O Oba-Oba das COPs: e o dinheiro para a Amazônia?

Em: 11 de novembro de 2025

As COPs negociam o futuro do planeta, mas transformaram-se em um espetáculo de promessas bilionárias feitas pelos políticos. Quando o evento termina e as luzes se apagam, permanece a pergunta: onde está e quem realmente recebeu cada centavo dos fundos prometidos à Amazônia?

As COPs são o principal palco global das negociações climáticas, reunindo anualmente quase todas as nações para pactuar metas de redução do aquecimento global, fortalecer a adaptação e definir os rumos do financiamento climático mundial. Nos últimos cinco anos, as COPs registraram avanços, mas a ciência alerta: tais progressos ainda estão longe de alinhar o planeta à meta de 1,5 °C. Entre os marcos, destacam-se o Acordo de Glasgow (COP26, 2021), que consolidou o Paris Rulebook e iniciou a eliminação gradual de subsídios ineficientes a combustíveis fósseis; a COP28 (2023), que selou o consenso sobre o início do fim da era fóssil e a transição energética “justa e equitativa”; e a COP29 (2024), que definiu um novo objetivo financeiro global, US$ 1,3 trilhão anuais até 2035, sendo US$ 300 bi/ano vindo de países desenvolvidos para apoiar mitigação e adaptação nos países do Sul Global (https://tinyurl.com/msa7k3ht; https://tinyurl.com/a9xjd7jf; https://tinyurl.com/yc5x5ksm).

Apesar dos esforços da ONU e da comunidade científica, há três desafios que reduzem o impacto efetivo das COPs.
Desafio 1) A não redução dos GEE: As emissões globais de gases de efeito estufa continuaram a crescer, atingindo um pico em 2024, com um aumento de 10% desde 2015. Nesse mesmo ano, o planeta registrou, pela primeira vez, uma média anual acima de 1,5 °C (https://tinyurl.com/bddw33pc). Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperatura média global da superfície cerca de 1,55 °C acima da média do período pré-industrial (1850–1900) (https://tinyurl.com/3xt5kzez).

Desafio 2) Lentidão na implantação dos compromissos

O ritmo de implementação está aquém do necessário. Seria fundamental reduzir as emissões globais em cerca de 7% até 2030, ao passo que, atualmente, há um aumento de 1,5% ao ano.

Por exemplo, a maioria (95%) dos países não cumpriu o prazo da ONU para apresentar novas metas climáticas para 2035, o que corresponde a 83% das emissões globais e a quase 80% da economia mundial. Grandes emissores como a Austrália, o Canadá e a Rússia adiaram ou enfraqueceram suas metas, e poucos países mantiveram planos compatíveis com o limite de 1,5 °C do Acordo de Paris (https://tinyurl.com/33mdz48b).

Para corroborar, recomenda-se a leitura do artigo publicado por Nurunnabi (2025), que analisou as COPs 1 a 29 e destacou a desconexão entre os compromissos assumidos nas conferências e sua implementação nacional, evidenciada pelo aumento contínuo dos subsídios aos combustíveis fósseis, que chegaram a US$ 1,1 trilhão, o que contraria as metas do Acordo de Paris (https://tinyurl.com/zyeaxjrn).

3) Baixa governança e transparência

Se estudarmos os anúncios feitos nas COPs desde 2020, chegamos aos seguintes números: Na COP26 (2021, Glasgow), o Pacto de Glasgow reafirmou a meta de US$ 100 bilhões anuais do Acordo de Paris e pediu para dobrar o financiamento para ajudar países em desenvolvimento na adaptação e mitigação dos impactos climáticos.

Na COP27 (2022, Sharm El-Sheikh), foi criado o Fundo de Perdas e Danos para apoiar países vulneráveis, com foco em adaptação, resiliência e compensação por impactos climáticos, embora sem definição de um valor global consolidado. Na COP28 (2023, Dubai), os países anunciaram um acordo global para uma transição rápida e justa dos combustíveis fósseis, com o objetivo de triplicar a capacidade de energia renovável e ampliar o financiamento para adaptação e emergências climáticas, novamente, sem valores claramente quantificados. Além disso, o governo brasileiro apresentou de forma superficial o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), ou Fundo Florestas Tropicais para Sempre, voltado ao financiamento da conservação das florestas tropicais.

Na COP29 (2024, Baku), foi apresentado o Novo Objetivo Quantificado Coletivo de Financiamento Climático (NCQG), com o objetivo de triplicar o financiamento aos países em desenvolvimento, de US$ 100 bi para US$ 300 bi anuais até 2035. Os recursos são destinados à proteção contra desastres climáticos, ao crescimento da energia limpa e à resiliência climática.

Já na COP30 (2025, em Belém), espera-se a adoção do “Roteiro de Baku a Belém”, com a meta de mobilizar US$ 1,3 trilhão anuais até 2035. Paralelamente, o Governo do Brasil, em parceria com dez outros países, pretende lançar oficialmente o Tropical Forest Forever Facility (TFFF) (tfff.earth), um fundo global de investimentos que busca captar US$ 125 bilhões para garantir aos países com florestas tropicais uma renda de longo prazo em troca da proteção permanente dessas florestas. Se bem-sucedida, a iniciativa poderá preservar mais de 1 bilhão de hectares de florestas em mais de 70 países até 2030.

Basicamente, o TFFF é um modelo que opera na lógica do mercado (blended finance), com US$ 25 bi em capital de governos e de filantropos, como “patrocinadores”, e cerca de US$ 100 bi em investimentos privados, o que, em tese, o torna um dos maiores fundos do tipo focado na conservação.

Assim, percebe-se que os eventos exibem vultosos anúncios de recursos, sobretudo por parte de políticos em busca de visibilidade e de votos. Contudo, permanece a dúvida essencial: esses valores chegam, de fato, em sua maioria, a quem mais necessita? E, sobretudo, qual é o grau de transparência e eficiência na governança desses recursos? Para a London School of Economics and Political Science (2025; https://tinyurl.com/5n7rdxjy) e para os autores Bozhenko et al. (2023; https://tinyurl.com/4z5a5dnw), Bergsvik et al. (2024; https://tinyurl.com/4sv29276), há uma forte preocupação em garantir a integralidade da aplicação dos recursos destinados ao financiamento das ações climáticas. Apesar dos bilhões anunciados para fundos climáticos nas COPs, a falta de controles rigorosos, auditorias independentes e de métodos eficazes de transparência abre espaço para corrupção e para a má gestão.

Aqui vale a pena ressaltar que, para nossa região, o Brasil conta, desde 2008, com o Fundo Amazônia, constantemente mencionado nas COPS, que financia projetos e ações contra o desmatamento e o manejo sustentável na Amazônia Legal brasileira. Em síntese, este fundo passou por fases de captação crescente, estagnação entre 2019 e 2022, durante o desastroso Governo Bolsonaro, e uma retomada a partir de 2023, com valores anuais recentemente superiores a R$ 1 bilhão aprovados para projetos ambientais na Amazônia Legal.

Segundo o Fundo Amazônia (https://tinyurl.com/3bwvucdb), foram captados R$ 4,823 bi, dos quais R$ 2,097 bilhões já foram desembolsados, o que resultou no apoio a 139 projetos. Embora o site apresente indicadores e a lista de projetos apoiados, sua governança peca gravemente pela ausência de transparência essencial: não há prestação de contas detalhada de cada projeto, nem mecanismos efetivos de participação social. A população não tem acesso a informações básicas sobre quem recebeu cada recurso, o valor destinado a cada pagamento (salários, bolsas, consultorias, equipamentos, construção etc.), se os valores estão dentro do mercado, quais instrumentos de controle social permitem acompanhar detalhadamente o valor de cada recurso, bem como quantas pessoas foram efetivamente emancipadas? Essa opacidade é particularmente preocupante em um país historicamente marcado pela corrupção, pela má gestão, pelo apadrinhamento e favorecimento político.

Finalmente, as COPs são essenciais para definir metas globais de mitigação e adaptação climática, mas sua eficácia ainda é limitada pela distância entre as promessas e os resultados. O “oba-oba” midiático, feito pelos políticos, com anúncios bilionários, contrasta com a escassez de transparência, de governança e de prestação de contas na aplicação dos recursos. Enquanto persistirem lacunas na fiscalização e na efetiva participação social, o grosso do dinheiro prometido para salvar a Amazônia continuará perdido entre discursos, interesses e burocracias, longe das comunidades que mais precisam dele.

Jonas Gomes

Prof. Dr. Jonas Gomes da Silva - Professor Associado do Dep. de Engenharia de Produção com Pós Doutorado iniciado no ano de 2020 em Inovação pela Escola de Negócios da Universidade de Manchester. E-mail: [email protected].
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