Desde que eu sou eu e que o mundo é o mundo, religião e política são dois elementos que se entrecruzam, que se interpenetram como fatores explicativos da estrutura da realidade.
A utopia liberal-iluminista que advoga pela separação rigorosa entre religião e política, ou pela completa laicização da esfera pública, funciona de modo limitado (quando funciona). A experiência histórica demonstra que a modernização política não eliminou a religião da vida pública. Pelo contrário. Em diferentes sociedades, crenças religiosas continuam oferecendo valores comuns, identidades, símbolos e critérios de julgamento por meio dos quais os indivíduos interpretam o mundo.
A questão, portanto, não é saber se religião e política devem ou não se misturar. A questão relevante é compreender como, em que circunstâncias e com quais consequências essa interpenetração ocorre.
No Brasil, essa complementaridade entre o imanente e o espiritual é evidente. A religião constitui uma dimensão importante nas identidades sociais, regionais e políticas. Não é possível compreender adequadamente determinados comportamentos eleitorais brasileiros ignorando as clivagens religiosas que atravessam sociedade em sua totalidade.
Dados recentes do Datafolha ajudam a entender bem essa realidade. Entre os católicos, 43% se identificam com a direita ou a centro-direita, enquanto 39% se situam na esquerda ou centro-esquerda. Entre os evangélicos, a distância é maior: 52% se posicionam à direita ou centro-direita, contra 30% à esquerda ou centro-esquerda.
Quando a questão deixa o terreno da autodefinição ideológica e entra no campo dos costumes, da família e da religião, a diferença se torna ainda mais pronunciada. Entre os evangélicos, 61% se posicionam à direita ou centro-direita nesse eixo, contra apenas 18% à esquerda. Entre os católicos, 52% estão à direita e 27% à esquerda.
Não se trata, evidentemente, de afirmar a superioridade moral ou política de um grupo religioso sobre outro. Tampouco seria correto transformar diferenças estatísticas em determinismos eleitorais. O que os números indicam é algo mais simples e, se pensarmos bem, politicamente relevante: a religião constitui uma dimensão significativa das clivagens que organizam as preferências políticas brasileiras. E talvez seja justamente por isso que símbolos religiosos tenham adquirido tamanha importância na atual disputa eleitoral.
A polêmica recente envolvendo o uso eleitoral da imagem de Nossa Senhora Aparecida parece ser apenas mais um episódio de uma transformação mais profunda: a incorporação crescente de símbolos, personagens e linguagens religiosas à gramática da competição político-eleitoral.
É nesse ponto que a política começa a adquirir características propriamente religiosas. A campanha eleitoral transforma-se em liturgia. Os candidatos convertem-se em representantes de comunidades morais. Os discursos passam a falar não apenas de governo, economia ou políticas públicas, mas de valores, costumes, família, religião, liberdade, democracia e soberania nacional.
E, quando a política assume essa gramática moralizada, o adversário deixa progressivamente de ser apenas um adversário. Ele passa a representar uma ameaça, um inimigo comum. É nesse momento que aparece o voto escatológico.
A escatologia, no sentido religioso, diz respeito às coisas últimas: o fim dos tempos, o destino final da humanidade, o julgamento, a salvação e a condenação. Transportada para a política, a estrutura escatológica aparece quando uma eleição é apresentada como uma espécie de última batalha, um momento decisivo depois do qual nada será como antes e nada mais será possível. Vale dizer: agora, é tudo ou nada.
A eleição deixa de ser simplesmente uma escolha entre diferentes projetos de governo em um ambiente de incerteza e passa a ser apresentada como uma escolha entre salvação e ruína.
Entre setores bolsonaristas, consolidou-se uma narrativa segundo a qual a permanência do lulismo no poder representaria uma ameaça aos valores tradicionais, à família, à propriedade, à religião e à própria identidade nacional. O voto passa a assumir, portanto, uma dimensão defensiva: votar não significa apenas escolher um governo, mas impedir que determinado projeto político “destrua o Brasil”.
Entre setores petistas, especialmente depois da experiência do governo Bolsonaro e dos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, consolidou-se uma narrativa distinta: o bolsonarismo passou a ser interpretado como uma ameaça à democracia, às instituições republicanas e à própria continuidade da ordem constitucional. Assim, a voto também adquire uma dimensão defensiva: não se trata apenas de escolher entre candidatos, mas de preservar a democracia contra aquilo que é percebido como uma ameaça à sua existência.
O adversário político deixa de ser simplesmente alguém que possui outra concepção sobre economia, política social, costumes, relações exteriores ou organização do Estado. Ele passa a ser construído como ameaça existencial, tal como o mal absoluto que se deve combater com todas as forças.
Todos têm suas próprias razões. E você é o responsável pela tragédia que virá.
*é cientista político







