Crescimento e divisões nos bolos nossos de cada ano

Em: 17 de dezembro de 2025

O Natal de 2025 será um dos melhores. Nosso país em quase pleno emprego e inflação contida, as mesas postas deverão satisfazer a grande maioria das famílias. Por óbvio haverá exceções, mas nada comparável a épocas em que a fome foi tamanha a ponto de causar grandes deslocamentos populacionais.

Contudo, a realidade dos fatos ainda não é unânime nos pensamentos. O bom cenário de hoje resulta de amplo conjunto de conquistas, empreendimentos e inovações que elevaram a riqueza disponível à sociedade brasileira — e que, em nível razoável, vem sendo usufruída por todos. Ainda assim, persiste a ideia de que a riqueza seria um bolo estático, cuja divisão seria incompatível com o crescimento. Trata-se da noção de que a criação de riqueza ocorre em um jogo de soma zero: se alguém ganha, outro necessariamente perde.

Esse modo de pensar prevalecia no mundo há cerca de trezentos anos, no contexto do mercantilismo. Foi refutado de forma contundente por Adam Smith, mas seus resíduos ainda limitam nosso bem-estar. Talvez porque após Smith, John Stuart Mill distinguiu produção e distribuição — de modo que hoje muito entendem como duas moedas separadas, cada qual com apenas uma face.

Em 1962, Milton Friedman apresentou excelente solução conceitual, entendendo a criação de riqueza pela analogia da torta (pie) e à necessidade de identificar e preservar os incentivos que permitem que ela cresça. Pressões excessivas pela divisão desestimulam a expansão da torta e, no fim das contas, reduzem o tamanho das fatias disponíveis para todos os agentes econômicos.

No Brasil, esse esclarecimento nunca foi plenamente assimilado. Trocou-se a “torta” pelo “bolo” — talvez símbolo involuntário da incredulidade quanto poder repartir ao mesmo tempo em que se cresce. Delfim Netto foi um explícito a proclamar a sequência: primeiro o bolo precisa crescer para depois ser distribuído. Como resultado, sua gestão fez o bolo crescer sob incentivos frágeis. Cresceu oco. As crises inflacionárias evidenciaram a frustração: não havia o que distribuir.

Desde então, os países mais desenvolvidos avançaram conceitualmente na noção de criação de valor, aplicando a metáfora do bolo — ou da torta — para o nível das organizações, empresas e famílias. Nesse contexto, alocações orçamentárias passam a ser entendidas como decisões subjacentes a patrimônios que não precisam escolher entre crescer e dividir. Ele cresce na medida das contribuições de todos. Quando essas contribuições são reconhecidas, os incentivos para ampliar o bolo se fortalecem.

Trago o conceito para exemplos próximos: quando, no Amazonas, reivindicamos do governo federal recursos para compensar as desvantagens do isolamento geográfico, não percebemos apenas fatias mal distribuídas em um ou outro orçamento anual. Trata-se, sobretudo, do não reconhecimento do quanto contribuímos para fazer crescer o bolo nacional, bem como da negação de novas oportunidades para ampliá-lo ainda mais, por meio de caminhos adicionais de geração de valor.

O leitor certamente reconhecerá exemplos em sua própria realidade: bolos que deixam de crescer porque a ênfase recai sobre a divisão das fatias. Trata-se de uma miopia que, em algum grau, acomete a todos nós. Uma miopia contra a qual o aniversariante do Natal nos advertiu de forma simples e profunda: tudo que divide não prevalece.

Neste fim de ano, deixo ao leitor este desejo: que em 2026 você esteja envolvido em bolos cujos participantes, antes de tudo, concordem em fazê-los crescer.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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