O contrário da economia de mercado é a sociedade tribal. As marcas da economia de mercado são a liberdade para transacionar e a existência de mecanismos que viabilizem transações entre pessoas estranhas, permitindo-lhes plena dedicação às respectivas competências especiais.
Dois vídeos de laureados por Nobel explicam bem isso. Um mais famoso é o do Milton Friedman onde, em referência a um lápis na mão, demonstra como a economia de mercado é um formidável mecanismo de cooperação. Pessoas que nem se conhecem de lugares remotos do mundo teriam contribuído para fazer aquele lápis. O de Schiller narra o nascimento do papel-moeda: Recibos emitidos pelos ourives se mostraram instrumentos de troca mais convenientes que as moedas de metal.
A guerra nas tarifas alfandegárias iniciada por Trump faz revisitar esses conceitos. Dá aparência que ele não gosta do livre comércio, ou este de fato não é tão benéfico assim. Diante das primeiras tarifas, daquele dia dos pitorescos cartões, previa-se que forte inflação acometeria os EUA. Mas isso não ocorreu. Talvez os fornecedores estejam sacrificando as margens para manter o cliente.
Há alguns dias houve nova leva, tendo o Brasil como surpreendente alvo preferencial. Alvo da maior alíquota e único com motivações declaradamente políticas, alheias à racionalidade econômica. Ainda assim precisamos estimar os impactos econômicos, pois devemos saber como afeta o pão nosso de cada dia.
Para o Amazonas há uma consequência de curto prazo aparentemente benéfica, pois os US$ 600 milhões que importamos dos EUA, principalmente insumos para as indústrias do setor termoplástico, devem se tornar ainda mais baratos que os adquiridos pelos concorrentes dos outros estados brasileiros, posto que provavelmente o Brasil retaliará os EUA aumentando o Imposto de Importação.
Mas não podemos comemorar porque os US$ 40 bilhões que o Brasil exporta anualmente aos EUA é algo que fará falta na composição da renda do brasileiro. Isso afetará, a médio prazo, a demanda pelos produtos do Polo Industrial de Manaus.
Espera-se que o governo brasileiro negocie. Temo que o viés político nos leve ao cenário do ditado “aos amigos é desnecessário explicar, aos inimigos é inútil”. No extremo, temos que nos preparar para um cenário de dificuldade nas transações globais. É o que faz lembrar de dois conceitos do Nassim Taleb: A antifragilidade e o localismo.
Localismo não significa retroceder à sociedade tribal e prescindir dos benefícios do comércio global. Significa organizar e usufruir ao máximo dos fatores locais de produção, e decidindo localmente. É otimizar as picadas por toda a floresta amazônica de modo a preservar o bioma maximizando a produção agroflorestal. É priorizar as estruturas logísticas mais próximas, como o Tabocal, Madeira e BR-319.
Imagine se conseguíssemos produzir localmente, com largo excedente, os itens da nossa cesta básica, e com itens amazônidas. Reduziríamos a inflação e o custo de capital, beneficiando os empreendimentos locais e financiadores locais.
Nossos produtos seriam tão competitivos que sobretaxa nenhuma conseguiria nos conter. Como não contiveram a China nos últimos vinte anos, que despeito ter sido alvo de tantas medidas antidumping deve chegar a 2030 com metade da capacidade manufatureira global.
No Brasil e no Amazonas podemos construir numa situação bem melhor que o contrafactual de nunca termos sido alvo da guerra comercial. Nessa hipótese seríamos mais que resilientes. Seríamos antifrágeis.















