Fraqueza é provocativa

Em: 3 de junho de 2026

Por força de preconceitos ideológicos e de uma leitura excessivamente normativa da política internacional, poucos integrantes da equipe responsável pela formulação da política externa brasileira demonstraram preocupação em compreender o mindset de Donald Trump.

O saber convencional predominante em setores da esquerda brasileira costuma definir Trump como “imbecil”, “autoritário”, “fascista”, entre tantos outros adjetivos depreciativos. Tais caracterizações podem cumprir função central na mobilização partidária e eleitoral, fortalecendo identidades políticas e o engajamento de militantes. Entretanto, mostram-se limitadas quando o desafio busca compreender um adversário e formular estratégias de Estado na luta da política internacional.

Subestimar um adversário constitui um erro infantil. A política internacional jamais é conduzida por preferências morais, mas por variações de poder. O general Sun Tzu, um homem da antiguidade, em A Arte da Guerra, faz a seguinte advertência: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.”

Conhecer o inimigo é um imperativo absoluto e inegociável da política em todos os níveis.

Trump não chegou à presidência dos Estados Unidos por acaso. Tampouco retornou ao centro da política norte-americana por sorte ou caridade de seus inimigos. Sua trajetória revela uma rara capacidade de comunicação política, compreensão dos sentimentos difusos da sociedade e habilidade para transformar conflitos axiológicos em instrumentos de mobilização eleitoral.

Ao longo de décadas na vida empresarial e política, construiu reputação de negociador agressivo, capaz de pressionar aliados, romper acordos considerados desvantajosos e utilizar todos os recursos disponíveis para ampliar sua margem de poder sem qualquer escrúpulo.

Não se trata de (des)qualificá-lo como um gênio político. Trata-se apenas de reconhecer um fato óbvio: Trump ocupa a liderança da maior potência econômica, financeira e militar do planeta. Ignorar essa realidade ou reduzir sua atuação a caricaturas equivale a comprometer a capacidade de analisar concretamente uma situação concreta.

O relativo otimismo que inicialmente marcou as expectativas de relacionamento entre os presidentes Lula e Trump foi rapidamente substituído pela desconfiança, pelo ceticismo e agora pela conflitividade. E essa mudança decorre sobretudo de cálculos políticos realizados em Washington. A Casa Branca acompanha atentamente a dinâmica eleitoral brasileira e procura identificar quais forças políticas poderão exercer influência sobre o país nos próximos anos.

Independentemente de preferências partidárias, a percepção de setores da administração norte-americana é a de que o presidente Lula enfrenta limitações crescentes para construir uma maioria minimamente vitoriosa. Mesmo em um cenário de reeleição, um eventual quarto mandato poderia ser marcado por dificuldades de governabilidade decorrentes da fragmentação partidária, da força dos governadores e da provável composição conservadora do Congresso Nacional, especialmente após a renovação de dois terços do Senado Federal.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos observam atentamente a reorganização da direita brasileira sob a regência de Flávio Bolsonaro. Lideranças associadas ao bolsonarismo permanecem como atores-chave do sistema político e podem funcionar como cabeças de ponte para os interesses do Trump no Brasil e na América Latina.

A conjuntura regional reforça ainda mais essa percepção. Nos últimos anos, importantes países sul-americanos passaram a ser governados por lideranças de orientação liberal ou conservadora. A Argentina de Javier Milei e o Chile de José Antonio Kast representam os casos mais evidentes. Em diferentes graus, também se observa o fortalecimento de forças políticas de centro-direita em outros países da região e além. Isso reduz consideravelmente a margem de articulação diplomática do governo Lula e dificulta a construção de consensos regionais sob a liderança de Brasília.

Outro fator de tensão decorre do crescente envolvimento norte-americano com o problema da criminalidade organizada transnacional. A decisão de autoridades dos Estados Unidos de ampliar instrumentos jurídicos para o enfrentamento de organizações criminosas estrangeiras possui implicações que ultrapassam a dimensão da segurança pública.

A decisão norte-americana de classificar unilateralmente o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas amplia significativamente sua capacidade de impor sanções financeiras, monitorar fluxos internacionais de recursos e cooperar com organismos de segurança pública.

Sob essa perspectiva, o intervencionismo de Trump persegue objetivos simultaneamente diretos e indiretos.

O objetivo direto, é claro, consiste em ampliar os instrumentos de combate a organizações criminosas consideradas ameaças à segurança regional. Trata-se de uma agenda coerente com a tradição norte-americana de ingerência extraterritorial de mecanismos de combate ao narcotráfico, ao crime organizado e ao terrorismo.

Já o objetivo indireto pode ser igualmente vital. Ao transformar a segurança pública em tema central da agenda bilateral, Washington acaba influenciando o debate político doméstico brasileiro. E isso ocorre porque a violência urbana, o crime organizado e a sensação de insegurança aparecem sistematicamente entre as principais preocupações dos brasileiros nas pesquisas de opinião pública.

Assim, qualquer ação internacional que produza resultados concretos ou mesmo expectativas de resultados nessa área tende a gerar dividendos para os grupos que conseguirem associar sua imagem ao discurso do combate ao crime — algo que, em tese, favorece a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Com ou sem Lula, com ou sem Bolsonaro: governos passam, mas os interesses nacionais permanecem. O Brasil não pode aceitar passivamente qualquer forma de ingerência externa. Estar “à sombra do império”, na feliz expressão da professora Cristina Pecequilo, jamais deve significar submissão ao império.

O país necessita reconstruir urgentemente um projeto nacional baseado no desenvolvimento econômico, na capacidade tecnológica, no enfrentamento da violência e no fortalecimento do regime democrático. Sem poder econômico, capacidade militar, coesão política e legitimidade institucional, a soberania transforma-se em mera retórica eleitoreira.

Donald Rumsfeld, ex-secretário de Defesa e, até a sua morte, um falcão em tempo integral, observava sempre que “fraqueza é provocativa”. A frase sintetiza uma das mais antigas lições da política internacional: a vulnerabilidade não reduz necessariamente os conflitos; frequentemente os estimula. Estados percebidos como fracos tendem a atrair pressões, interferências e até subordinação por parte de atores dominantes do sistema internacional.

Em um mundo marcado pela intensificação da competição estratégica entre grandes potências, a melhor defesa do Brasil não está na retórica evasiva e improvisada, mas na construção paciente de poder nacional diante de um mundo cada dia mais conflitivo.

 

*é cientista político

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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