Amazonas longe da alternativa à ZFM

Em: 23 de maio de 2016
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Pensar a diversificação industrial, com o uso de recursos naturais (e outros segmentos) como nova matriz econômica e alternativa ao PIM (Polo Industrial de Manaus) e à tradicional indústria de transformação, é uma ideia há muito perseguida no Amazonas. O assunto sempre volta à tona e este ano, graças à recessão e aos constantes apelos dos produtores do setor primário e da urgência da comunidade internacional por sustentabilidade e novos valores da indústria, o tema foi recorrente nos noticiários e reuniões de negócios.
O ano da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) começou com o tema “nova indústria” sendo pauta principal nas reuniões do CAS (Conselho de Administração da Suframa) e Codam (Conselho Estadual de Desenvolvimento do Estado do Amazonas), além dos seminários “Nova Matriz Econômica” e “Jornadas do Desenvolvimento”, promovidas pelo governo do Estado e com Seplan-CTI (Secretaria de Planejamento, Ciência, Tecnologia e Inovação) na mediação dos debates.
O titular da pasta, Thomaz Nogueira aponta a importância destes segmentos. “São setores com uma contribuição expressiva no PIB (Produto Interno Bruto). Queremos elevar essa participação de 8% a 30% em médio prazo. Em longo prazo, a ideia é colocar essas novas matrizes em pé de igualdade com a indústria do Estado”, disse Nogueira.
As discussões entre técnicos, acadêmicos e representantes de empresas, identificaram como obstáculos para a diversificação para além do PIM, a falta de regularização fundiária, tecnologia insuficiente ou fora de nossa realidade e altos custos de insumos. Mas ao que tudo indica, a ‘nova indústria’ dessa vez sai. Mas segundo Nogueira, a diversificação da indústria não significa o abandono do modelo ZFM e da indústria de transformação. “A Diversificação proposta pela Nova Matriz Econômica com a utilização dos recursos naturais (piscicultura, fruticultura, fármacos, cosméticos, turismo e mineração) não é excludente da atual atividade econômica do Estado”, disse o secretário.
De acordo com Nogueira, não se trata da criação de um novo polo industrial. “O governo do Amazonas não busca, especificamente, a estruturação de um polo industrial baseado na Nova Matriz Econômica, mas distribuir espacialmente no território do Estado esse conjunto de atividades econômicas advindas do vetor Diversificação”, comenta.

Piscicultura como potência regional

Nas Jornadas de Desenvolvimento de abril, os primeiros passos para tornarem a piscicultura como potência regional, foram dados após a identificação dos gargalos do setor, conta o secretário executivo de Pesca e Aquicultura do sistema Sepror (Secretaria de Estado de Produção Rural), Geraldo Bernardino. “A ração animal representa 80% de custos da produção. Com novas políticas públicas iniciadas e certeza de vendas, é possível termos qualidade, quantidade e preço acessível resolvidos através de lei de mercado, facilitando a chegada destes insumos ao produtor”, comenta Bernardino.
A infraestrutura deficiente e falta de inovação também foram debatidas. “O setor é merecedor de apoio estrutural, que passa por energia elétrica, hidrovia e estradas que garantam a durabilidade e escoamento da produção. As inovações para o setor também devem ser pensadas em cadeia”, conclui Bernardino.

Uma cultura que dá poucos frutos

Outro setor muito lembrado, mas que também carece de maiores cuidados, a fruticultura sofre com a falta de crédito e de uma assistência técnica condizente com a realidade regional. A isso, unem-se problemas com regularização fundiária e questões bem parecidas com a tradicional indústria de transformação, como a fata de crédito e de segurança jurídica.
Um ponto a ser corrigido e que solucionaria a maioria dos problemas do setor, segundo o coordenador de fruticultura da Sepror (Secretaria de Estado de Produção Rural), Luiz Herval, é o da regularização fundiária. “Com a regularização se facilita o crédito para que o produtor possa investir em tecnologia. O crédito deve ser compatível com a tecnologia que se pede para sairmos da categoria de subsistência indo para uma produção industrial”, disse Herval.
Aspectos climáticos também são barreiras para o setor. Em épocas de seca, por exemplo, para uma produção comercialmente viável, o produtor precisa de créditos na ordem de R$ 40 mil/ha (hectare). “O que se consegue hoje, sem a regularização das terras, fica na média R$ 15 mil/ha. No Amazonas são 40 mil fruticultores para 35 mil hectares, ou 0.9 hectares por trabalhador. É preciso que haja terra para se produzir. Daí a importância da regularização”, conta o coordenador.

Arranjo Produtivo

De acordo com Thomaz Nogueira, os estudos ainda estão em fase inicial e se pensa em muito mais que uma nova indústria. “Não se trata apenas da Indústria, mas de Arranjo Produtivo amplo, que inclui a utilização de áreas já autorizadas para cultivo e desenvolvimento, de incorporação de área de manejo”, conclui o titular de planejamento, ciência e tecnologia do Estado.

Memória

Em sua obra “Comércio Exterior da Amazônia Brasileira” (Ed. Valer, 2000), o professor Samuel Benchimol (1923-2002), apontava o Amazonas como grande fornecedor mundial de commodities naturais e citava a falta de maiores estudos sobre o tema, o que fazia com que o Estado vendesse os insumos na sua forma mais bruta e comprasse de volta o produto final, já com alto valor agregado. O estudioso desde então sugeria uma maior articulação entre tecnologia e ciência para o desenvolvimento alternativo da região, usando como base o bionegócio.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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