Grandes varejistas com baixa expectativa para a Black Friday

Em: 12 de novembro de 2021
Black Friday

Apesar da maior circulação de pessoas e do fim aos limites às promoções impostos pelos decretos, em função da vacinação e das quedas das estatísticas da pandemia, os grupos empresariais atuantes em magazines e lojas de eletroeletrônicos de Manaus estão pouco otimistas para a Black Friday deste ano. Lojistas ouvidos pela reportagem do Jornal do Commercio apostam que as vendas não devem ir além de 6% acima da marca registrada em igual intervalo do ano passado, mas há quem aposte em queda no mesmo patamar. 

Os motivos apontados para o desânimo incluem os vilões de sempre, como a escalada dos preços, dos juros, do câmbio. De acordo com o IBGE, o IPCA de outubro (+1,25%) bateu novo recorde, sendo o maior para o mês desde 2002, elevando a inflação oficial acumulada em 12 meses a 10,67%. A Selic segue em 7,75% ao ano, mas analistas de mercado já precificam os juros básicos perto da casa dos dois dígitos (9,25%), ao final do ano. O dólar fechou em R$ 5,50 nesta quarta (10), o equivalente a uma alta de 5,97%, desde 1º de janeiro (R$ 5,19), conforme dados do BC (Banco Central).

O desemprego também é apontado como empecilho para o consumo e vendas. O IBGE informa que, em agosto, a taxa de desocupação em todo o país foi de 13,2%, menos do que no trimestre terminado em maio (14,6%) e igualmente inferior ao dado do oitavo mês de 2020 (14,4%). A população desocupada (13,7 milhões de pessoas) caiu 7,7% (menos 1,1 milhão de pessoas) na variação trimestral e ficou estável na comparação anual. A taxa de informalidade subiu para 41,1% e o rendimento médio real (R$ 2.489) caiu em ambas as comparações (-4,3% e -10,2%, respectivamente).

Vale notar que empresas de grande porte ouvidas pela reportagem do Jornal do Commercio relatam que não há previsões de novas contratações, nem mesmo até o Natal. A informação vai na direção contrária da captada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) – que calcula a abertura de 1.216 vagas temporárias no varejo do Amazonas. O total corresponde a um acréscimo de 58,75% sobre o patamar do mesmo período do ano passado (766 postos de trabalho), além de ser o melhor número desde 2012 (981).

O pessimismo vem ao encontro também das mais recentes pesquisas de confiança e desempenho de vendas do setor. O IBGE informa que o setor sofreu seu quarto tombo mensal consecutivo nas vendas de setembro (-0,6%) e um recuo anual de dois dígitos (-10%). A CNC, por outro lado, mostra uma queda de 2,5% no nível de confiança do empresário comercial de Manaus, após quatro meses seguidos de alta, graças à piora na percepção sobre a situação atual da economia e o nível dos estoques, com impactos nas intenções de contratar e de investir.

“Desconto mais difícil”

Segundo o sócio diretor da Foto Nascimento, Antonio Kizem Rodrigues, a expectativa do grupo – que já conta com 12 lojas, situadas em ruas e shoppings de Manaus – para a Black Friday é de crescer apenas 6%, neste ano, em função das dificuldades e incertezas impostas pelo atual momento da economia brasileira. Para fins de comparação, o grupo esperava obter índices de crescimento mais generosos para o Dia dos Pais (+7%) e para o Dia dos Namorados (+10%), em que peses as bases de comparação mais fracas.

As apostas do grupo para a Black Friday deste ano são os tradicionais celulares e smartphones, além de notebooks, smartwatchs, videogames e caixas de som portáteis. O empresário não quis adiantar detalhes sobre as promoções para o período e demonstrou desânimo, quando indagado sobre o impacto do câmbio, da inflação e dos juros nos investimentos para a data. 

“Infelizmente, os preços estão mais altos neste ano, e fazer o desconto está cada vez mais difícil”, lamentou. “Conseguimos crescer 8% nas vendas, até agora, no acumulado do ano. Isso com muito esforço, e lutando contra a alta dos custos e do câmbio, para não repassar os aumentos do dólar ao consumidor. Mas, já estamos no limite”, emendou.

Embora o período seja propício ao ingresso de funcionários temporários para o reforço de vendas, Antonio Kizem Rodrigues descarta a possibilidade de contratações, nem mesmo para o Natal. “A equipe está completa, tivemos por causa da loja nova, que iremos abrir neste mês, no Shopping Grande Circular, a contratação de mais dez pessoas. Estamos agora com um total de 220 colaboradores”, resumiu.

“Incentivos financeiros”

A previsão do Grupo Bemol é ter uma retração de cerca de 5% nas vendas para à Black Friday, em relação aos resultados de 2020. A superintendente comercial da empresa, Gizelly Dantas, ressalta que o aumento dos custos, que incluem juros, inflação e câmbio, já resultaram a redução das margens em torno de 3%, quando comparado a 2020. Mas, segundo a executiva a queda aguardada se deve mais a uma base de comparação cuja liquidez foi fortalecida pelos estímulos econômicos federais anticíclicos, a exemplo do auxilio emergencial – que, a essa altura, já havia encolhido dos R$ 600 iniciais para R$ 300.

“Está sendo considerada essa projeção porque, no ano passado, as pessoas investiram muito em produtos para casa, como moveis e eletrodomésticos, o que beneficiou nosso segmento. Apesar das restrições dos decretos a ações comerciais que pudessem promover aglomerações, tivemos muitas vendas online e as pessoas estavam com incentivos financeiros pagos pelo governo federal. E também havia uma demanda reprimida, o que nos gerou um crescimento muito grande”, explicou.

Apesar de o período ser propício à contratação de temporários, a superintendente comercial da Bemol diz que não há previsão para tanto, pois a empresa trabalha “na sazonalidade com apoio do backoffice”. Indagada sobre as promoções para a Black Friday, não quis entrar em maiores detalhes, mas salientou que as lojas terão mais de 700 diferentes SKU (itens do estoque) com preços promocionais, com “o melhor preço dos três últimos meses”. Os produtos com maior expectativa de venda são os moveis e itens de linha branca, em razão dos “bons investimentos” dos fornecedores. 

“Esses aportes acontecem justamente por conta da retração da demanda. No acumulado do ano quase todas as categorias estão com crescimento expressivo. Principalmente no primeiro semestre, porque 2020 foi muito afetado pela pandemia. Mas, nos dois últimos meses, as vendas tiveram uma retração. Como tinha planejamento de compras, esses fornecedores investiram mais na Black Friday para escoar estoque”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
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