Venezuelanos em Manaus aguardam notícias e reescrevem nova história

Em: 19 de abril de 2019
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Com apenas R$ 170 no bolso, a roupa do corpo e acompanhado dos dois filhos pequenos e esposa, o venezuelano Edgar Fernandes, 32, atravessou a fronteira entre Venezuela e Brasil em busca de dias melhores. Dirigindo um carro da marca Lada, ano 92, ele e sua família percorreram cerca de 2,5 mil quilômetros, de Maracay no estado de Aragua até a capital amazonense. O mecânico conseguiu chegar a solo brasileiro um dia antes do presidente Nicolás Maduro fechar a fronteira entre os dois países.

A coragem e determinação do venezuelano o motivou a vencer todas as barreiras para livrar sua família da situação caótica em que vivia.  Os conhecimentos em mecânica de Edgar alinhado a sua esperança por dias melhores foi o principal combustível para respirar novos ares em solo brasileiro. Com pouco recursos, sem condições mínimas de viagem e com um transporte impossibilitado de suportar longas distâncias, ele juntou sucatas velhas e montou o motor para o próprio carro.  O velho Landa 92, da fábrica AvtoVAZ, principal montadora russa, ganhou vida e fôlego para percorrer todo o trajeto até Manaus.

“O Brasil é um paraíso. Para comprar um frango em meu país você tinha que pagar R$ 40 reais. E lá  para ganhar 40 reais você tem que trabalhar o mês todo. Na venezuela as pessoas não estão vivendo elas estão sobrevivendo. Não temos energia elétrica e ninguém ajuda. Quando decidimos vir para o Brasil foi para procurar um futuro melhor para meus filhos. Estar no Brasil tem sido muito bom porque vivemos sossegado. Aqui estou trabalhando  minha família e tenho condições de não deixá-las passar fome. Aqui temos esperança de dias melhores”, disse..

A família faz parte dos mais de 240 mil venezuelanos que entraram em solo brasileiro desde 2017. Refugiado de um regime “ditador e desumano” conforme suas palavras, Edgar conta que está no Brasil marca o início de uma nova trajetória e um novo recomeço.

Em seis dias de viagens, ele chegou a Manaus e foi para o porto da Ceasa, na Zona Sul da cidade. Sem ter onde morar, passou a dormir várias noites dentro de seu carro junto, e ficou admirado pelo carinho e hospitalidade dos trabalhadores da localidade. A acolhida e a possibilidade de trabalho para reconstruir uma nova vida deram esperança para ele e sua família.

“Quando chegamos a Manaus dormimos dentro do carro no porto da Ceasa e as pessoas que vendiam peixes e trabalhavam no local nos ajudaram dando comida e roupas. As pessoas do bairro nos acolheram e me deram trabalho. Com o dinheiro que ganhei consegui alugar um local para morar e aos poucos fui me estabilizando”, disse.

Edgar conta que a situação das pessoas no país é tão desesperadora, que presenciou compatriotas matando cachorro para saciar a fome. Fralda descartável para crianças era artigo de luxo, somente em Manaus com o dinheiro do primeiro salário conseguiu comprar a primeira desde que o seu filho de dois anos nasceu.

“As pessoas abrem sacola do lixo para comer, estão comendo cachorro porque não tem nada para comer. Comer carne e frango na Venezuela é luxo.

Os preços dos alimentos são altos. Meu filho mais novo tem um ano e ainda usa fraldas. Na Venezuela fralda é artigo de rico e minha esposa fazia a mão. Ele veio usar fralda pela primeira vez aqui em Manaus. No Brasil não passo fome, mas meu coração está pequeno só de pensar que meus familiares que ficaram estão vivendo na miséria”, disse.

Bastante emocionado e com tristeza estampado no rosto, o mecânico falava da saudade do resto de seus familiares que ficaram no país e não tiveram condições de vir para o Brasil. Com índices econômicos baixos, instabilidade política e um crise humanitária crescente ele contou como o presidente Maduro tem governado o país.

“As pessoas que estão no governo falam que no país tudo está bom e não existe nenhum problema e que as pessoas não estão passando fome, tudo é uma mentira. É um cenário onde você não pode questionar o governo porque você pode ser perseguido, preso e morto. Lá não é uma democracia e sim uma ditadura. O governo não usa apenas as forças armadas para perseguir as pessoas, ele paga mercenários.  O País está em um estado de anarquia”, frisou.

Com esposa diabética e sem condições de comprar medicamento em seu país, Edgar ficou impressionado que o mesmo remédio que era vendido em seu país por R$ 500 convertido em Bolívares. “Quando entrei na drogaria para comprar o remédio agradeci a Deus porque o valor do remédio era 5 reai.  Na Venezuela o custo do mesmo remédio é 500 reais convertido na moeda de lá. Depois que o dono da drogaria me passou o remédio fiquei uma hora chorando porque não acreditava que eu pudesse comprar um remédio tão barato”, disse.

Apaixonado pelo Brasil, Edgar adotou o país como sua segunda pátria, e não poupou críticas ao presidente Nicolás Maduro, além disso, mostrou toda sua indignação com as pessoas que defendem o regime do ditador, e disse que o sonho que o socialismo vende de igualdade entre o povo é uma “grande mentira”.

"O dinheiro que maduro gastou na Turquia alimentaria milhões de venezuelanos. Tem brasileiro que pensa que o socialismo é a melhor coisa do mundo. Socialismo é uma praga que destrói vidas. Quem está no governo venezuelano não são socialistas. Eles são mais capitalista que o próprio capitalismo. Eles gastam e esbanjam, comem bem, compram carro de luxo e vivem uma vida de luxo. Enquanto o povo na Venezuela come lixo e mata cachorro para sobreviver. Brasileiro que defende governo socialista precisa acordar pra vida e fazer uma experiência de um mês na Venezuela para conhecer a realidade. Conheço brasileiros que falam bem desses países, mas só viajam para os Estados Unidos e Europa. Se o socialismo é bom porque não vão morar em Cuba e Venezuela? É tudo uma farsa", afirmou.

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Nas proximidades da Rodoviária muitos grupos de refugiados da Venezuela

Números

Conforme último levantamento da Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), cerca de 160 mil venezuelanos foram regularizados até o momento, seja pela solicitação de refúgio (59%), ou por meio de um visto de residência temporária (41%). No fim de março, 230 refugiados venezuelanos, indígenas e não-indígenas, que estavam no entorno da Rodoviária de Manaus foram realocados para abrigos, em uma ação realizada pelo Governo do Estado, prefeitura de Manaus e MPF-AM (Ministério Público Federal do Amazonas).

Segundo dados da Cáritas Arquidiocesana de Manaus foi registrado um aumento de 3 mil venezuelanos em Manaus, só em fevereiro e março. A prefeitura de Manaus criou no bairro do Coroado, Zona Leste, um abrigo com capacidade de abrigar 200 venezuelanos.  Apesar de muitos refugiados, existem aqueles que se viram como podem e buscam alternativas de melhores condições usando os pouco recursos que possuem.

Há 5 meses em Manaus, após fugir de uma perseguição política em sua cidade, a advogada e suplente a deputada, Yuretz Idrogo, 36,  trabalha em Manaus no ramo de vendas de alimento tipos da venezuela. Em processo de adaptação, aos poucos ela investe na estrutura física do seu empreendimento para se manter na cidade.

Bastante triste com a atual situação de seus compatriotas, ela afirma que a situação política e econômica de seu país se encontra desestruturada e sem perspectivas de mudanças. Natural da cidade de Guayana, em Bolívar maior estado da Venezuela, ela acredita que somente uma mudança no poder e uma reestruturação democrática no sistema pode mudar o atual cenário do país.

“A situação econômica da Venezuela tá muito complicada. O objetivo do regime de Maduro é que o país continue recuando em termos econômicos e que todos os cidadãos sejam pobres e que apenas ele e seu gabinete sejam ricos, a fim de manter o controle permanente do povo. Na política eu vejo o regime cada dia mais enfraquecido, sem o apoio do povo e sem reconhecimento internacional. Ele não pode continuar a usurpar uma posição ilegitimamente por um longo tempo, tenho certeza que antes de 2020 sairá do poder”, explicou.

Em seu país, apesar de atuar como suplente no parlamento venezuelano, ela possuía seu próprio negócio, uma empresa de investimento dedicada à venda no atacado de bolsas femininas, e mostrou plena confiança no alto proclamado, presidente interino do país, Juan Guaido e a Assembléia Nacional, que segundo ela já possui um plano estratégico para reverter a situação do país, e assim que o Maduro sair do poder, planeja voltar para o seu país e reconstruir sua vida.

“A Venezuela tem atualmente a maior inflação do mundo produzida pelo regime socialista disfarçado que foi mantido durante esses quase 20 anos.  No entanto, vale ressaltar que o presidente interino e a Assembléia Nacional. Quando tudo se estabilizar e o Maduro sair do poder eu volto para o meu país”, explicou.

Vida reconstruída na capital amazonense

Já o barbeiro David Cáceres, natural de Maturin no estado de  Monagas, não esperou a situação do país se agravar e decidiu junto com familiares vir para o Brasil em 2017, onde mora há 2 anos e 9 meses. Na capital amazonense encontrou estabilidade financeira em emprego, e hoje constrói uma nova história e não planeja retornar a sua terra natal.

“Hoje não tenho planos de voltar para o meu país. Não é mais um lugar para se viver. Para se levantar vai demorar e não estou disposto a esperar. Apesar de amá-la tivemos momentos ruins lá. Hoje tenho planos de permanecer em Manaus e escrever uma nova história”, disse.

O venezuelano lamenta a atual situação do seu país, e na sua visão, somente uma intervenção militar externa ou a rebelião do próprio exército venezuelano contra o governo podem libertar o povo da situação em que se encontram. “É triste ver como a situação do meu país está crítica. O Maduro está agarrado ao poder e não quer sair. A única forma de tirar ele é na força e isso não vai ser bom para ninguém, porque vai trazer morte e mais sofrimento. Os militares que o apoiam devem tomar consciência do sofrimento do povo e se levantar contra o governo. Essa é a única alternativa, porque enquanto ele for protegido pelos militares, dificilmente ele sai do poder”, afirmou.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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