Um novo segmento econômico está surgindo em Manaus, dando mostras de que veio para ficar e se expandir. Trata-se das cervejarias ciganas, empresas legalmente constituídas, porém, sem espaço físico, utilizando-se, então, de equipamentos e estrutura de fábricas já existentes. Mas, por que ciganas?
A denominação faz uma alusão aos ciganos, povo sem país e sem local fixo para morar, que vive a peregrinar pelo mundo. A cervejaria cigana, por não ter uma fábrica própria, pode peregrinar por quantas quiser desde que, como o povo cigano, seja aceita.
Em Manaus, a primeira cerveja cigana é a Porto de Lenha, idealizada pelo mestre cervejeiro Patrick Souza em outubro passado e envasada pela primeira vez em janeiro deste ano pela Cervejaria Rio Negro.
“Sou doutor em biotecnologia de cervejas e trabalhei durante doze anos na Ambev, primeiro como mestre cervejeiro, depois como gerente de qualidade, até decidir que tinha o conhecimento e as condições para produzir minha própria cerveja”, contou Patrick.
Desde 2015 em Manaus, atualmente fabricando oito tipos diferentes de cervejas, mais seis estilos de chope, e uma nova cerveja prestes a ser lançada, com produção de 70 mil litros/mês, a Rio Negro é uma cervejaria genuinamente amazonense, com sócios amazonenses. Além de Manaus, as cervejas da Rio Negro já chegam a outros municípios do Estado como Manacapuru, Parintins, Itacoatiara e até Trombetas, no Pará.
“Para nós é interessante produzir cervejas ciganas porque elas nos proporcionam um faturamento maior, pois suas vendas giram rapidamente e não precisamos nos preocupar com essa parte, sem falar que ocupam um espaço ocioso na nossa produção”, falou José Pereira Lima, um dos sócios da Rio Negro.
Além da Porto de Lenha, outras cervejas ciganas que estão sendo produzidas na Rio Negro são a Sarapó e a Tucan Brew.
Rótulos com símbolos de Manaus
Apesar de se poder fazer cerveja até em casa (homebrew), são dois os principais motivos para se investir numa cerveja cigana: o primeiro deles é o fato de se ter uma bebida produzida em maior escala sem gastar nenhum centavo com equipamentos de uma fábrica. O segundo motivo é a obtenção do registro no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), registro esse pertencente à fábrica, mas que a cerveja cigana poderá usar.
Patrick criou dois sabores, ou estilos, para a Porto de Lenha: uma american pale ale, com aroma frutado de manga e maracujá, com teor alcoólico de 4,8%; e uma summer ale, com aroma frutado de pêssego e melão, e teor alcoólico de 4,4%.
O empreendedor pensou em todos os detalhes para a sua cerveja. Além do sabor, cuidadosamente acompanhado por ele na cervejaria, Patrick se preocupou com o visual dos rótulos.
“A american pale ale traz o Teatro Amazonas no rótulo, e a summer ale, o relógio municipal e esta, como a denominação já diz, foi pensada para o verão amazônico. Quero deixar bem claro para os futuros amantes da Porto de Lenha que somos amazonenses e estamos fazendo um produto de altíssima qualidade, mostrando que podemos ser produtores de excelentes cervejas com características nossas”, revelou.
Parte da matéria prima da Porto de Lenha é comprada em São Paulo (malte, lúpulo, levedura) e a aveia é adquirida no comércio local
“Até junho devo lançar mais um estilo, uma bienna lager, mas não posso adiantar mais nada a não ser que será uma cerveja avermelhada, com notas que lembram tostas, biscoitos, caramelo e toffer”, disse.
Atualmente estão sendo envasados dois mil litros/mês de cada um dos estilos da Porto de Lenha, e a cerveja já pode ser encontrada nos principais supermercados de Manaus.
Uma escola de cerveja
E tudo é questão de tempo para o surgimento de novas cervejas ciganas, em Manaus. Patrick acaba de inaugurar a Escola Amazônica de Cerveja, para formar cervejeiros caseiros, uma escola pioneira no Norte.
“Vamos oferecer cursos de produção e sommeliaria de cervejas. Os cursos terão a duração de 100 horas e os alunos degustarão 100 tipos de cerveja nessas 100 horas”, garantiu.
“Cada curso terá capacidade para 24 alunos, com aulas ministradas por mim e mais cinco mestres cervejeiros aqui de Manaus, e outros, que pretendo trazer de fora”, adiantou.
“A minha idéia é que o conteúdo dos cursos seja 100% amazônico, tanto que vamos trabalhar com frutos, vegetais, madeiras, ervas e raízes da região para produzir as cervejas durante nossas aulas”, afirmou.
“Depois de formados, os alunos serão cervejeiros caseiros e poderão trabalhar nas cervejarias que estão surgindo em Manaus, ou criar sua própria cerveja cigana e, quem sabe, trilhar um caminho de sucesso”, concluiu.
O escritório da Porto de Lenha fica na rua Tancredo Neves, 31, altos, sala 5, fone: 9 8439-1261; e a escola está localizada na rua Alexandre Magno, 1260, altos do Igara Pub, fone: 9 9384-4855, ambos endereços no Parque 10 de Novembro.







