Dizem por aí que todo filósofo ou é ateu ou agnóstico. Carminé, como era chamado por seus alunos e amigos era a prova contrária dessa afirmativa. Sempre conseguiu adequar uma intensa espiritualidade cristã-católica a sua vida. Provava de modo inconteste com a tese testemunhal de seu “modus vivendi” que Fé e Razão se coadunam se a virtude teologal da fé abunda e transborda através dos poros da alma.
Numa assertiva simplista e para um melhor entendimento, digo que Carminé faria com palavras convincentes cair por terra a teoria do Big Bang. Essa explosão nascida de um cosmos em ebulição auto-suficiente segundo os científicos.
Ele teorizaria a lembrar o Gênesis e o Criador no exato momento do “FIAT LUX”. E asseguraria com a fé superabundante que foi nesse “Ruah de Javé”, nesse sopro de Deus que surgiu o propalado “Big Bang”. Posso afirmar que a espiritualidade foi a mística de seu agir cristão posto que a tudo passava pelo crivo da Ética. E uma pessoa ética é aquela que valoriza mais o ser do que o ter e não sucumbe ante a força do materialismo e individualismo que querem se impor como princípios éticos da pós-modernidade. Não é a toa que foi professor de Ética nas faculdades Luterana, Martha Falcão, Ciesa e em nossa UFAM.
Era um assíduo freqüentador das celebrações litúrgicas e festivas da Igreja Católica. Com uma importante ressalva: freqüentava-as não por obrigatoriedade em obediência às leis eclesiais. Frequentava-as por uma imposição íntima da Fé. Esse sopro do Gênesis que anima, e revigora e mantém são o espírito e dá Luz no olhar!
Lançou três livros da filosofia – reflexões filosóficas sobre o mundo contemporâneo – O livro “Mito, Inconsciente e Imaginário” de 2004, tive a honra de prefaciar a seu convite um pouco antes de ser eleito para cadeira nº 17 da Academia Amazonense de Letras em 2005. Demósthenes Carminé foi um vanguardista no tocante ao seu mestrado em Filosofia. Enquanto os professores universitários possuíam somente licenciatura em determinado ramo de ensino ele atingia a cátedra de Mestre nos anos setenta, pela Universidade Federal de Minas Gerais. Sempre concebeu a filosofia sob a aura feito alento a deslindar o significado da vida: seus enigmas, seus problemas, morais, éticos e humanos. E a convivência sábia e harmoniosa com suas interrogações e mistérios. No entanto guardava em si o dom do ecletismo. Dedicou-se a memorialística da cidade de Manaus ao publicar o “Um chão cheio de Estrelas” (a história do programa musical “Carrossel da Saudade” da TV Cultura) e “Teresinha Morango – A Cinderela Amazônica”. Os dois contextualizados com as épocas. Evocou assim emoções e ternuras poéticas de uma cidade em mutação.
EM TEMPO – Neste jornal, no caderno de cultura “Arte Final” (hoje Platéia) pontuou como autor e colaborador da série “A Era do Rádio”. Um dia da semana era dedicado a esse tema em página primeira e inteira. Será por certo seu livro póstumo pois já está sendo compilado. Esses escritos referem-se sobre uma faceta do conhecimento histórico e cultural ainda não explorado regionalísticamente. Como minha última homenagem, transcrevo aqui o que disse no informativo da Academia de Letras (Edição Especial) sobre Demósthenes Carminé:
…Despediu-se assim, fugidio, no dia seis. Deste Janeiro. Despediu-se de tudo e de todos num dia assim. De Reis. Assim tão simplesmente, “Dedé” uniu-se aos magos. E em suprema epifania de mestre, ensinou a estrela brilhando no azul. Era chegada sua Hora Alta! De encontrar de vez o Menino. E assim, partiu. Com o tesouro da fé. Num dia de Reis… madrinha Teresa Novoa anos depois partiu como Demósthenes Carminé, levando o tesouro da fé, todos num dia de Reis…
CARMEN NOVOA SILVA, é Teóloga e membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial do Santuário Nacional de Aparecida-SP















