Atualmente, a transição energética para uma economia de baixo carbono representa um dos maiores desafios globais, pois envolve múltiplas dimensões éticas, tecnológicas, ambientais e financeiras.
A crise climática e as metas do Acordo de Paris exigem esforços sem precedentes: de acordo com o World Energy Outlook 2024, manter o aquecimento médio global abaixo de 1,5 °C depende de triplicar a capacidade de geração renovável até 2030 e quadruplicar os investimentos anuais em energia limpa até 2040. A maior demanda de fontes renováveis elevará a pressão para políticas, infraestrutura, financiamento e recursos minerais. E esta pressão já tem ocorrido – principalmente em territórios indígenas na Amazônia brasileira e peruana.
A Organização das Nações Unidas criou normas para o consentimento livre, prévio e informado em territórios tradicionais e originários. Ignorar esse princípio resultará em conflitos sociais e na criação de “zonas de sacríficos” (áreas degradadas por extração intensiva que negligenciam o valor intrínseco dos ecossistemas e da cultura local). E os desafios não são pequenos.
A integração massiva de renováveis demanda redes elétricas mais inteligentes e flexíveis, gerenciadas por sistemas de inteligência artificial (IA) e internet das coisas (IoT), bem como supercomputadores capazes de modelar cenários climáticos de alta resolução e otimizar a operação de usinas e linhas de transmissão.
A extração de minerais críticos (lítio, cobalto, níquel e terras raras) produz enormes volumes de resíduos tóxicos: cada tonelada de terras raras gera até 75 m³ de efluentes ácidos e algumas centenas de quilos de resíduos radioativos.
E para viabilizar essa expansão elétrica e mineral, exige-se trilhões de dólares em títulos verdes, parcerias público-privadas e reformas no sistema financeiro global para atrair investidores.
E o Brasil é central nesses cenários de desenvolvimento. O Brasil e Rússia são os maiores fornecedores de compostos de terras raras para a China – estima-se algo como USD 100 bilhões em 2025. A Índia, segunda maior consumidora de minério para a transição energética, tem aumentado as relações comerciais com Canadá e o próprio Brasil. O terceiro maior comprador é os EUA – que adquiri mais de 70% da produção do Canadá. E mais: a expansão de data centers das big techs busca países com uma matriz renovável e a disponibilidade de minérios. Por isso o Brasil é o principal ator nesta nova “economia energética”.
Não se pode ser ingênuo e não aproveitar essa oportunidade de qualificar a matriz energética brasileira, receber investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento e manter a segurança energética nacional. Entretanto, é preciso avaliar o como fazer. Além dos impactos da mineração, há ainda possíveis impactos na infraestrutura de distribuição de energia e escoamento de matérias primas.
E aqui mora a “escolha de Sofia”: a necessidade intrínseca da transição energética global, melhorar a infraestrutura de geração e distribuição de energia renovável e limpa, e a exploração de terras raras em áreas protegidas?
O modelo de transição energética justa requer políticas que garantam o consentimento livre, prévio e informado, reforcem a governança socioambiental, estimulem a reciclagem de baterias e metais e promovam transparência nas cadeias de valor. Há também a necessidade de investimentos em educação, pesquisa e fortalecimento de comunidades locais. E o Brasil tem plenas condições de nortear essa discussão e a implementação.
Somente um arranjo integrado de inovação tecnológica, financiamento responsável e respeito aos direitos humanos permitirá transformar o potencial das energias renováveis e dos supercomputadores em oportunidades reais de desenvolvimento sustentável, sem perpetuar desigualdades ou degradar os ambientes que buscamos proteger.















