Manaus parada: A mobilidade urbana como retrato do descompromisso

Em: 23 de junho de 2025

Em qualquer cidade que almeje crescimento sustentável e qualidade de vida, a mobilidade urbana é tratada como prioridade de Estado. Um sistema de transporte público eficiente, acessível e seguro não é apenas um componente logístico, mas uma base fundamental da dignidade urbana. Onde o deslocamento é precário, não há inclusão, tampouco desenvolvimento possível. A cidade trava, os cidadãos perdem tempo, oportunidades e qualidade de vida. A verdade é que o transporte coletivo não é uma opção entre outras, é o caminho natural para a organização do espaço urbano e para a democratização do acesso à cidade.

Infelizmente, o cenário de Manaus caminha na direção oposta. A capital do Amazonas enfrenta um esgotamento progressivo em sua estrutura de transporte coletivo, reflexo direto de uma gestão municipal que, ao longo dos anos, falhou em tratar o tema com a seriedade e o planejamento que ele exige. Essa inércia tem custos altos, tanto sociais quanto econômicos, e se reflete diariamente na rotina de quem depende do sistema público para se locomover. O que se observa, com pesar, é um modelo ultrapassado, concentrado no improviso e desconectado das reais necessidades da população. Em vez de se antecipar aos desafios, a prefeitura opera de forma reativa, muitas vezes insensível à urgência que a situação impõe.

De acordo com a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Manaus figura entre as capitais com os piores índices de satisfação do usuário: apenas 25% dos passageiros consideram o serviço “razoável” ou “bom”. A média nacional, já preocupante, é de 40%. Essa estatística, por si só, evidencia que o problema está longe de ser pontual. Trata-se de uma falência sistêmica que compromete o direito de ir e vir da população e que reforça o distanciamento entre o discurso da gestão municipal e a realidade vivida nas ruas. Terminais degradados, veículos com frota envelhecida, atrasos crônicos, superlotação e falta de integração entre as linhas compõem o cotidiano de milhares de cidadãos que, por absoluta falta de alternativa, seguem reféns de um sistema que não responde mais às demandas urbanas da capital.

Os terminais de integração, equipamentos essenciais para o funcionamento de um sistema articulado, encontram-se visivelmente deteriorados. O Terminal 3, por exemplo, tem sido alvo constante de queixas dos usuários, que apontam a falta de manutenção, infraestrutura insuficiente e total ausência de acessibilidade. A idade média da frota, hoje acima dos oito anos, ultrapassa o limite técnico recomendado pelo Plano Nacional de Mobilidade Urbana, que é de cinco anos. Isso se traduz em mais quebras, mais atrasos e mais insegurança para o cidadão. Em 2023, a Prefeitura de Manaus contou com um orçamento superior a 500 milhões de reais destinados à infraestrutura urbana. Parte significativa desses recursos deveria ser aplicada na renovação da frota, modernização de terminais e requalificação das rotas. No entanto, os resultados visíveis são mínimos, e a transparência sobre os investimentos efetivos permanece limitada. Essa disparidade entre orçamento e entrega exige explicações objetivas e detalhadas por parte do Executivo municipal.

A ausência de integração entre modais é outro ponto crítico. Mesmo sendo uma cidade cercada por rios e com potencial estratégico para o transporte hidroviário, Manaus ainda não avançou na construção de um sistema interligado, multimodal e funcional. Trata-se de uma oportunidade histórica desperdiçada por sucessivas administrações, que preferiram atuar no varejo dos problemas imediatos, em vez de estruturar soluções duradouras. O transporte fluvial, que poderia servir como alternativa eficiente especialmente nas zonas mais afastadas, segue subutilizado e sem protagonismo. Essa lacuna evidencia não apenas falta de investimento, mas também ausência de visão estratégica sobre a cidade e suas possibilidades.

Estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) aponta que mais de 60% dos usuários do transporte público nas capitais da região Norte pertencem às faixas de menor renda. Em Manaus, essa realidade é ainda mais evidente. A mobilidade urbana, portanto, não é um tema periférico: é um eixo de justiça social. O acesso ao trabalho, à educação, à saúde e à própria cidade depende de um sistema funcional. Quando esse sistema falha, são justamente os mais vulneráveis que pagam o preço. Ignorar essa equação é aprofundar desigualdades e tornar a cidade menos acessível, menos eficiente e menos humana.

Como deputado federal, sigo acompanhando com atenção a aplicação dos recursos públicos e os impactos reais das decisões administrativas sobre a vida da população. O Parlamento tem, entre suas atribuições, o dever de fiscalizar, apontar omissões e exigir responsabilidade institucional, sobretudo quando se trata de temas que afetam diretamente milhões de cidadãos. A omissão diante do colapso da mobilidade urbana não pode mais ser tratada como um detalhe de gestão. É um problema estruturante, que exige planejamento, execução técnica e vontade política. Não se trata de apontar culpados por conveniência, mas de cobrar ações de quem tem a responsabilidade direta sobre a condução da cidade.

O desafio da mobilidade urbana exige mais do que boas intenções e discursos eventuais. Exige comprometimento com resultados, com transparência e com a construção de uma cidade mais eficiente e mais justa. Manaus precisa recuperar o tempo perdido com políticas públicas que enfrentem os gargalos estruturais do transporte coletivo, que valorizem o transporte como bem público e que respeitem o cidadão como sujeito de direitos. O futuro de uma capital da Amazônia não pode continuar sendo comprometido por escolhas administrativas que ignoram o essencial. Mobilidade urbana não é luxo, é estrutura. E quem governa precisa compreender isso com urgência.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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