Cipó-titica, o rei da mata

Em: 2 de dezembro de 2021
A floresta amazônica é pródiga para quem a conhece e respeita. Um exemplo de como a floresta em pé pode gerar dinheiro para quem sabe explorá-la

A floresta amazônica é pródiga para quem a conhece e respeita. Um exemplo de como a floresta em pé pode gerar dinheiro para quem sabe explorá-la racionalmente é o cipó-titica (Heteropsis flexuosa), endêmico da Amazônia. Suas fibras são utilizadas para tecer cestarias, objetos decorativos e mobílias artesanais. O estado do Amapá é o principal fornecedor dessa fibra para as indústrias do Brasil, mas o Amazonas também é rico deste cipó, conforme demonstra o livro ‘Olho da mata – manejo do cipó-titica e sementes nativas na FloNa do Purus’, que foi lançado essa semana.

O livro é resultado do projeto ‘Olho da mata’, surgido na década de 1990. O projeto ganhou impulso por ocasião da Eco-92 (II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável), para o qual seus integrantes foram convidados.

“O projeto tinha assento na Associação dos Artesãos de Rio Branco em parceria com o Iecam (Instituto da Cultura Amazônica), mas a organização social do grupo de artesãos da Comunidade Vila Céu do Mapiá/FloNa do Purus, só aconteceu em 1998 com a criação da Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza e do Idaris (Instituto de Desenvolvimento Ambiental Raimundo Irineu Serra)”, explicou Graça Mitoso, coordenadora geral do projeto.

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Artesãos

“A idealização do livro vem do período que trabalhei na Escola Estadual Cruzeiro do Céu, da comunidade da Vila Céu do Mapiá. Foram muitas vivências com artesãos e artesãs com suas belas artes e grandes desafios. E também pela inspiração com a participação, com meus alunos, em oficinas do ICMBio e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, para a elaboração do plano de manejo da FloNa do Purus”, completou.

O rei da mata

Mas, o que é o olho da mata? Para os artesãos do projeto, o ‘olho da mata’ são os olhos de todos os animais, árvores, seres humanos, vigilantes da floresta. O livro ‘Olho da mata’ é uma narrativa centrada na história pioneira do grupo de artesãos e artesãs da FloNa do Purus/Vila Céu do Mapiá, centrada na figura da mestre artesã, Arlete Maciel, fundadora e coordenadora geral do projeto ‘Olho da mata’.

“O cipó-titica tem destaque no nome do livro porque ele é o rei da mata. Serve para fazer casas, tinguijar (adormecer) os peixes, fazer paneiros, peneiras, vassouras, cestos, abajours, e vários outros utensílios. É uma arte ancestral mantida pelos povos tradicionais. Quanto às sementes nativas, hoje a Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, já tem inventariadas mais de 35 espécies de sementes encontradas na Vila Céu do Mapiá/FloNa do Purus, que tem uso na produção do artesanato. Dentre elas as mais utilizadas são a uxirana-cedro, taperibá, cocão, cumaru, jaci, jarina, tucumã, inajá, tucum, açaí, mumbaca e mulugu”, listou.

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Arte ancestral

De acordo com Graça, o objetivo do projeto é dar visibilidade e reconhecimento a um grupo de artesãos que maneja a floresta onde tudo se processa à luz dos seus saberes ancestrais, e na sapiência dos povos tradicionais. O livro surge no intuito de elaborar uma narrativa acerca do trabalho pioneiro dos mestres artesãos da Floresta Nacional do Purus, com destaque para a artesã, Arlete Maciel, que coordena em distintas fases, projetos de artesanato desde Boca do Acre até o interflúvio Purus/Juruá, nas comunidades Vila Céu do Mapiá-Pauiní/Médio Purus e Vila Céu dos Estorrões, no vale do Juruá.

“O livro surgiu da ideia de relatar a história deste processo e caminhada rumo à organização social deste grupo de artesãos que se encontra na Vila Céu do Mapiá e de articular uma rede de trabalho e comunicação, neste momento de travessia pandêmica”, disse.

Apoio da Lei Aldir Blanc

A Floresta Nacional do Purus é uma Unidade de Conservação de Uso Sustentável localizada na Amazônia Ocidental, no município de Pauiní. Situa-se na margem esquerda do rio Inauiní. O projeto ‘Olho da mata’ pretende beneficiar, além de artesãos e artesãs, toda a comunidade, sobretudo estimulando os jovens que dispõem da Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza, no seio da floresta, de um museu a céu aberto.

Os artesãos produzem uma diversidade de artesanatos com o cipó-titica e as sementes nativas, desde acessórios a utensílios domésticos, e uma variação de cestarias envolvendo palhas e cipós, biojoias, painéis de sementes, entre outros.

O livro, publicado com apoio da Lei Aldir Blanc, terá exemplares distribuídos nas bibliotecas do Estado, em órgãos públicos, instituições ambientais, culturais e educacionais governamentais e não governamentais. Na comunidade será distribuído pela Escola de Arte e Saberes Florestais Jardim da Natureza.

O artesanato e o e-book de ‘Olho da mata’ podem ser adquiridos através da página do projeto no Face. A primeira tiragem impressa do livro terá distribuição restrita a parceiros e apoiadores, além de visitantes da comunidade e também aos autores e equipe do projeto.

Evaldo Ferreira

é repórter do Jornal do Commercio
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