O espírito da esperança contra a sociedade do medo (1)

Em: 5 de fevereiro de 2026

Em um mundo repleto de desafios, crises e incertezas, o filósofo Byung-Chul Han nos convida a refletir sobre a condição humana e a busca pela esperança em meio ao caos. Desta feita, Han explora os temas de desesperança e da esperança íntima,  revelando como a adversidade pode gerar oprtunidades para novos começos. Ao analisar cenários apocalípticos e crises contemporâneas, o autor oferece uma visão encorajadora e inspiradora do potencial humano para transformar adversidade em oportunidade. Trata-se de um livro onde desafia o pensamento convencional e nos convida a repensar o nosso papel no mundo em que vivemos.

A abordagem na verdade é um apelo contra o clima de medo, já que por um longo tempo temos sido confrontados permanentemente com cenários apocalípticos: pandemia, guerra mundial e catástrofe climática . O apocalipse ou o fim da civilização são evocados. O medo e os ressentimentos alimentam o egoismo e o ódio – com a consequência de que em nossa sociedade a solidariedade, a bondade e a empatia estão sob erosão e, em última análise, a própria democracia está em perigo.

Nesta obra, Byung-Chul Han desenvolve, contra o clima de medo, uma fisosofia de esperança, válida para além da crise atual.

O livro é ilustrado com imagens de Anselm Kiefer, um dos artistas alemães mais conhecidos e bem sucedidos após a Segunda Guerra Mundial.

O autor nasceu na Coreia, mas fixou-se na Alemanha, onde etudou Filosofia na Universidade de Munique. Em 1994, doutorou-se em Friburgo com uma tese sobre Martin Heidegger. É professor de Filosofia e Estudos Culturais  na  Universidade de Berlim e autor de inúmeros livros sobre a sociedade atual publicados pela Editora Vozes.

Preludia dizendo que o medo circula como um espectro. Somos permanentemente confrontados com cenários apocalípticos: pandemia, guerra mundial e catástrofe climática. O fim do mundo ou o colapso da civilização humana são invocados com premência cada vez maior. O chamado “Doomsday Clock” indicava em 2023, que faltavam 90 segundos para a meia-noite. O ponteiro nunca esteve tão perto da meia-noite.

Apocalipses estão em alta. São até mesmo oferecidos como mercadorias: Apocalypses sell (os apocalipses  vendem). Não apenas na realidade, mas também na iteratura e no cinema, o clima de fim do mundo se espalha. Em sua narrativa O silêncio, Don De Lillo fala de um apagão total.  Na literatura, tal como no mundo real, as temperaturas e o nível do mar sobem. A climate-fiction se estabeleceu com novo gênero literário. Por exemplo, Um amigo da terra, de T.C.Boyle, narra mudanças climáticas com proporções apocalípticas.

Estamos numa multclise. Olhamos amedrontados para um futuro sombrio e falta esperança em toda a parte. Saltamos de uma crise para outra, de uma catástrofe para outra, de um problema para outro. Entre pura resolução de problemas e gerenciamento de crises, a vida definha: torna-se sobrevivência. A ofegante sociedade da sobrevivência assemelha-se a um doente que tenta de todas as maneiras repelir a morte iminente. No entanto, apenas a esperança nos permite recuperar a vida que é mais que sobrevivência. Ela estende o horizonte do significativo, que revitaliza a vida e lhe dá asas. A esperança nos presenteia com o futuro.

O clima generalizado de medo sufoca qualquer broto de esperança. Com o medo se instala uma atmosfera depressiva. O medo e o ressentimento lançam as pessoas nos braços dos populistas de direita, que atiçam o ódio. Solidariedade, amistosidade e empatia se deterioram. O medo e o ressentimento crescente causam o embrutecimento da sociedade como um todo. Isso, em última instância, ameaça a democracia. Com razão, o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, observou em seu discurso de despedida: “A democracia pode ruir quando cedemos ao medo”. Medo e democracia são incompatíveis  A democracia prospera apenas numa atmosfera de reconciliação e diálogo. Aquele que dogmatiza suas opiniões e não escuta os outros não é cidadão.

O medo é um popular meio de dominação, pois torna as pessoas obedientes e suscetíveis à chantagem. Em clima de medo as pessoas não se sentem à vontade para expressar livremente suas opiniões, precisamente por temor de repressão. É o chamdo “hate speech” (discurso de ódio) ou uma “shit storm” (campanha difamatória; literalmente “tempestade de merda”) obviamente incitam o medo e impedem a livre expressão de opinião. Hoje em dia, temos até mesmo medo de pensar. A coragem de pensar parece ter sumido. Especialmente o pensar no sentido empático nos abre o acesso para o completamente diferente. No clima de medo, o igual prolifera. O conformismo se alastra. O medo bloqueia o acesso ao outro. O outro escapa à lógica da eficiência e da produtividade como lógica do igual.

A liberdade não é possível onde reina  medo. O medo e a liberdade se excluem mutuamente. O medo pode transformar toda a sociedade numa prisão, sim numa quarentena.  A esperança, por outro lado, ergue indicadores e sinalizadores dos caminhos. Somente na esperança estamos a caminho. Ela nos dá sentido e orientação. O medo, por outro lado, torna impossível a marcha.

Atualmente, não temos somente medo de virus e das guerras. A “ansiedade climática” também preocupa as pessoas. Os ativistas climáticos têm, como eles mesmos admitem, “medo do futuro” Isso lhes rouba o futuro. A “ansiedade climática” é indiscutivelmente justificada. Não se pode negá-la e é preocupante o clima de medo disseminado. O problema não é o medo da pandemia, mas apandemia do medo. Ações impulsionadas pelo medo não são ações aptas para o futuro. As ações precisam de um horizonte de sentido, precisam ser narráveis. A esperança é eloquente. Ela narra.  O medo, por outro lado, é incapaz de falar, incapaz de narrar.

Angst (medo, angústia  – alto alemão médio: angest , alto-alemão antigo: angust) significa originalmente estreiteza, aperto. O medo sufoca qualquer amplidão, qualquer perspectiva , estreitando e bloquando a visão. Quem sente medo se sente em aperto, O medo vem acompanhado da sensação de estar aprisionado e enclausurado. No medo, o  mundo nos parece uma prisão. Todas as portas que levam ao aberto estão fechadas. O medo obstrui o futuro, fechando-nos o acesso ao possivel, ao novo.

A esperança é também, linguisticamente, a figura oposta ao medo. O dicionário etimológico de Friedrich Kluge diz a respeito da hoffen (esperar ): “Ao inclinar-se para a frente, tenta-se ver mais longe, ver com mais precisão”. Portanto, esperança significa “olhar para longe, olhar para o futuro”. Ela abre o olhar para o que está por vir. O verbo “Verhoffen” ainda possui o significado original de hoffen. Na linguagem dos caçadores “verhoffen” significa “manter-se parado para escutar, ouvir, farejar”. Por isso se diz: “Der Rehbock verhofft” (“O corço está à espreita”) Quem tem esperança também fareja, ou seja, tenta ganhar direção, orientação.

A esperança mais íntima desperta em meio à mais profunda desesperança. Quanto mais profunda a desesperança, mais intensa a esperança. Não é por acaso que a Elpis (esperança) é representada como filha de Nyx, a deusa da noite. Nyx tem como irmãos: Tartaros, Erebos (escuridão) e Eros. Elpis e Eros são aparentados. A esperança é uma figura dialética. A negatividade da desesperança é constitutiva da esperança. Até mesmo Paulo destaca a negatividade inerente à esperança: “Gloriamo-nos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança;  e a perseverança, experiência; e a experiência esperança. Ora, a esperança não engana.”

O desespero está para a esperança como o vale para a montanha. A negatividade do desespero está inscrita na esperança. Nietzsche explica essa relação dialétia  entre esperança e desesperança da seguinte forma:  A  esperança é o arco-iris sobre o riacho íngreme da vida , engolida cem vezes pela espúma e sempre se recompondo de novo, e saltando por cima dele com bela e delicada audácia, onde ele brame de modo mais furioso e perigoso.

Não poderia haver descrição mais acertada da esperança. Ela tem uma bela e delicada audácia. Quem espera age com audácia e não se deixa abalar pelo carater escarpado e duro da vida. No entanto, é inerente à esperança algo contemplativo . Ela se inclina para a frente e escuta. Sua receptividade a torna delicada, conferindo-lhe beleza e graciosidade.   

O pensamento esperançoso não é otimista. Ao contrário da esperança, ao otimismo falta qualquer negatividade. Ele não conhece dúvidas nem desespero. A pura positividade é sua essência. Ele está convencido de que tudo ficará bem. Para o otimista, o tempo é fechado, então, o futuro como um espaço aberto de possibilidades é desconhecido para ele. Nada acontece. Nada o surpreende. O futuro lhe parece disponível. No entanto, é inerente ao autêntico futuro sua indisponibilidade. O otimista nunca olha para a distância indisponível. Ele não conta com o inesperado ou com o incalculável. (Continua)

 

É advogado (OAB/AM 436) Cursou Direito,  Contabilidade, Jornalismo, Oratória, Ex-fumc.BCO.Brasil. 92948544

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]
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