Como Tóquio engaja a população para cuidar da água?

Em: 30 de maio de 2025

Há mais de 10 anos, Manaus figura entre os piores municípios do Brasil no Ranking do Saneamento. Já Tóquio, com uma população gigantesca e infraestrutura complexa, colhe bons frutos ao educar seus cidadãos para cuidar da água como um bem coletivo: menos enchentes, desperdício, mais consciência. Este artigo lista os indicadores, planos, projetos e algumas ações que transformam a população em protagonista deste processo.
Manaus vive um drama silencioso: obras malfeitas, tarifas abusivas sobre esgotos sem tratamento e desperdício de mais da metade da água tratada. Resultado? Indignação crescente com a concessionária e com o silêncio sepulcral do Governador, Prefeito e da maioria dos políticos. Enquanto isso, Tóquio, com poucos recursos naturais e desafios urbanos imensos, desperdiça pouca água e é exemplo mundial em gestão hídrica. A diferença? Uma gestão transparente que cuida melhor das instalações, da floresta com nascente e da população.
Em 2023, Tóquio tinha 14 milhões de habitantes, sete vezes mais que Manaus. O abastecimento de água considerada moderna em Tóquio tem 127 anos e a organização que gerencia o serviço é o Bureau of Waterworks do Governo Metropolitano de Tóquio. Mais conhecida como Waterworks Bureau (WB – https://www.waterworks.metro.tokyo.lg.jp/), este órgão público gerencia o sistema de abastecimento de água da cidade, que atende cerca de 13,8 milhões de habitantes vivendo em uma área de 1239,21 Km quadrados, incluindo 23 bairros centrais e 26 cidades e vilas da região de Tama, com uma taxa de cobertura de 100%.
Em 2023, foram distribuídos 1.526,63 milhões de m³ de água, com pico diário de 4,48 milhões de m³, com taxa de perda de apenas 3,9%, resultado de décadas de investimentos em infraestrutura e manutenção preventiva. E até março de 2024, cerca de 11 estações de purificação de água em Tóquio trataram 6,84 milhões de m³ por dia utilizando uma rede de distribuição de 27.520 km.
Nos anos 1950, a perda era de cerca de 20%, e em 1982, estava em 15%. Desde 2003, Tóquio mantém consistentemente taxas abaixo de 5% e isso é relevante pois contribui para diminuir as emissões de CO2 (https://tinyurl.com/24ph7f49 e https://tinyurl.com/yefybb9x).
A WB tem enfrentado diversos problemas tais como Instalações envelhecidas, ameaças de grandes terremotos/desastres e mudanças climáticas que impactam os serviços de abastecimento de água. Por conta disso, em 2016, lançaram e socializaram um plano de longo prazo (2016-2025) chamado “Plano Diretor para Construção das Instalações de Abastecimento de Água de Tóquio”, com 18 projetos de melhoria para as instalações: 8 para assegurar o fornecimento estável da água; 7 para promover contramedidas contra terremotos e 3 para fornecer água segura e potável. E para os próximos cinco anos (2025-2029), outro plano foi socializado para a população com 4 diretrizes: Reduzir as emissões de CO2 para se tornar uma sociedade livre de carbono; Usar recursos sustentáveis; Preservar a água e as áreas verdes com atenção à biodiversidade; Promover a comunicação ambiental com diversas entidades (https://tinyurl.com/4w6ex733).
Entre as ações desenvolvidas para a população ao longo do tempo, destacam-se as seguintes experiências:
1ª) Transparência
Em Tóquio, além da água potável direto da torneira em casas e escolas, há cerca de 131 torneiras públicas com qualidade monitorada diariamente às 9h. O cidadão pode acessar o mapa digital e conferir o resultado dos testes: cloro residual, turbidez e cor (https://tinyurl.com/3zuvabew).
Também há painéis digitais com dados atualizados sobre a capacidade de armazenamento por local de captação (https://tinyurl.com/y7jeehb3).
Há divulgação sobre como funciona a Planta de Purificação de Asaka (https://tinyurl.com/2mdtdxew)
2ª) Gestão participativa e educadora sobre as florestas
A organização não atua apenas no espaço urbano, ela tem comprado (https://tinyurl.com/yu79npbf) e administrado 25.444 hectares da floresta de conservação hídrica nas nascentes do rio Tama há cerca de 120 anos, a fim de garantir um fluxo estável do rio na área de recursos hídricos do rio Tama e conservar o Reservatório de Ogouchi (Lago Okutama), que é uma fonte própria de água para Tóquio.
Há mais de oito anos, eles desenvolveram o Programa Namin Rights e voluntariado corporativo, para trechos das florestas de conservação hídrica. Cerca de 150 empresas como a Casio Computer Co. (Projeto Casio Forest) e a Kubota (Projeto Kubota Forest), assumem anualmente a gestão de uma parcela da área, incluindo plantio de árvores, capina, oficinas educativas para os familiares da empresa, escolas, comunitários etc. (https://tinyurl.com/2p8yn6jf;https://tinyurl.com/545jt2py).
Eles criaram a Trilha da Floresta da Nascente, onde os visitantes (famílias, estudantes, etc.) podem conhecer de perto a natureza da área. Além da trilha, vale a pena visitar a Represa Ogouchi e suas instalações, importantes para o abastecimento de Tóquio.
3) Educando a população
Indo até as escolas: a Caravana Waterworks anualmente visita cerca de 1200 escolas do ensino fundamental para aumentar a conscientização ambiental sobre o abastecimento de água. A Caravana leva aos estudantes vídeos e experimentos, para explicar o caminho da água até a torneira, bem como conhecer sobre importância das florestas de nascente e a economia de água.
Trazendo ao Gemba: o Programa de Visitação às Estações de Tratamento, oferece visitas guiadas a locais como as estações de Asaka (água) e Morigasaki (esgoto), voltadas a escolas, famílias e ao público geral, com o objetivo de mostrar como a água é tratada e reutilizada. Outras iniciativas são: Tokyo Water Science Museum (https://www.mizunokagaku.jp/) e Tokyo Sewerage Museum Rainbow (https://www.nijinogesuidoukan.jp/en/) que oferecem experiências sensoriais para crianças explorarem o tema de forma lúdica.
Guia de Esgoto: escrito em japonês, inglês, chinês e coreano, com 36 páginas ilustrativas que explicam o papel do saneamento do esgoto, como o sistema funciona tanto para empresas como residências, como o valor é calculado e uma sessão de perguntas e respostas (https://tinyurl.com/bssh7prb).
Vídeos educativos e recreativos: há vídeos que apresentam as instalações usando uma linguagem divertida e simples para a população saber sobre as melhorias, a finalidade e o estágio das obras que estão acontecendo na cidade (https://tinyurl.com/5n8ax679). E há também vídeos divulgados neste site (https://www.gesuido-adventure.jp/) para ajudar as crianças, adolescentes, jovens e adultos a conhecer, escutar, observar e pensar de forma aventureira sobre a água e o saneamento da cidade.
Se Tóquio, com mais habitantes, riscos climáticos e menos recursos naturais, conseguiu transformar sua gestão hídrica com transparência, educação e participação da sociedade, o que falta para Manaus sair do fundo do poço?

Jonas Gomes

Prof. Dr. Jonas Gomes da Silva - Professor Associado do Dep. de Engenharia de Produção com Pós Doutorado iniciado no ano de 2020 em Inovação pela Escola de Negócios da Universidade de Manchester. E-mail: [email protected].
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