Por fim ora completamos o tema que se projetou em vários artigos semanais, a saber. A comunicação digital intensifica o isolamento do ser humano. As redes sociais paradoxalmente desmantelam o aspecro social. Elas levam, em última instância, à erosão da coesão social.
Sucede, estamos bem conectados em rede, mas não estamos realmente vinculados. O relacionamento é substituido pelo contato. Não alteridade há nenhum toque. Vivemos, portanto, numa sociedade sem toque. Ao contrário do toque, o contato não cria proximidade. O relacionamento com o outro definha radicalmente quando o outro, que deveria ser um “você”, é rebaixado para um “isso”, para um objetos que apenas satisfaz necessidades pessoais ou confirma o ego. O outro, no qual se vê refletido, perde sua alteridade. A crescente narcisização da sociedade leva à falta de laços e de toques e intensifica o medo.
Nesse sentido, esperança é um antítipo, até mesmo uma disposição de ânimo contrária do medo, pois ela não isola, mas une e comunitariza. Assim escreve Gabriel Marcel: “Eu espero em ti por nós’: esta é talvez a expressão mais adequada e abrangente do ato que o verbo ‘esperar’ pode reproduzir de modo obscuro e velado”. Gabriel Marcel observa ainda: “A esperança mos parece por assim dizer, magnetizada pelo amor ou talvez, mais precisamente, por um conjunto de imagens que evocam e iradiam esse amor”. O medo e o amor excluem um ao outro. Na esperança, por outro lado, o amor está incluído. A esperança não isola. Ela reconcilia, une e alia. O medo não se coaduna com a confiança, nem com a comunidade, nem com a proximidade, nem com o toque. Ele só provoca alienação, solidão, isolamento, perda, impotência e desconfiança.
Em O princípio esperança, Bloch afirma que a esperança é “ensinável” como a virtude. Precisamos apenas querer “aprendê-la”. O prefácio do livro começa com as palavras:
Uma vez, alguém partiu para longe para aprender o que era medo. Na época que acabou de passar, isso foi mais fácil e mais próximo; essa arte foi dominada de forma aterradora. Mas agora (…) um sentimento mais adequado para nós se faz necessário. Trata-se de aprender a esperança.”
A propósito, a esperança não é ensinável ou aprendível tal como a virtude. Onde domina o clima de medo, a esperança não desperta, pois o medo suprime a esperança. Portanto, é necessária uma política de esperança que crie uma atmosfera de esperança contra o clima de medo, contra o regime do medo.
Como o medo isola as pessoas, é impossível ter medo cojuntamente. O medo não cria comunidade, não traz um nós. Nele, cada um está isolado em si só. A esperança, por outro lado, contém uma dimensão do nós. Esperar significa ao mesmo tempo “espalhar esperança”, levar adiante a chama, “nutrir a chama ao redor”.
A esperança é o fermento da revolução, o fermento do novo: Incipit vita nova. Não há revolução do medo. Aqueles que têm medo se submetem ao domínio. Somente na esperança de um mundo diferente e melhor se forma um potencial revolucionário. Se hoje não é possível uma revolução, é porque não sabemos ter esperança, porque permanecemos no medo, porque a vida definha em sobrevivência.
O distópico filme de ficção científica Children of men reflete a sociedade de hoje, que se tornou depressiva e completamente desesperançada. Aqui, a humanidade caminha em direção ao seu fim, está ameaçada de ruina. Inexplicavelmente, há mais de dezoito anos nenhuma mulher fica grávida. Na cena inicial do filme , o mais jovem humano na Terra, o adolescente de dezoito anos “Baby Diego” é morto. O mundo é abalado por violência, terror, caos, xenofobia e catástrofes ambientais. Se a boa-nova dos oratórios de Natal anuncia “Uma criança nasceu para nós”, a esterilidade da humanidade representa a completa falta de esperança. No entanto, como por milagre, uma mulher fica grávida. Ela deve ser levada para um local secreto, onde cientistas estão pesquisando a continuidade da humanidade. Na cena final, essa grávida, Kee, interpretada justamente por Clare-Hope Ashitey, é salva em mar agitado por um navio chamado Amanhã.
Assim, relata o filme que a humanidade cai numa depressão coletiva. O nascimento, que seria um sinônimo de futuro e que teria de trazer o novo à luz, não está acontecendo mais. O vir-ao-mundo como nascimento está completamente anulado. O mundo se assemelha a um unferno do igual. A depressão priva a humanidade de toda a esperança. O futuro depressivo, exaurido é uma repetição permanente. Nada se abre. Nada novo entra no mundo. O futuro vivificante, inspirador, o avenir está completamente ausente. Nenhuma partida, nenhum amanhã, nenhum incipit vita nova e nenhuma eclosão que nos leve para fora do igual, do velho, parecem possíveis. A depressão é diametralmente oposta à esperança como paixão pelo novo. A esperança é o salto, o elã, o ímpeto que nos liberta da depressão, do Portanto, quanto mais nos esforçamos por viver sob a condução da razão, mais nos esforçamos para depender menos da esperança, nos livrar do medo, dominar o destino tanto quanto possível e dirigir nossas ações de acordo com o conselho seguro da razão. Esta é a realidade!
É advogado de empresas (OAB/AM 436) e articulista. Ex-bancário BEA e Bco.do Brasil, no Rio. Cursou Direito, Contabilidade, Oratória, Jornalismo, Lecionou História. Contacto [email protected]. Com.Br.9294-8544.















