Mil e uma utilidades das plantas regionais

Em: 25 de julho de 2016

A fitoterapia (do grego phyton = vegetal + therapeia = tratamento) foi uma velha conhecida de nossas avós que hoje, mesmo com tantos remédios caros, está se acabando. É o tratamento feito à base de ervas, em chás, extratos, compressas e aplicações. Especificamente no nosso caso, aqui na Amazônia, herdamos esses conhecimentos dos vários povos indígenas que, sem outras alternativas para tratar seus males, do espírito e do corpo, acabaram por descobrir os efeitos benéficos das plantas. Interessante que até hoje o homem pesquisa o poder curador das plantas, e cada vez descobre mais desse poder. Antes um conhecimento restrito aos indígenas, e às nossas avós, hoje quem toma a linha de frente são os pesquisadores do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.
Um estudo recente realizado no Instituto está utilizando a catinga-de-mulata (Tanacetum vulgare) para tratar a leishmaniose. A leishmaniose tegumentar americana, comum na Amazônia, é uma doença infecciosa, não contagiosa, causada pelo protozoário Leishmania, de transmissão vetorial, que acomete pele e mucosas. No tratamento são utilizadas as flores e as folhas da catinga-de-mulata, que tem esse nome devido seu aroma gostoso.
“Nosso grupo de pesquisa vem rastreando substâncias com atividades leishmanicida com produtos sintéticos, semissintéticos e produtos naturais. Os estudos com a catinga-de-mulata começaram há um ano e meio”, contou a líder do grupo de pesquisa do Laboratório de Chagas e Leishmaniose, a pesquisadora Antonia Maria Ramos Franco.
“Possivelmente, a partir de testes farmacológicos, pode-se criar uma formulação mais acessível e de fácil uso pela população para combater a leishmaniose, que é considerada um problema de saúde pública na região amazônica”, falou Bruno Bezerra Jensen, aluno de Pibic e finalista do curso de Farmácia da Faculdade Estácio do Amazonas.
A catinga-de-mulata tem ações anti-inflamatórias, antimicrobianas e antimaláricas.

Farinha de camu-camu é antioxidante
Antes apenas comida de peixes, até hoje os amazonenses não têm o hábito de comer camu-camu (Myrciaria dubia), mesmo a bela frutinha vermelha, que tem o teor de vitamina C 30 vezes maior que a laranja, sendo amazônica pode frutificar em qualquer quintal.
Mas os pesquisadores do Inpa estão lá, a postos, atentos a tudo. Andreza Cavalcante de Oliveira e Larrisa Magda Cordeiro, também alunas do Pibic, descobriram a importância da casca do camu-camu para enriquecer diferentes alimentos. Elas pesquisaram, além do camu-camu, as cascas do cubiu e do buriti. “Mas a farinha de camu-camu se destacou apresentando melhores substâncias antioxidantes”, disse Larissa.
Os antioxidantes são substâncias que evitam a formação de radicais livres no organismo que favorecem o envelhecimento celular e o aparecimento de doenças, como o câncer, ou seja, combatem o envelhecimento precoce e ajudam a prevenir doenças.
“A importância dessa pesquisa está na sustentabilidade e no aproveitamento de resíduos para minimizar os impactos ambientais. Além disso, a pesquisa fornece subsídios e conhecimentos para a agroindústria do que é desperdiçado visando o reaproveitamento dos resíduos de frutos amazônicos”, completou Francisca Souza.

Pipoca e geleia da vitória régia

Não só remédios e enriquecedores de alimentos, mas também alimentos. Plantas antes utilizadas apenas para decoração agora podem ser consumidas. A vitória régia (Victoria amazonica), quem diria, continua bela e majestosa, mas suas sementes podem virar pipoca e das flores ser preparada uma deliciosa geleia. O caule e o talo também podem ser degustados. “A vitória régia é uma hortaliça que poderia ser produzida para ser consumida”, falou o biólogo Valdely Kinupp, do Inpa.
“A vitória-régia é a hortaliça mais emblemática da região. Não é consumida pela população, mas é uma delícia”, revelou Kinupp, pesquisador e entusiasta das PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). “O problema é que as pessoas só vão à feira para comprar tomate, pepino, pimentão, cebola, dentre outras”, disse o professor, autor juntamente com Harri Lorenzi do livro PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) no Brasil, que traz 1.053 receitas ilustradas. Editado em 2014, já foram comercializados cerca de 20 mil exemplares.
Estamos cercados por uma riqueza alimentar na floresta e, como a desconhecemos, não a aproveitamos. “As pessoas olham para as plantas, mas não sabem lê-las”, disse. “Temos 516 anos de conquista e o Brasil não come sua biodiversidade. Por outro lado, nos Estados Unidos já tem supermercado que vende taioba importada de Belo Horizonte”, reclamou. “As caapebas, a urtiga, a taioba, a vitória-régia, o aguapé, todas são plantas alimentícias, mas as pessoas as consideram ‘mato’, enquanto elas se perdem na natureza”, alertou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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