Ajustes e reajustes em protótipos

Em: 28 de outubro de 2025

Há uma relação dinâmica entre os testes e retestes dos protótipos e os ajustes e reajustes. A razão que subjaz a essa relação é muito simples de ser compreendida, mas pode ser bastante complicado aceitar: nenhum artefato humano é perfeito, nem mesmo as urnas eletrônicas usadas no Brasil. Isso significa que os protótipos precisam ser testados para identificar suas falhas para imediatos ajustes que, por sua vez, devem ser retestados para a identificação de novas desconformidades e nova submissão a reajustes, até que eles possam ser considerados aprovados em todos os testes. É aqui que reside a resistência de quem não entende de tecnologia aceitar que todas elas são falhas: a aprovação de um artefato tecnológico não significa que ele seja perfeito, mas que foi considerado adequado para aqueles aspectos que a equipe de criação escolheu como importante. Acontece que uma equipe de cientistas é capaz de cobrir apenas os aspectos de vulnerabilidade de uma tecnologia com os quais estão familiarizados, não todos. Há diversas outras questões extremamente importantes que os cientistas desconhecem completamente, principalmente os que estão centrados nos usuários, clientes e consumidores (que é justamente o caso das urnas eletrônicas brasileiras), que certamente não passou pelos testes devidos relativos à confiabilidade com os eleitores. É aí que entra a ideia de iteração, que é o nome técnico para o processo de ajustes e reajustes que fazemos sobre os protótipos e todos os aspectos identificáveis a ele relacionados: conceituais, relacionais, processuais, estruturais, funcionais e ambientais.

A interação é crucial para qualquer artefato tecnológico porque é ela que garante que a sua versão final seja eficaz, útil e esteja de acordo com as expectativas do público-alvo. A eficácia significa o alcance dos objetivos pretendidos em conformidade com os seus requisitos, principalmente a aceitação não coercitiva de seus stakeholders. Sem que o protótipo atenda às expectativas de todos os seus públicos, ele não pode ser considerado uma tecnologia. Isso implica na realização de inúmeros testes com cada público-alvo, para que o protótipo se adeque às suas exigências e seus resultados sejam racional e moralmente aceitos. Enquanto houver discordância fundamentada, novos ajustes e reajustes deverão ser realizados, em processo iterativo que só se completa quando as exigências de todos os públicos forem atendidas. Imagine um medicamento que mata determinada parte de seu público-alvo: se ele não for consertado ou não recomendado para esses pacientes, não pode ser considerado uma tecnologia ou produto finalizado.

Por que os ajustes e reajustes são necessários e, muitas vezes, obrigatórios? Por cinco grandes motivos. O primeiro é a necessária e essencial melhoria contínua da qualidade do produto a partir da experiência do usuário. Cada iteração permite refinar funcionalidades, estéticas, usabilidades e outros aspectos centrais que deixam a tecnologia mais intuitiva, agradável e confiável porque os usuários veem nas melhorias os resultados de suas solicitações. Isso faz a tecnologia ser mais alinhada com as necessidades e expectativas de quem as utilizará e sofrerá suas consequências operacionais.

O segundo grupo é a redução de custos e riscos. A iteração tem a magia de encontrar falhas e pontos de melhoria que a equipe de cientistas jamais imaginou quando da criação e nunca imaginaria, sem a manifestação dos usuários. Corrigir as imperfeições na fase de prototipagem é muito menos oneroso do que quando já é tecnologia, uma vez que as consequências desastrosas de suas falhas podem gerar bilhões de reais em indenizações e até mesmo a morte de milhares de pessoas. A interação, portanto, mitiga os riscos decorrentes de falhas críticas, especialmente em produtos complexos (como as urnas eletrônicas). Ainda que uma tecnologia seja finalizada no exterior, se for adotada em outro país deve ser submetida a testes para identificar pontos de ajustes, que sempre os há. É por isso, por exemplo, que os medicamentos são testados no mundo todo.

O terceiro grupo é o da validação e viabilidade. Os ajustes e reajustes devem começar no conceito do protótipo e prosseguir durante toda a vida útil da tecnologia. Enquanto os testes não indicarem adequação, a futura tecnologia não poderá ser considerada viável, porque poderá ser contestada ou, no caso de produtos tecnológicos de venda em massa, não ser adquirida. Ajustes e reajustes reduzem a incerteza sobre inúmeros aspectos que comprometem a credibilidade e a confiança do público sobre a tecnologia.

O quarto grupo é a aceleração do processo de transformação do protótipo em tecnologia. Os ajustes e reajustes geram um ciclo de confiança baseado na trilogia construir, testar e aprender que torna o processo criativo mais dinâmico, confiável e rápido. As metodologias ágeis hoje disponíveis permitem fazer e refazer esse ciclo com mais frequência, rapidez e níveis crescentes de aprendizado que se materializam em protótipos com adequação efetiva com as expectativas do público-alvo e seus stakeholders.

O quinto e último grupo é o da melhoria contínua e comunicação constante. Só é possível melhorar continuamente uma tecnologia, se houver um canal de comunicação efetivo da equipe de criação com os clientes ou com o mercado. Novamente: nenhuma tecnologia humana é perfeita, todas têm muitas e muitas falhas que os criadores não são capazes de ver. É por isso que é necessário que se ouça com atenção as reclamações, informações e solicitações para que possa ser melhorada. Quem garante, por exemplo, que uma tecnologia supostamente inofensiva não seja cruel para determinado grupo de usuários? O engajamento dos usuários é fundamental nesse intuito.

Ajustes e reajustes em protótipos e tecnologias não podem ser vistos como aumentos constantes de custos. É o contrário: é dinheiro, tempo e outros recursos investidos para se evitar males trágicos e muito mais onerosos. Cada ponto de reclamação não pode ser contestado: é preciso ser modificado e apresentar a alteração e os resultados aos reclamantes para obter suas aceitações; se não obtiver, reajustes precisam ser feitos. Essa é a prática das tecnologias de sucesso. Inclusive das urnas eletrônicas.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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