Selic volta ao patamar de 10%

Em: 28 de novembro de 2013
Lideranças locais questionam eficácia da estratégia do governo no combate à inflação
Lideranças locais questionam eficácia da estratégia do governo no combate à inflação

Confirmando a expectativa do mercado, nesta quarta-feira (27) o Copom (Comitê de Política Monetária) aumentou em 0,5% a taxa básica de juros, a Selic, que chega pela primeira vez em 20 meses a dois dígitos: 10% ao ano. Esta foi a última reunião do Copom em 2013. Desde maio, o Banco Central mantém um ritmo de aumento de 0,5 ponto porcentual na Selic nas últimas quatro reuniões do comitê.
A justificativa do governo para a manutenção desses sucessivos aumentos é que “essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano” – segundo palavras do próprio Copom. Mas para o presidente do Corecon/AM (Conselho Regional de Economia do Amazonas), Marcus Evangelista, ainda há dúvidas com relação à eficácia dessa estratégia.
“O (Ministro) Guido Mantega está vendo a Selic como tábua de salvação para manter a inflação dentro da meta. No momento em que ele aumenta a taxa, a expectativa do governo é que o consumo diminua. Diminuindo o consumo, a inflação fica contida. Agora, fica no ar a dúvida se essa estratégia vai ser correta, uma vez que até agora não tem tido o resultado esperado no combate à inflação, que continua subindo”, lembrou o economista.
Segundo Evangelista, a Selic é a taxa que baseia todos os financiamentos. Com isso, ao aumentar a taxa o governo pretende frear o consumo, esperando que os consumidores pensem duas vezes antes se entrar em um financiamento. Apesar de reconhecer que, em tese, esta é a medida ideal no combate à inflação, na prática não é o que tem acontecido
“Em termos de frear o consumo, essa seria a forma mais eficiente, uma vez que no momento em que as empresas não conseguem vender, a tendência é que elas reduzam os preços. Mas isso é teoria. Não sabemos se isso vai funcionar ou não. Até agora não funcionou”, ressaltou.
Ele acrescentou ainda que a perspectiva para 2014 é de que o ciclo de subidas da taxa Selic continue.
Comércio preocupado
O presidente da Fecomércio, José Roberto Tadros, apesar de já ser esperada, a alta não agrada ao comércio, já que aumenta o preço do produto final ao consumidor – e vem na época em que, tradicionalmente, há um incremento nas vendas.
O objetivo do governo realmente é frear o consumo para frear a inflação. O custo das mercadorias, sem dúvida nenhuma, será repassado ao consumidor. Isso provoca, de certa forma, uma retração. Isso pode ocasionar uma redução no índice de crescimento da atividade comercial neste fim de ano”, acredita.
Por outro lado, Tadros lembra que a decisão do Copom estimula os poupadores a investirem dinheiro, evitando o excesso de liquidez, fazendo com que a poupança interna aumente.

Ciclo de altas deve continuar em 2014

Segundo especialistas, o ciclo de aumento da Selic deve continuar nos primeiros meses do ano que vem. Na avaliação de André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, o juro deve ter mais duas altas de 0,50 ponto percentual, até chegar a 11% ao ano em fevereiro. Depois disso, deve ficar estável pelo menos até o fim do ano.
“O Banco Central está apresentando uma postura mais conservadora devido às pressões inflacionárias. Com isso, ele dá a entender que está vigilante com a política monetária dos Estados Unidos, enquanto tenta enxugar um pouco os exageros nos gastos públicos no Brasil”, diz.
“O mercado se pergunta até quando o Brasil vai manter seu modelo de crescimento calcado no consumo, mas com queda nas margens de lucros reais. Até quando isso será saudável? Os mercados estão sendo penalizados por isso. Também há uma antecipação da questão eleitoral”, diz.
Já Eduardo Velho, economista-chefe da gestora Invx Global, prevê dois aumentos da taxa de 0,25 ponto percentual em janeiro e fevereiro do ano que vem, o que levaria a Selic para 10,5% ao ano.
“A Selic deve continuar subindo porque a inflação está elevada e a perspectiva de reajuste nos preços dos combustíveis deve pressionar ainda mais”, afirma.
O economista diz ainda que a continuidade do aperto monetário depois de fevereiro vai depender dos resultados dos índices de preços, mas não que não é interessante para o Banco Central subir a Selic novamente para níveis superiores a 11% ao ano, tanto em função do ano eleitoral – já que um aperto monetário aumenta o custo do crédito, o que não costuma ser bem visto pelos eleitores –quanto para não ver sua credibilidade abalada por colocar a taxa de volta a níveis elevados depois de tê-la reduzido ao mínimo histórico, de 7,25% ao ano, pouco tempo atrás –em outubro do ano passado.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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