Dando sequência ao tema levado a efeito nesta mesma estação de artigos semanais, temos que ao contrário do otimismo, que não carece de nada, a esperança representa um movimento de busca. É uma tentativa de ganhar apoio e direção. Nisso, ela também avança para o desconhecido, o não trilhado, o aberto, o que ainda-não-é, ultrapassando o sido, indo além do já existente. Ela se drige ao não nascido e põe-se a camiho do novo, do completamente diferente, do nunca sido.
O otimismo não precisa ser primeiramente conquistado. Ela já está aí, de maneira tão evidente e inquestionável quanto a estatura ou as características inalteráveis de uma pessoa: “Assim, o otimista está acorrentado à sua alegria, assim como o condenado das galés ao remo–uma perspectiva bastante desoladora”. O otimista não precisa fornecer motivos para sua atitude. A esperança, por outro lado, não tem uma presença autoevidente. Ela desperta. Com frequência, precisa ser chamada, invocada. Ao contrário do otimista, que carece de determinação, a esperança ativa é caracterizada por um comprometimento. O otimista não atua por conta própria. Toda ação sempre envolve um risco. O otimista, contudo, não arrisca nada.
O pesimismo não difere fundamentalmente do otimismo. É sua contraparte espelhada. Para o pessimista, o tempo também é fechado. Ele está escerrado no “tempo como tempo prisão”. O pessimista rejeita tudo categoricamente, sem aspirar à renovação, sem permitir-se mundos possíveis. Ele é tão obstinado quanto o otimista, e tanto o otimista como o pessimista são cegos para possibilidades. Eles não conhecem nenhum evento que daria uma virada surpreendente ao curso das coisas. Eles não tem a fantasia do novo, a paixão pelo jamais sido. Quem tem esperança aposta em possibilidades que apontam além do “pessimismo existente”. A esperança nos capacita a escapar do tempo fechado como prisão.
A esperança também precisa ser diferenciada do “pensamento positivo” e da “psicologia positiva”. Em rejeição à psicologia do sofrimento, a psicologia positiva tenta se ocupar exlusivamente com o bem-estar e a felicidade. Pensamentos negativos devem ser imediatamente substituidos por pensamentos positivos; portanto, o objetivo da psicologia positiva é aumentar a felicidade. Aspectos negativos da vida são completamente desconsiderados e o mundo é representado como um grande armazém, onde obtemos tudo o que pedimos.
Segundo a psicologia positiva, cada um é o único responsável por sua prória felicidade. O culto à positividade faz com que pessoas que estejam passando por um mau momento se culpem, em vez de responsabilizar a sociedade por seu sofrimento. Reprime-se o fato de que o sofrimento sempre é socialmente mediado. A psicologia positiva psicologiza e privativa o sofrimento, deixando intocado o contexto de ofuscação social que causa o sofrimento.
O culto à positividade isola as pessoas , torna-as esgoistas e desmantela a empatia, porque as pessoas não se interessam mais pelo sofrimento dos outros.Cada um precupado só consigo, com sua própria felicidade, com seu próprio bem-estar. O culto à positividade no regime neoliberal dessolidariza a sociedade. Ao contrário do pensamento positivo, a esperança não vira as costas para as negatividades da vida. Ela permanece ciente delas. Além disso, ela não isola as pessoas, mas as conecta e reconcilia. O sujeito da esperança é um nós.
Na epístola dos romanos, está escrito:”A esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê , como o esperará?”. A modalidade temporal da esperança é o ainda-não. A esperança abre-se para o vindouro, para o ainda-não. Ela é um estado de espírito, uma afinação que nos eleva além do já dado, além do já existente. Segundo Gabriel Marcel, ela está entretecida na “trama de uma experiência em vias devir’, de uma aventura ainda não concluída”. Ter esperança significa “dar crédito à realidade”, crer nela de modo a torná-la prenhe de futuro. Isso nos torna credores do futuro. Por outro lado, o medo nos tira toda a crença, retira da realidade todo o crédito e, assim, impede o futuro.
Com Derrida, podemos distinguir entre duas formas de futuro, a saber futur e aveni. O futur diz respeito a coisas que acontecerão mais tarde, amanhã, no próximo ano etc. O futuro como futur é previsível, planejável e calculavel. Portanto, pode ser gerido. Por outro lado, o futuro como avenir refere-se a eventos que ocorrem de modo completamente inesperado. Ele escapa a qualquer cálculo e planejamento, abrindo um espaço de possibilidade indisponível. Anuncia a chegada do outro, que não é previsível. A indisponibilidade o caracteriza.
Experiências como felicidade profunda ou amor apaixonado têm seu polo negativo. Esse polo forma o solo onde eles enraizam e florescem. Sem profundidade, não há altura. Até mesmo o amor é paixão. Por isso Simone Weil eleva o sofrimento à condição de possibilidade do amor: ” Somente em meio ao sofrimento eu senti a presença de um amor como aquele ser e ter que se lê no sorriso de um rosto amado” Sem negatividade, não há intensidade possível.
Ao like universalmente difundido, ao qual a experiência hoje se atrofiou, falta a ao consumo. A esperança também é uma intensidade. Ela representa uma íntima oração da alma, uma paixão que desperta diante da negatividade do desespero.
A esperança como paixão não é passiva . Pelo contrário, ela tem seu próprio carater resoluto e se assemelha à valente toupeira da história, que escava confiantemente intermináveis túneis pela escuridão. Nas Preleções sobre a história da filosofia, Hagel compara o espírito a essa toupeira de sete léguas: Apenas o espírito é progresso. Com frequência, ele parece ter se esquecido, se perdido; mas internamente… ele está… avançando em seu trabalho — como Hamlet diz sobre o espírito de seu pai, “Bom trabalho, valente toupeira” — até que, fortalecido dentro de si mesmo, ele rompe a crosta terrestre que o separava de seu sol, seu conceito, fazendo-a ruir. Nesses tempos, quando ele (o mundo até então) desmorona, um edifício sem alma e apodrecido, ele calçava as botas de sete léguas e agora se mostra modelado em nova juventude.
O espírito da esperança também significa progresso . Ele avança trabalhando no meio da escuridão. Sem escuridão não há luz.
O medo onipresente de hoje não decorre realmente de uma catástrofe permanente. Somos afligidos sobretudo por medos difusos, que são estruturalmente condicionados e, portanto, não podem ser atribuidos a eventos concretos. O regime neoliberal é um regime do medo. Ele isola o ser humano ao torná-lo empresário de si mesmo. A competição total e a crescente pressão por desepenho erodem a comunidade. O isolamento narcisista gera solidão e medo. Até mesmo nosso relacionamento conosco mesmos está cada vez mais marcado por medos: medo de falhar, medo de não atender às nossas próprias espectativas, medo de não acompanhar o ritmo ou medo de ficar para trás. É justamente esse medo ubíquo que aumenta a produtividade.
Ser livre signifca estar livre de restrições. No entanto, no regime neoliberal , a própria liberdade gera coerções. Essas coerções não vem de fora , mas de dentro. A pressão por desempenho e otimização são coerções da liberdade. Liberdade e coerção se fundem. Nós nos submetemos voluntariamente â obrigação de sermos criativos , competitivos e autênticos.
Justamente a criatividade, invocada com tanta frequência, impede que nasça algo radicalmente diferente , algo inauditamente novo. Ela está associada a uma nova forma de produção. A sociedade do desempenho, na qual a criatividade é promovida, sucede como sociedade de serviço, a sociedade disciplinar nascida na era industrial. A criatividade se estabelece como um dispositivo neoliberal, ao qual, como a todo dispositivo, é inerente um caráter coercitivo. Ela serve apenas para aumentar a produtividade. O novo que esse dispositivo de criatividade vê como válido não é o completamente outro. Paradoxalmente, ele perpetua o igual. Portanto, não produz uma forma de vida diferente que vá além da produção e do consumo. O novo dentro da sociedade neoliberal de desempenho é, em última análise, uma forma de consumo.
A ênfase do radicalmente novo, que caracteriza a modernidade clássica, é estranha ao dispositivo de criatividade pós-moderno. A modernidade tábula rasa. Benjamin menciona uma série e artistas e escritores modernos que são entusiastas do ‘começar do início”. Artistas e escritores que se despendem resolutamente da burguesia empoeirada ´”para se voltar para o contemporâneo nu, que grita como um recém-nascido deitado nas fraldas sujas desta época “.
O dispositivo de criatividade pós-moderno não está a caminho de um novo nascimento. Ele carece de pathos do novo, da paixão pelo novo, e apenas produz variações do igual. A autocriação e a aurtorrealização criativa também assumem um carater coercitivo. Nós nos otimizamos, nos exploramos até a exaustão na ilusão de nos realizarmos. Essas restrições internas aumentam o medo e, em última análise, nos tornam depressivos. A autocriação é uma forma de autoexploração que serve para aumentar a produtividade.(Continua).
É advogado de empresas (OAB/AM 436). Cursou Direito, Contabilidade, Jornalismo, Articulista, Ex-bancário Bco.Brasil,Lecionou História.







