- Amarás a tua terra manauara. A amarás de todo o coração, sem meios termos e sem retóricas, como se ama um filho, os pais ou um amigo querido. Ama-a de tal forma que Manaus seja para ti, sem hipérbole entusiástica, a favorita de todos os crepúsculos, de todo o verde, de todas as flores e dos bem-te-vis de todas as manhãs. Amarás ainda teu chão, nas adversidades, nas lutas ardentes e nas misérias humanas, mesmo, sendo a última coluna de um templo arruinado, em meio a planície solitária. Aposta nesse amor-terra e se esquecido, recupera-o para ti e para teus filhos. Traz aos ouvidos da sociedade contemporânea – vivendo entre consciências de pedra e cultivando um refinado egoísmo-aquela canção de berço feita de crença no amanhã, cuja nota mais vibrante é o culto a um tempo que não dissimula ante ao impacto da ternura, mais humano e menos robotizado, tendo como ideal harmonia o predomínio do sentimento e de suas santas provações e santas alegrias. Traz para o terceiro milênio a doce estrofe da solidariedade, como antídoto certo para a solidão das multidões glaciais que o individualismo gerou. Essa poderosa qualidade que a todos prodigiosamente condena à condição de gente feliz, porque se tem no íntimo um coração cálido que não se move em ritmo matemático, mas pulsa e vibra e crê…
- Não usarás em vão as três grandes palavras: MANAUS, SORRISO E GRAÇA. Não as utilizes mecanicamente, como simples símbolos, doces metáforas, conceito poético ou como formosa ilusão para seguir vivendo. Não as uses em proveito próprio, demagogicamente ou com fins eleitoreiros senão para o bem comum, pois nelas estão encerradas toda a substância de cidadania e urbanidade transmitidas pelos ancestrais. Paga a teu solo tributo diário de pensamentos e obras, jamais de omissões. Não desapontes a geração futura, essa que hoje engatinha pois busca ávida em teus atos aquela fortaleza, o poder de exemplo, e a paixão pelo absoluto que se fizeram proverbiais na história do povo manauara. Acompanha Manaus. Conhece suas chagas e seus gozos. Acredita em seu potencial redentor pois às grandes conversões não se chega com sonhos mas com a loucura evangélica de mudanças radicais nas lutas do dia a dia. Somente assim, Manaus estará acima de todo o nome e ao nome de Manaus, Sorriso e Graça todo joelho se dobrará. Tem pelas, três grandes palavras, aquele respeito dedicado aos santos e aos heróis e considera como máxima blasfêmia quem, em grande atrevimento mutilar ou destruir seu acervo arquitetônico e cultural, poluir suas águas, ceifar suas árvores e condenar a cafarnaum seu centro histórico, pois a consciência existe e dita as leis de responsabilidade e honradez. E, se ainda assim, a indiferença a tudo demolir, não tenhas vergonha de chorar. Não um choro passivo feito de posturas imobilistas, mas produtivo, próprio dos que buscam soluções. Um choro como aquele de Cristo sobre a tumba de Lázaro que o impulsionou a dizer logo depois: Levanta-te e anda!
- Tem como preceito guardar a memória de teu chão, conservando a arquitetura domiciliar, as fachadas e interiores de casarões, o caráter especial de cidade-risonha também oferecidos pelas praças e alamedas e nunca permitir essa vazia liturgia do domínio dos cifrões em detrimento de toda a Graça. Tudo isso dessacraliza o ontem, avilta o presente e condena o amanhã a um atmosfera sem vida, movimento e luz arrancando a visão aquarelística de um lugar com personalidade marcante. Não desanimes diante das lutas e sombras! Tem sempre em mente que as raízes das árvores também lutam sob a terra em total escuridão e só deste modo, os pássaros um dia cantarão em seus ramos.
- Honrarás agora e sempre a terra que te concebeu. Fica a seu lado, seja nos dias claros ou cinzas e jamais abandones o ninho como fazem as aves somente porque chega o inverno Sê presença contínua a seu lado, feito lâmpada que arde em santuário. Quando a ferirem, defende-a com todas as fibras do coração. Quando agredirem seus interesses te sentirás também agredido. Quando denegrirem, sua imagem, exalta-a. Quando te exigir sacrifícios não baixes a guarda, ainda que sem garantias de sucesso. Dignifica-a com o suor de teu trabalho por mais simples que seja, pois Manaus só crescerá em idade, sabedoria e graça se houver esforço conjunto e união de seus cento e quarenta e quatro mil eleitos.
- Não matarás por força dos vícios dos tempos modernos, tua conhecida hospitalidade e espírito de partilha, nem deixarás de colocar cadeiras à porta e tampouco afugentarás vôos e trinados de teus quintais e jardins. Não ferirás de morte o especial caráter manauense de vizinhança amistosa. E nada mais nada menos a impressão digital da alma popular – una indivisível – a diferenciar-te e individualizar-te frente a outros povos. Não olharás relógios ao contemplares as belas paisagens e não te ocuparás tanto com os deuses nascentes, porque seduzindo-te pelo exagerado consumismo, pelo aparato da ciência e tecnologia, pelo luxo das vitrines – essas falsas constelações de neon – serias alvo de uma odiosa mutação na escala de valores, e perderias o hábito, o singelo hábito de levantar a cabeça para ver estrelas…
- Carrega no peito tanto os Ternos Cristos de Rafael, como também os Cristos de Santa Cólera, iguais àqueles que Miguel Ângelo pintou um dia na capela Sixtina. E evita desastres sociais, estéticos, ambientais e paisagísticos ao inaugurar um novo estilo de vida onde a liberdade de questionar, reivindicar, de cobrar promessas, segundo conceitos democráticos é perfeito exercício de cidadania.
- Bendiz a existência daquele político idealista mesmo que seja um somente, imune àquele abuso de poder de que falava Montesquieu “como grande tentação permanente dos poderosos”. Abomina todo aquele que lhe sendo destinado viver no alto das tribunas se esquece da própria estatura. Amaldiçoa com voto contrário aquele político traidor da confiança do povo usando o poder público para ter trinta denários e dizer: Enfim, sou rei!
- Pune a mentira de tal forma que todo aquele que minta saiba que pode pagar caro por seguir esse código corsário a não conhecer berço nem crença. Exige rigorosamente em tudo o selo da honestidade e civismo e sem receio algum faz surgirem as verdades sob o sol do meio dia.
- Em nome da terra baré, usa desse espírito humanitário para com as injustiças sociais a transformar um cidadão manauara como tu, em subcidadão, vivendo em lazaretos e nas muitas esquinas. Não aceita para a fome, a dor e a miséria, medidas paliativas e cloroformizantes que só lembram aquelas mulheres de Jesus além oferecendo vinho e incenso aos sentenciados à morte por seus poderes anestésicos.
- Busca paraísos para o teu chão. Ele não nasceu para o limbo. É chegada a hora de perder medo ao medo e de buscar dentro de ti, as asas de ouro, o escudo de prata, a espada flamejante e as sandálias vermelhas dos arcanjos. Símbolos que traduzidos em inteligência, vontade, palavra e coragem, fazem de ti manauara, um homem invencível e indica, definitivamente, a Manaus o caminho, o desejado caminho da imortalidade.
PARA TODOS NÓS (Políticos ou não)
Se hoje formos capazes de cumprir três ou quatro destes mandamentos, se amanhã cumprimos alguns mais e depois de amanhã, seguirmos outros dias ou três acabaremos por resgatar o sorriso de Manaus (AM) na verdade Manaus basta a si mesma sua exuberância infinita faz com que expanda um certo ar de divindade. Ela e ventre fecundo força vital, chão ardente Manaus basta a sí mesma! Mas prefere seguir contando com seus filhos, com suas limitadas doações, com seus quase nadas para trona-se risonha.
A autora do livro Decálogo de Manaus de 1994 hoje seria como “Teresa D’Avila” disse… SÓ DEUS BASTA!
CARMEN NOVOA SILVA, é Teóloga e membro da Academia Amazonense de Letras e da Academia Marial do Santuário Nacional de Aparecida-SP














