Sequenciando o tema partimos para esta etapa, assim. Por exemplo, ao ler estas palavras, o gatilho da memória (primeiro fenômeno) será acionado automaticamente em milésimos de segundo, abrindo as janelas (segundo fenômeno) do seu córtex cerebral que contêm o significado delas, gerando uma interpretação involuntária. Você lê e interpreta as palavras querendo ou não, por isso não depende do “eu”, mas destes dois atores ou fenômenos inconscientes.
O processo de interpretaçãoé sofisdicadíssimo, sofre a influência de “como estou” (emoção: ansiedade, medo, raiva, alegria, motivação), de “quem sou” (personalidade: cultura, impulsividade, capacidade de pensar antes de reagir, de expor, e não impor, as ideias, análise crítica, autoestima), de “onde estou” (ambiente social: se estamos sós ou em família, amigos, grupo de trabalho), da carga genética, bem como da quantidade de janelas abertas num determinado momento.
O processo de interpretação é tão sofisticado que, se um pai não tiver maturidade para operá-lo, num momento pode condenar radicalmente um filho, e no outro, diante do mesmo erro, expressar flexibilidade. Somos microdistintos em cada instante, o que é normal. Todavia se formos macrodistintos , nosso processo de interpretação estará doente. Num momento, seremos amáveis, noutro agressivos; num, pacientes, noutros imtolerantes.
A itenção aqui não é discorrer sobre o gatilho da memória e as janelas nem sobre o processo de interpretação, mas sobre o terceiro fenômeno, aquele que produz grande parte dos pensamentos sem autorização do “eu”: o autofluxo.
O autofluxo atua inconscientemente. É um fenômeno incrível, deslumbrante e quase desconhecido na psicologia. Ele passeia diariamente por múltiplas áreas da grande ci
dade da memória, resgatando informações que serão utilizadas para pensar no passado, resgatar imagens, construir personagens, idealizar o futuro, preocupar-se com o presente, construir fantasias, gerar possibilidades, produzir inspirações, sonhos, imaginação.
Com frequência nos perguntamos: “Como pensei nisso? De onde surgiu essa ideia? Por que esse pensamento não me sai da cabeça?”Não culpe seu “eu”. A resposta é a atuação de um diretor auxiliar do “eu”: o fenômeno do autofluxo. Ele mantem um fluxo ininterrupto de pensamentos, como se fosse um diretor de cinema incansável. Nenhum filme é tão fascinante como o que rola em nossas mentes. Embora, como veremos, esse filme mental possa ser de terror e de estresse.
Há pessoas que todas as noites fazem um ritual ansioso, fecham várias vezes as portas e janelas da casa. Há aqueles que olham debaixo da cama para ver se há um ladrão. Outros estão ótimos de saude, mas andam sempre inventando uma doença que não possuem. O autofluxo se killer e não para de lê-la. Ele é muito importante para a saúde psíquica, mas pode ser responsável por doenças, sobretudo as obsessões e os rituais .
Consideremos são o mordomo e o braço direito do “Eu.”O autofluxo tem pelo menos dois grandes papéis ou funções. O primeiro é expandir os alicerces do processo de formação. As construções diárias que o autofluxo produz no palco da mente são registradas nos bastidores inconscientes pelo fenômeno RAM, que, como vimos, significa registro automático da memória. Assim cada dia, mes e ano o autofluxo vai preenchendo córtex cerebral com milhares de plataformas com centenas de milhares de janelas.
Essas plataformas alicerçam a formação da personalidade e, pouco a pouco estruturam o”eu”como o grande lider ou gestor da mente humana. O atofluxo se torna, assim, o mordomo que nutre a construção do “eu” na infância.
Sem a atuação do autofluxo, o que os pais e professores ensinam não teria grande eficiência. À medida que o “eu” se forma, ao longo dos anos, algo espetacular ocorre, ele deixa de ser critura e aos poucos se torna, na adolescência e na vida adulta, criador de si mesmo, autor da própria história. Pelo menos é o que deveria acontecer, mas nem sempre acontece porque o “eu”raramente aprende a pensar antes de reagir, fazer escolhas, proteger a psique, traçar metas, dialogar consigo.
O fenômeno do autofluxo é fundamental para criar a imensa base na memória, para romper a bolha de solidão da criança e estabelecer vínculos sociais. Sem essa base, podem-se produzir os mais diversos níveis de autismo.
O “eu” se for bem equipado e formado, seguro, observador, solidário, inventivo, será um bom diretor de teatro mental, um bom roteirista de seu script, mas se for mal treinado, será um mero coadjuvante ou espectador passivo das frustrações e conflitos. A maioria das pessoas pronuncia o pronome “eu” centenas de vezes por dia, diz qual é seu papel, quem o auxilia e o que pode escravizá-lo. Seu “eu” se torna servo dos medos, angústias, fantasias destruidoras, inseguranças. Há homens que dirgem nações e há gênios que são notáveis em sua inteligência, mas escravos em sua psique.
Quem não possui um “eu” sólido não terá uma identidade sólida, sua emoção será marcadamente insegura e instável. Se o vento sopra a favor, se são apoiados ou aplaudidos, se animam, são valentes. Se o vento sopra contra, se fracassam ou são vaiados, se perturbam, deixam de lutr pelo que amam, retrocedem com facilidade. Todavia, temos de entender que conquistar uma emoção estável, calma, serena é um desafio, inclusive para psiquiatras e psicólogos.
Paralelamente à construção da identidade, o “eu” começa a descobrir a identidade dos outros. Aqui mora um perigo; nesse estágio deveria entrar em cena o treinamento da mente humana para formar uma das mais importantes funções da inteligência: colocar-se no lugar dos outros. (Continua).
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É advogado (OAB/AM 436) Contato: [email protected].















