Resumo e análise da obra “Mundo mundo vasto mundo mundo”, do autor Carlos Gomes, mais informação biobibliográfica

Em: 11 de dezembro de 2025

O autor Carlos Gomes nasceu em Manaus no dua 15 de julho de 1936. Formou-se em Direito, foi funcionário do Banco do Brasil, professor na escola Estadual Solon de Lucena e, posteriormente, na Universidade do Amazonas. Passou a  trabalhar na Justiça Federal, Seção Judiciária do Amazonas.

Embora destacado em todos os ramos de suas atividades, o autor firmou-se como professor em quem a humanidade, a excelência das informações e o senso de humor conviveram pacificamente com posições políticas firmes e claras.

Na Universidade do Amazonas, ministrou cursos na área de sintaxe com absoluta proficiência. Entretanto, o escritor que sempre foi acabava transformando suas aulas em verdadeiras lições de estilo e da arte de escrever.

Ligou-se ao Clube da Madrugada e à União Brasileira de Escritores – UBE, que publicaria a primeira edição de Mundo mundo vasto mundo. Embora discreta, sua participação política sempre foi firme. Participando de grupos progressistas, evitou o dogmatismo, mas jamais deixou de cultivar os ideais de justiça e liberdade humana.

CONTEXTO. O Golpe Militar de 64 – Mundo mundo vasto mundo foi publicado três anos depois do  Golpe Militar de 1964. E efetivamente, embora Carlos Gomes estivesse com apenas 28 anos então, o panorama de seu livro e das idéias e concepções de mundo que o sustentam se vinculam aos conflitos da sociedade brasileira daquele período em que o mundo se dividia entre as duas possibilidades de construção social: o capitalismo e o socialismo.

Na América do Sul os golpes militares, batizados erroneamente de revoluções, se espraiaram por todo o continente, quase sem exceção. Tratava-se da reação capitalista, capitaneada pelos Estados Unidos, à posibilidade de revoltas e revoluções socialistas como havia acontecido em Cuba. Eram tempos de oposições rígidas: ou se era da esquerda ou de direita. A esquerda era revolucionária, socialista, progressista e defendia a justiça social. A direita era autoritária, conservadora, capitalista e não hesitava em recorrer à violência, à tortura, à extradição e à execução de opositores do regime.

Mundo mundo vasto mundo é o livro da literatura amazonense que melhor flagra a crispação daquele periodo, tanto em contos alegóricos, pesadelos denunciadores, como se verá, quanto na criação de personagens adeptos da ditadura — o caso exemplar é Conegundes, protagonista da última narrativa.

Politicamente o quadro de oposição entre ditadura de direita e revolução de esquerda é o background da obra. Socialmente, ela busca e consegue desenhar o provincianismo de uma cidade entre as tradições folclóricas (os contos sobre bois-bumbás exigem destaque), quase a desaparecerem , e a monotonia de repartições públicas, com suas mesquinharias liliputianas.

Por ter sido escrito e publicado naquela quadra tão difícil da vida brasileira e amazonense, Mundo mundo vasto mundo não reserva nenhum espaço para a esperança. Seu niilismo dificilmente encontrará paralelo em nossas letras.

A OBRA. Na pimeira edição, Mundo mundo vasto mundo compunh-se de 12 contos. Agora o temos acrescido de duas narrativas (“Pio ofício ou a estranha velha que enforcava cachorros” e a “Homenagem”) absolutamente coerentes com o projeto inicial. Isso porque o primeiro se inscreve naqueles pesadelos opressivos e o segundo nos exercícios de descrição  da indignidade rasteira de seres minúsculos, autocomplacentes e infantis diante do poder.

TEMÁTICA. Pode-se dividir o livro em cinco grandes grupos:

  1. a) os folclóricos: “Bumbá” e “Rebolo”
  2. b) os pesadelos: “Preto” e “Branco”, “Presságios”, “Reconstrução” , “Pio ofício ou a estranha velha que enforcava cachorros”,
  3. c) os sociais “Vó Hermengarda”, “Rosa de carne”,
  4. d) os que tratam da incomunicabilidade entre os seres: “Assunto perdido”, “Madalena” e “Flor de cacto” e
  5. e) os que descrevem a vida provinciana: “Antes da nomenclatura”, “Figa, pé de pato, bangalô três vezes”…e “A homenagem”.

Está claro que, por sobre a diversidade temática, se encontra um narrador irônico que acaba conferindo unidade completa a esses relatos. O estilo moderno, com frases ágeis e curtas, o vocabulário que, em oposição ao precioso, se mostra preciso, sem seixar de ser rico, o fraseado a um tempo clássico e contemporâneo, tudo enfim contribui para a unidade desse marco na contística amazonense.

A LINGUAGEM – Não fora renomado professor de língua portuguesa, Carlos Gomes tem estilo próprio. O que parece condição essencial ao escritor, em nossas letras, quase chega à exceção. Já se lhes referiram as marcas machadianas: frases tensas, tom irônico, a observação desmistificadora, o jogo com os diversos sentidos das palavras… Mas o estilo de nosso autor, forçosamente contemporâneo, se baseia em vocabulário distinto do machadiano, em feaseado mais ágil e na pópria montagem das cenas muito mais coerentes, sem as interrupções e volteios do chamado Bruxo do Cosme Velho.

De vez em qando, tanto o narrador quanto os diversos personagens demonstram preocupações com a linguagem. Em “Vó Hermengarda”:

Filipe, meu nome: amigo do cavalo.  Entretanto, não me lembro de jamais ter tido afeição por equinos, não pertenço a nenhuma sociedade hípica, não sei seqer cavalgar… enfim, me perdôo por nunca ter respeitado esse compromisso etimológico.

O HUMOR – Carlos Gomes é um humorista, no que de mais elevado significa esse termo. Humorista como o foram Jonathan Swift e Bernard Shaw, para ficarmos apenas com dois irlandeses de alto conceito. Embora revele algo de britânico, o humor de Carlos Gomes parece provir do dito espirituoso, do fraseado vernacular de Machado de Assis, ele também um britânico cultivador do sense of humor – eis sua influência mor.

OS CONTOS – As duas narrativas que tratam diretamente do folclore e, mais especificamente, do boi-bumbá abrem o livro. Observe-se que “Pio oficio ou a estranha velha que enforcava cachorros” expõe seguidas e precisas referências à ditadura militar. Assim, o pesadelo do personagem se torna a maneira mais apropriada de descever o pesadelo político que se vivia naquele momento. Quando observa a imagem de São Sebastião crivado de flechas, exclama o personagem:

Os homens não são mais caçados com flechas agora são apenas cassados. Não se morre mais de hemorragia interna, morre-se de fome. Eia, gente acudam o santo. Estamos em outra época. Os inocentes já não são amarrados a troncos, os tempos são outros, mais civilizados, os inocentes sentam-se agora em banco de réu de tribunais fardados.

Assim, o pesadelo do personagem exibe suas raizes políticas. de injustiça social e de luta por ideais se resume rapidamente numa angústia confusa e aterradora.

PRETO E BRANCO -Pesadelo. Chega a acordar e ver a  realidade aparentemente diferente de seu sonho. Narrado como um filme em preto e branco, sem cores, portanto sem alegria, sem vida, o conto mistura as duas daces da existência ( real e imaginária), enlaçadas pela náusea diante do cotidiano ao mesmo tempo monótono e opressor. Embora em quase todos desse livro haja evidente teor de crítica social, dois exemplos se destacam por trazerem para o centro da sena a problemática social. São eles “Vó Hermengarda” e “Rosa de Carne”. O primeiro trata de um paciente que se vê explorado pelo sistema de saúde. Num consultório dantesco, ele recorda os tratamentos populares que Vó Hermengarda distribuia com bondade e amor a todos. Contrastam-se essa medicina popular, fraterna e o comércio médico dos tempos contemporâneos, desumanizado e irracional.

O grupo dos contos que descrevem as pequenas misérias, as vaidades pueris, os vícios provincianos se constiui num bloco de grande valor sentimental. Neles, a veia cômica do escritor alarga-se em volumosa corrente. A simples anedota de ambientes burocráticos, como em “Antes da nomenclatura” converte-se no exame minucioso da presenção e da mentalidade de funcionário público. Em “Figa, pé de pato, bangalô três vezes…” o desenho rápido da evangélica no comércio bíblico se torna hilariante, convertendo-nos à náusea do narrador que se tentava livrar daqueles olhos religiosos que “estavam untados de uma espécie de vaselina mística”

O ponto alto, nesse campo, é o conto final. “A homenagem”. Na esteira do melhor Gogol, as caricaturas num instante se convertem em poderosos símbolos de nossa mesquinharia política, social e, fundamentalmente, humana. O personagem Conegundes e sua amantíssima inimiga, a enxundiosa esposa, estão definitivamente entre o que de melhor se criou nessa arte, aparentemente fácil, mas dificílima da caricatura expressiva.                                                                                                       —

É advogado (OAB/AM 436). Contato;[email protected]

Bosco Jackmonth

* É advogado de empresas (OAB/AM 436). Contato: [email protected]
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