Quantas divisões tem o Papa?

Em: 24 de abril de 2026

A arquiconhecida provocação atribuída a Josef Stálin, materialista histórico e líder supremo da União Soviética — “quantas divisões tem o Papa?” —, permanece ainda hoje como uma das sentenças mais contundentes na abordagem realista na política internacional. Dirigida ao diplomata francês Pierre Laval, a pergunta resume uma visão de mundo na qual o poder se mede única e exclusivamente por capacidades materiais relativas: o predomínio do exército, da indústria, do território e da coerção sobre qualquer coisa que se deseje metafísica.

No entanto, a persistência histórica da Igreja — e, em particular, da Santa Sé — sugere que essa pergunta, embora provocativa e vinda de quem veio, é profundamente incompleta. A ausência de divisões militares não significou irrelevância política da Santa Igreja na história. Pelo contrário, a Igreja Católica consolidou-se por séculos como um dos mais duradouros atores da história mundial, operando em uma lógica distinta da dos Estados modernos ou os do passado. E é bom que se diga que as tantas divisões e armas nucleares não foram capazes de amparar a União Soviética diante de seu trágico fim.

O conflito entre o poder espiritual e o poder temporal remonta à tradição cristã do mundo antigo e encontra sua elaboração clássica na obra de Santo Agostinho, especialmente em A Cidade de Deus. Nela, o teólogo católico estabelece a distinção entre duas ordens: Civitas Dei orientada pelo amor a Deus, à transcendência e à salvação; Civitas Diaboli orientada pelo amor próprio, poder, orgulho e dominação.

Essa dualidade, em si, não implica uma separação determinista, mas, isto sim, uma convivência tensa e inevitável a qual o cristão precisa viver. O mundo político — o mundo do poderoso César — é necessário, porém imperfeito. Já o mundo de Nosso Senhor Jesus Cristo aponta para uma ordem superior, que transcende a lógica da força, do poder e da guerra; é verdadeiramente a Jerusalém Celeste.

Essa tensão dual estruturou o desenvolvimento institucional do Ocidente medieval, manifestando-se além mais na doutrina dos “dois poderes” (ou duas espadas): o poder espiritual da Igreja e o poder temporal dos governantes.

Do ponto de vista das relações internacionais, a Santa Sé ocupa uma posição especial. Não é um Estado no sentido clássico (apesar de sua base territorial no Vaticano), mas tampouco é apenas uma organização religiosa strito senso. Trata-se de um ator dotado de três fundamentos: autoridade espiritual absoluta; preparo diplomático milenar; e, claro, sofisticada rede transnacional moldada em torno de fiéis, dioceses e ordens religiosas.

Enquanto Estados operam sob a lógica da soberania e da anarquia do sistema internacional, a soberania eclesiástica atua em uma lógica normativa, espiritual e civilizacional suprema. Sua influência não depende de coerção direta do poder político tradicional, mas de legitimidade, persuasão e tradição apostólica canalizada para o Povo de Deus.

Isso explica por que a pergunta de Stálin falha em capturar a natureza do poder eclesiástico: ela reduz o poder a sua dimensão material, ignorando suas manifestações simbólicas, espirituais e culturais que moldam preferências, identidades e comportamentos políticos ao longo dos séculos.

No mundo contemporâneo da política internacional, essa crise persiste, mas assume novas formas. Declarações de líderes políticos — como as críticas de Donald Trump ao pontificado de Leão XIV — revelam não apenas divergências ideológicas, mas também conflitividade sobre autoridade espiritual e legitimidade global.

Por sua vez, o Papa atua frequentemente como voz crítica em temas como desigualdade, migração, meio ambiente e guerra, intervindo no debate internacional sem recorrer à força material que não possui — sim, o Papa não possui divisões. De algum modo, a Igreja desafia paradigmas tradicionais das Relações Internacionais, aproximando-se mais de abordagens humanísticas, que enfatizam ideias, valores e identidades em detrimento da pura ação militar.

Na política internacional, onde nem tudo se resolve pela força, essa forma de poder continua a operar — silenciosa, difusa, mas profundamente eficaz. Trump, metaforicamente o César, o Rei do Mundo, será superado; a Igreja, fundada na Rocha, seguirá seu caminho de evangelização e pregação da verdade em Cristo. Non praevalebunt.

 

*é cientista político

Breno Rodrigo

É cientista político e professor de política internacional do diplô MANAUS. E-mail: [email protected]
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