O fanatismo destrói amizades, corrói a confiança social, alimenta a polarização e enfraquece a cooperação necessária para que instituições, a economia e políticas públicas funcionem bem. Este artigo conceitua o termo e propõe ações para evitar que visões rígidas transformem diferenças em inimigos e continuem levando brasileiros a desperdiçar tempo, energia e recursos em distrações e brigas inúteis, em vez de direcioná‑los ao progresso comum.
O termo fanatismo vem do latim fanaticus, relacionado a fanus, que significa “alguém ligado ao templo”; porém, com o tempo, passou a denotar excesso de zelo, devoção cega e intolerância [1]. É um problema milenar, associado à religião, à política, ou aos interesses militares. Na mitologia grega, liga-se ao termo hýbris, insolência e violação do métron (equilíbrio), punida pela nêmesis, deusa da justiça distributiva [2]. Mitos como os de Aracne, Édipo, Ícaro, Níobe e Penteu ilustram a lógica do excesso; enquanto a tragédia “Os Persas”, de Ésquilo, expõe a desmedida política e militar como cegueira moral e arruinamento de uma nação [3]. Na Mesopotâmia, a epopeia de Gilgamesh expõe a tensão entre a ambição humana e os limites divinos [4]. Já a mitologia egípcia aborda o tema pela oposição entre Ma’at (justiça, harmonia) e Isfet (caos e ruptura do equilíbrio), quando a devoção perde o equilíbrio e ameaça a ordem cósmica [5].
Esses mitos ensinam que o fanatismo está arraigado na imposição violenta de uma verdade única. Se infectar a cabeça de líderes desequilibrados, como bem escreveu Sun Tzu, na Arte da Guerra, o resultado é desastroso para a nação. Para exemplificar, Nero culpou e perseguiu cristãos pelo incêndio de Roma; Diocleciano promoveu a Grande Perseguição para reforçar a unidade imperial; Aquenáton impôs o culto exclusivo a Aton, desorganizando o Egito; Wu da dinastia Tang ordenou a grande perseguição aos budistas; e Sócrates foi condenado por impiedade e por corromper a juventude [6] [7][8][9].
Em termos sociológicos, trata-se de adesão extrema, com redução da capacidade crítica, intolerância à diferença e forte mobilização emocional, que produzem polarização, conflito e enfraquecimento das instituições, comprometendo a cooperação social, a estabilidade política e o desenvolvimento coletivo. Na área religiosa, o problema não é a religião em si, mas suas formas rígidas, excludentes e intolerantes, que podem favorecer a radicalização e o apoio à violência. Estudos sobre a Nigéria apontam impactos socioeconômicos negativos do fanatismo religioso [3], enquanto evidências provenientes do Quênia associam a radicalização religiosa à violência e ao apoio a grupos extremistas [10]. Condições locais podem levar organizações religiosas à violência quando a ideologia e o contexto se combinam de forma adversa. Por outro lado, a religiosidade moderada favorece a confiança e a coesão, indicando que o dano provém do extremismo, não da fé em geral [11].
Na área política, o fanatismo pode ser facilmente observado em uma polarização extrema que transfere expectativas coletivas para lideranças salvacionistas, o que pode ser visto em contextos autoritários e populistas como a Alemanha nazista sob Hitler que explorou o slogan “Alemanha acima de Tudo” e a Itália fascista sob Mussolini que explorou o slogan “Deus, Pátria e Família”, regimes marcados por propaganda, culto ao mito, adoração desmedida à pátria, violência política e mobilização da velha narrativa do “nós contra eles”, descambando na morte de milhões na segunda guerra mundial [11] [12][13][14][15][16][17].
Em democracias contemporâneas, a dinâmica reaparece com mais rapidez e força devido ao maior acesso da população às tecnologias sociais, misturando personalização do poder, polarização, disseminação de fake news e radicalização discursiva, como mostram estudos sobre Trump e Bolsonaro, ainda que em países diferentes [18][19][20][21][22][23][24][25][26][27].
No Brasil, porém, cabe registrar que o Lulismo, como padrão de apego afetivo de massa a uma liderança personalista [28], também consolidou, entre seus seguidores, dinâmicas de polarização intensa e de estereotipagem do adversário, com identidades políticas estruturadas predominantemente pela rejeição ao outro, explorando também a velha narrativa de “nós contra eles”, chegando, em alguns casos, à desumanização mútua entre petistas e antipetistas. Ainda que a literatura indique que a intolerância política tende a ser mais pronunciada entre eleitores do campo oposto, a lógica do fanatismo, devoção cega ao líder, de substituir o diálogo pela exclusão, manifesta-se em ambos os lados do espectro político. [29][30][31][32][33][34][35][36][37][38]
Vale lembrar que o fanatismo se alimenta ou espalha a desconfiança institucional, que também é alimentada por corrupção, impunidade, teorias da conspiração e incerteza, ampliando o afastamento entre cidadãos e Estado. Quando isso se consolida, as reformas tornam-se mais difíceis; o cidadão comum não confia nem se engaja; a governança perde eficiência e o crescimento econômico sofre [39] [40] [41].
O fanatismo também se manifesta em episódios de violência coletiva e apoio ao extremismo, como nos ataques dos apoiadores de Trump ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021, e na tentativa de golpe no Brasil, com invasão e depredação de bens públicos em Brasília, em 8 de janeiro de 2023. Ou em contextos mais distantes como as regiões do Sahel (África), da Tunísia e do Bangladesh. Esses casos revelam que o fanatismo pode se tornar uma prática social destrutiva, com efeitos diretos sobre a segurança, a economia, a cidadania e a estabilidade [42][43][44].
Na educação, a escola/universidade pode ser tanto um ambiente de risco quanto um de proteção. Ambientes doutrinários ou polarizados alimentam atitudes pré-extremistas, enquanto a educação crítica, a cidadania e as relações escolares saudáveis atuam como antídotos [45][46][47].
Na área econômica, a polarização e a fragilidade da confiança prejudicam a governança pública, e governança mais fraca tende a comprometer o crescimento. Quando instituições perdem credibilidade, como tem sido recorrente no Brasil, aumenta o custo de coordenar políticas, atrair investimentos e sustentar serviços sociais, gerando um ciclo maldito: menos confiança gera menos cooperação, que gera menos desenvolvimento, que, por sua vez, alimenta mais frustração, mais espaço para radicalização, polarização e potencial erosão democrática [48] [49].
Neste sentido, recomenda-se a leitura de “Demônios” [50], de Dostoiévski, que oferece uma imagem poderosa de como ideias absolutas e paixões destrutivas corroem a vida coletiva. Ela ajuda a enxergar o fanatismo como força de desagregação social, em que convicções sem freio substituem o diálogo e empurram a comunidade para a ruína.
O fanatismo, em suas várias formas, enfraquece a nação porque destrói a confiança, alimenta a violência, dificulta a governança e desvia a energia social da construção para o conflito [51][52][53]. O custo não é apenas moral: é institucional, econômico e educacional [48][52][53]. Por isso, é preciso parar de brigar e investir em uma política de desenvolvimento baseada em: (i) fortalecer a educação crítica e cidadã para reduzir doutrinação e ampliar convivência democrática [45][461][47]; (ii) ampliar o letramento digital da população para combater fake news e teorias conspiratórias [41][54]; (iii) promover diálogo e mediação de conflitos como estratégia de prevenção à radicalização [51]; (iv) valorizar moderação, tolerância e cooperação social como bases de confiança pública [55]; (v) reforçar instituições democráticas e boa governança com forte foco na transparência e combate à corrupção, pois desenvolvimento depende de confiança e legitimidade [41][56][57]58].
Obs: O autor usou as IAs Leapspace, Claude Sonnet e Perplexity, para auxílio redacional, checagem de fontes e organização de referências, sempre sob revisão crítica do autor. As fontes encontram‑se em https://tinyurl.com/bdfp5cx9















