Primeiro foi a igreja, depois os utópicos, finalmente os sindicalistas. Esta parece ter sido a ordem dos atores sociais que criaram as bases da criação das cooperativas. O professor Vergílio Frederico Perius, da Unisinos/RS (Universidade do Rio dos Sinos), realizou em 1999, trabalho de pesquisa que apontou 1.627 como sendo o ano da criação do primeiro sistema cooperativo, em terras da América Latina, nas 30 reduções dos índios guaranis, também conhecidas como missões, localizadas na região do rio Uruguai, no que hoje se dividiu entre o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Sete delas ficaram dentro do Rio Grande do Sul. Muito mais que um grupo de ocas em torno de uma igreja, as reduções eram cidades bem organizadas, com quadras de ruas retilíneas e casas comunitárias, geridas por um conselho de padres e caciques. Não havia propriedade privada nem salário e os bens eram distribuídos na base do “a cada um conforme sua necessidade”. Este sistema durou 150 anos e foi destruído pelas disputas entre espanhóis e portugueses, numa época em que os índios já fundiam metais e tocavam instrumentos de câmara.
Todos os princípios do cooperativismo clássico estavam lá: adesão livre, gestão democrática,distribuição das sobras, educação, integração, indiscriminação racial e de gênero e juros módicos.
Até chegar a criação da primeira cooperativa, na Inglaterra, vários ideólogos apostaram suas fortunas e se dedicaram para provar que outra forma de vida seria possível, além da baseada exclusivamente no capital. Os fundadores da primeira cooperativa de consumo em dezembro de 1844, juntaram economias e abriram a loja em dezembro do ano seguinte. Eram trabalhadores. O que pretendia afinal esse grupo? A Revolução Industrial estava só começando. O eterno conflito envolvendo o dilema entre o SER e o TER, o MEU e o NOSSO, que se instalou no início do movimento, continua presente até hoje. O choque de princípios é inevitável.
A proliferação de grupos de interesses que resultou na criação de sociedades cooperativas em toda a Europa inicialmente e depois nas outras partes do mundo, teve bases de apoio e condições de evolução de acordo com o processo de organização sindical e de parcelas da sociedade civil, acompanhadas da ação política dos governos. Ao participarem de parcelas do mercado, as cooperativas incomodam e são incomodadas. Os governos têm a força da regulação e a usam conforme a conveniência das forças dominantes econômica e politicamente.
Cooperativa é, na sua essência, mistura de associação e empresa, por isso tem natureza jurídica própria. Nela a relação é dono-dono. Ela substitui o intermediário, cuja existência é uma necessidade do mercado. Não é, penas, uma micro empresa, onde a relação é dono-freguês (que muda de nome para dizer a mesma coisa). Agindo isoladamente não vai longe. Com o tempo, primeiro enfraquece, depois fecha.
O comunismo do Leste Europeu permitiu, mesmo que com grande dose de intervenção, que as cooperativas atuassem de forma sincronizada, se aproximando da utopia cooperativista, que seria chegar ao país cooperativo. Sem a presença do sistema capitalista por 72 anos, foi necessário criar um sistema de relações comerciais com base nas pessoas que atingisse todo o país. Daí o grande número de cooperativas de consumo, que funcionou como reservatório, para onde desaguava toda a produção agrícola e não agrícola; as de habitação, para garantir moradia; as de crédito, de produção artesanal e outros, tendo a educação geral e o ensino profissionalizante com foco na gestão de negócios, como as garantias para a continuidade do sistema de cooperativas. As estruturas de segundo e terceiros graus –uniões, federações e confederações– dão a liga necessária para manter a identidade do sistema.
A abertura econômica que chego por lá em 89 provocou o desequilíbrio natural de quem não tinha a concorrência como fator de preocupação, mas encontrou uma população alfabetizada, com moradia digna e melhor preparada para compreender a realidade em que está inserida.
Neste momento de desequilíbrio do sistema capitalista, a cooperação e a cooperativa podem sim ser um bom assunto, desde que não seja apenas como forma de ter acesso a vantagens imediatas.
Cooperativas & Cooperativismo – ser ou não ser
Em: 6 de abril de 2009
Primeiro foi a igreja, depois os utópicos, finalmente os sindicalistas. Esta parece ter sido a ordem dos atores sociais que criaram as bases da criação das cooperativas
Redação
Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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