Quando comecei a ministrar aulas de Política Internacional — e lá se vão quinze anos — o saber convencional, orientado pelos cânones liberal e neoconservador, considerava a Rússia uma nação rebaixada, militarmente inofensiva e fora da constelação global das grandes potências. A Rússia teria tido apenas um passado glorioso, mas hoje, no século 21, seria apenas um “cachorro morto”.
O otimismo hegemônico do “momento unipolar” dos Estados Unidos (Charles Krauthammer, Francis Fukuyama, e tutti quanti), líder inconteste da aliança atlântica, era tamanho que comumente abordávamos em sala de aula a ideia segundo a qual Moscou havia se tornado tão somente uma potência regional, incapaz de disputar seriamente qualquer hegemonia da ordem internacional.
A antessala da Guerra da Ucrânia redobrou a aposta ocidental ao calcular que a estratégia de contenção da Federação Russa — a combinação de sanções econômicas, isolamento diplomático e coordenação militar com a OTAN — sufocaria definitivamente o regime de Vladimir Putin.
Nada disso funcionou. A Rússia, hoje a nação mais sancionada do mundo, encontrou meios de resistir, reposicionar-se e até expandir sua influência, sobretudo na África e na América do Sul (Venezuela).
Desde a anexação da Crimeia, em 2014, o regime russo vinha desenhando uma estratégia de desenvolvimento econômico-político ancorada na indústria de tecnologia militar, ao mesmo tempo em que reconstruía instrumentos diplomáticos e financeiros de resistência aos embargos internacionais que viriam.
A orientação externa da Rússia inspira-se, de algum modo, em uma consagrada tradição diplomática europeia: a realpolitik. Otto von Bismarck, o Chanceler de Ferro, formulou em meados do século XIX um princípio de ação pragmática que combinava ofensivas militares e negociações diplomáticas. Nas pegadas de Frederico II da Prússia, que cunhou a máxima segundo a qual “a diplomacia sem armas é como música sem instrumentos”, a realpolitik foi um poderoso instrumento de afirmação da potência alemã. Assim, o modelo bismarckiano não apenas assegurou a unificação alemã como também projetou Berlim ao centro decisório do Concerto Europeu.
Putin parece retomar essa lógica, adaptando-a ao século XXI.
A questão central na política internacional é como definir “vitória” no sentido militar imediato e/ou no sentido político-estratégico de longo prazo. Antes mesmo da invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, Putin acumulou uma série de conflitos que, em maior ou menor medida, fortaleceram sua posição interna e reposicionaram a Rússia no quadro regional e internacional.
Vejamos, pois, os conflitos em uma sequência histórica:
Já em seus primeiros meses como primeiro-ministro e depois presidente interino, Putin lançou uma ofensiva contra separatistas e grupos islamistas na Segunda Guerra da Chechênia (1999-2009). Como resultados, as forças russas retomaram o controle da região, instauraram um governo alinhado a Moscou e consolidaram a autoridade federal na região. Essa vitória projetou Putin como líder forte e implacável dentro da Rússia, tornando-se a base de sua legitimação política.
Conflito de cinco dias contra a Geórgia, em 2008, em torno das regiões separatistas da Ossétia do Sul e da Abkházia. A Rússia derrotou rapidamente as forças georgianas, reconheceu a independência dos territórios separatistas e manteve tropas estacionadas ali por um bom tempo. Vitória militar inequívoca, ainda que acompanhada de custos diplomáticos e uma avalanche de condenações internacionais.
A anexação da Crimeia e os conflitos no Leste da Ucrânia, em 2014, foram a terceira ingerência da Rússia em seu entorno estratégico na Era Putin. Após a queda de Yanukovych, em Kiev, forças russas ocuparam e anexaram a Crimeia, além de apoiarem militarmente insurgências separatistas em Donetsk e Lugansk, na longa fronteira russo-ucraniana. Vitória estratégica de curto prazo, que ampliou a projeção de poder russo no Mar Negro, mas trouxe o pacote de sanções mais duro da história.
Entrada da Rússia na Guerra Civil Síria, em 2015, em apoio ao regime de Bashar al-Assad, foi um fator decisivo na sobrevivência do regime até o final do ano passado quando foi derrubado com o apoio de uma coalizão internacional liderada por EUA, Turquia e Israel.
A trajetória de Putin revela que o renascimento de uma grande potência não ocorre apenas pela expansão econômica, mas sobretudo pela combinação estratégica de coerção militar e diplomacia pragmática. A Rússia pós-soviética reinventada aposta em um caminho bismarckiano: poder armado como instrumento da diplomacia; a diplomacia como instrumento do poder armado.
Em vez de ser relegada ao papel de potência regional, como previa o otimismo liberal e neocon da unipolaridade norte-americana dos anos 1990, Moscou voltou a ser um ator indispensável nas negociações globais. Seja na Eurásia, no Oriente Médio, na África, na América Latina, ou ainda no debate sobre a ordem multilateral e multipolar, a Rússia de Putin demonstra que grandes potências podem renascer pela via do conflito internacional — e que, em política internacional, raramente os instrumentos da força podem ser substituídos apenas pela música da diplomacia.
*cientista político















