A realpolitik de Trump

Em: 6 de março de 2026

Anos atrás, no mês imediato ao início da chamada “operação militar especial” que desencadeou a guerra na Ucrânia, publiquei um artigo intitulado “A Realpolitik de Putin”. Na ocasião, procurei analisar a racionalidade estratégica por trás da ofensiva russa contra a soberania ucraniana, bem como os imperativos de poder, em linguagem bismarckiana, que orientam as projeções militares e diplomáticas das grandes potências.

Quatro anos depois, o sistema internacional entrou em nova fase de tensão e reajuste no posicionamento estratégico dos grandes atores da ordem global. Estratégias políticas, diplomáticas e militares foram testadas — algumas bem-sucedidas, outras claramente fracassadas — enquanto as grandes potências voltam a experimentar seus limites e possibilidades neste primeiro quarto do século XXI.

É inerente à natureza da política internacional o reposicionamento periódico dos grandes atores — potências, grandes potências e superpotências — no tabuleiro global. Historicamente, tais mudanças de posição ocorrem por meio de arranjos diplomáticos ou pelo recurso à força militar. Zonas intermediárias existem, mas tendem a ser instáveis e transitórias.

O momento atual revela um ambiente de crescente conflitividade sistêmica em várias frentes. A guerra na Ucrânia entra em seu quinto ano sem solução negociada clara; no Indo-Pacífico, a ascensão da China continua a testar o equilíbrio regional; e, no Oriente Médio, o projeto nuclear iraniano permanece como um dos principais focos de instabilidade estratégica.

A política externa associada a Donald Trump — marcada por unilateralismo seletivo, geoeconomia e uso instrumental de operações militares — recolocou no centro do debate a tese do declínio relativo dos Estados Unidos.

Sob a ótica da realpolitik, o declínio deve ser seriamente reinterpretado. Em termos econômicos e industriais, a ascensão chinesa de fato comprime a margem de superioridade norte-americana. No plano tecnológico, a competição é cada vez mais simétrica em setores estratégicos. Já no domínio militar-operacional, porém, os Estados Unidos ainda preservam vantagens estruturais acentuadas: projeção global de força, superioridade em capacidades tecnológicas, logística militar em função de suas bases, e, claro, redes de alianças regionais.

Isso não significa ausência de limites geopolíticos. Os custos políticos das intervenções, a fadiga estratégica do eleitorado e a crescente contestação de potências revisionistas impõem constrangimentos reais ao poder norte-americano no mundo.

No Oriente Médio, a República Islâmica do Irã permanece como potência regional revisionista. Mesmo sob severo ataque aéreo da coalizão EUA-Israel, de sanções econômicas e de pressão diplomática, o aparato político-religioso iraniano — ancorado no Líder Supremo, na Guarda Revolucionária e em uma complexa rede de milícias aliadas — continua a projetar influência no Grande Oriente Médio.

O chamado Eixo da Resistência, articulado pelo regime de Teerã, reúne atores estatais e não estatais que operam em diferentes níveis e coordenação estratégica. Entre seus principais componentes figuram o Hezbollah, no Líbano; o Hamas, na Faixa de Gaza; a Jihad Islâmica Palestina; o movimento Houthis, no Iêmen; além de diversas milícias xiitas atuantes no Iraque; e remanescentes do regime sírio vinculados a Bashar al-Assad. Em conjunto, essa rede constitui o principal instrumento de projeção do Irã.

Essa arquitetura militar assimétrica permite ao Irã compensar suas limitações convencionais e manter capacidade de dissuasão indireta contra adversários regionais e extrarregionais.

Embora o Eixo da Resistência tenha sofrido desgastes — especialmente após a guerra civil síria e as pressões econômicas internas —, ele não foi totalmente desmantelado após os ataques da coalizão EUA-Israel. O Irã ainda mantém alta capacidade de perturbação regional, sobretudo via missilística e guerra por procuração em diversos países da região.

O sistema internacional caminha, portanto, para um cenário de competição estratégica prolongada, não necessariamente para uma guerra em larga escala. O risco maior parece residir menos em um confronto direto entre grandes potências e mais em escaladas regionais mal calibradas que possam gerar efeitos de encadeamento.

A realpolitik guiada por Trump continua operando sob a velha máxima: poder não se declara em discursos, mas se mede em capacidades e na disposição de empregá-las no campo de batalha a despeito do direito internacional.

*é cientista político

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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