha, R$ 2,28, o arroz, R$ 1,91, o tomate R$ 4,84, café em pó, R$ 11,8, açúcar, R$ 2,11, óleo de soja (lata de 900 ml) e o pão francês, R$ 5,46, em Manaus. “Contribuíram para essa majoração de preços dos principais itens da cesta básica, não só em Manaus, mas também em outras capitais, a seca registrada nas regiões Sul e Sudeste do Brasil e a consequente diminuição da oferta de produtos”, afirmou a supervisora técnica do Dieese, Alessandra de Moura Cadamuro.







