Uma vez folião, sempre folião. O médico Jaime de Araújo Covas, hoje aposentado, começou a gostar de Carnaval ainda muito criança, na década de 1950, quando as brincadeiras de rua já aconteciam na avenida Eduardo Ribeiro, então a principal da capital amazonense, transformada em palco oficial dos desfiles desde 1905, e que perduraria até 1978, quando a avenida Djalma Batista ganhou esta primazia de 1979 a 1990, com a inauguração do sambódromo. Até hoje Jaime gosta de ir a bandas de rua, em Manaus, Belém, Recife e Rio de Janeiro.
Apenas uma grande paixão do médico há muito foi deixada para trás: os concursos de fantasias, dos quais ele não perdia um, em sua juventude.

“Comecei a gostar de Carnaval com uns oito anos, quando meus pais me levavam para ver os desfiles na Eduardo Ribeiro. Nessa época já existia a escola de samba Mista da Praça 14, a Kamélia, o Mocidade Clube, e os blocos de sujos, homens vestidos de mulher que saiam pelas ruas da cidade, batendo latas e jogando talco em quem topasse, ou nem tanto, a brincadeira”, recordou.
Se nos dias de hoje os foliões não se contentam com apenas três dias de Carnaval, começando as festas bem antes e acabando bem depois da Quarta-Feira de Cinzas, antigamente os dias de folia eram respeitados.
“Tinha o sábado magro e o sábado gordo, mas o Carnaval mesmo era de domingo a terça-feira. Na quarta-feira tudo acabava e a cidade era uma tristeza só. Na Eduardo Ribeiro, eu e minha família íamos assistir aos desfiles dos carros alegóricos, nos quais as famílias iam jogando confete, serpentina e lança-perfume, que naquela época ainda não era proibido e fazia parte da brincadeira”, lembrou.
Os clubes restritos
Pertencente a uma ilustre família manauara onde todos eram foliões, não foi difícil para Jaime entrar na brincadeira. No início da década de 1960, ainda adolescente o garoto começou a frequentar os restritos clubes da cidade.
“Os bailes que eu frequentava eram os do Ideal, Rio Negro, Olímpico, Cheik e Luso Sport Club, por sinal o baile de Carnaval do Luso era muito bom”, destacou.
Assim como Jaime, o jornalista Cláudio Amazonas, da mesma idade, foi um grande folião.
“Falar de Carnaval dos anos de 1960 é falar de um dos tempos de maior efervescência de Manaus em termos de diversão. Apesar da eclosão do movimento militar de 1964, nunca a cidade viveu épocas tão trepidantes”, garantiu.
“Além dos clubes fechados, nos quais só a elite frequentava, existiam ainda a AABB, na rua Marechal Deodoro; o Barés Clube, na rua Miranda Leão, próximo da igreja dos Remédios, congregando a colônia sírio-libanesa que ocupava grande parte do bairro dos Remédios; o Amazontel, na rua dos Andradas, fundado pelos funcionários do Hotel Amazonas; o Cheick Club, atrás do Hotel Amazonas, também da colônia árabe; o Nacional, na rua Saldanha Marinho; e nos bairros proliferavam vários clubes que, nos fins de semana e feriados promoviam festas dançantes, mas tinham uma participação bem marcante com a chegada do Carnaval, como a escolha de suas rainhas, que depois desfilavam na avenida Eduardo Ribeiro”, informou.
Até hoje
Foi nesse clima de muita animação, que Jaime Covas, então com 15 anos, resolveu participar de seu primeiro concurso de fantasias.
“Foi no baile do Rio Negro. Eu estava com 15 anos e me inscrevi com a fantasia de Ramsés II do Egito. Naquela época não existia televisão em Manaus, então tinha que copiar as idéias dos livros e revistas. Nos anos seguintes continuei participando dos concursos. Eu mesmo idealizava as fantasias e quem as fazia era a dona Maria, costureira da nossa família”, falou.
Os clubes frequentados por Jaime organizavam tanto bailes de Carnaval infanto-juvenil quanto para adultos e cada um tinha sua característica própria, por isso os foliões endinheirados faziam questão de ir a todos.
O rapaz só parou de participar dos concursos de fantasia quando chegou a hora de ir para a faculdade de medicina, que ele cursou em Belém, em 1966.
“Me dediquei totalmente aos estudos e sem ter como produzir as fantasias, me afastei dos concursos, mas assim que acabei a faculdade, em 1972, e voltei para Manaus, não mais deixei de ir para as festas de Carnaval”, disse.
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“Em 1974 lá estava eu, no Atlético Rio Negro Club, com a fantasia O Esplendor de Tutankamon”, lembrou.
Jaime Covas participou de vários períodos e momentos históricos do Carnaval manauara, como o surgimento da primeira escola de samba da cidade, dos blocos de sujos, dos carros alegóricos, da Kamélia ainda desfilando na Eduardo Ribeiro, dos bailes nos clubes onde só frequentava a elite. Integrou a famosa batucada do Rio Negro, no final da década de 1970, e no início da década seguinte estava presente na formação da Banda do Mandy’s Bar, a primeira banda de rua de Manaus, e no primeiro desfile da escola de samba de Aparecida, lá estava ele descendo como destaque, num carro, na Djalma Batista.
Em 2004, Jaime realizou, talvez, seu último desfile num concurso de fantasias quando, a convite da Secretaria de Cultura, se apresentou com O Príncipe Azul, réplica de uma fantasia que havia feito muito sucesso em outros carnavais.
“Ainda brinco até hoje, nas bandas e blocos de rua. Só não vai atrás do bloco quem já morreu”, avisou.







