Copom decide manter Selic em 13,75% e não aponta indícios para redução nas próximas reuniões

Em: 5 de maio de 2023
Edifício-Sede do Banco Central em Brasília

Economistas e lideranças do setor produtivo amazonense se dividem quanto à decisão do Copom de manter, pela sexta vez consecutiva, a Selic nos atuais 13,75% ao ano. A despeito da desaceleração do PIB, e das pressões do governo federal e de diversos parlamentares, o colegiado foi unânime, em decisão comunicada nesta quarta (3), em manter os juros básicos da economia no mesmo patamar onde estão desde agosto de 2020. A boa notícia é que o Comitê de Política Monetária sinalizou menor chance de retomada do ciclo de altas na taxa. A má é que também não deu indícios de eventuais reduções.

Em seu comunicado, o Copom justificou sua decisão ao salientar que o cenário externo se mantém “adverso” e de “inflação resiliente” após “os recentes episódios envolvendo bancos”. Ponderou também que, embora o cenário interno mostre desaceleração da economia, a inflação ao consumidor segue “acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta”. E acrescentou que ainda há incertezas em torno do desenho do arcabouço fiscal a ser aprovado pelo Congresso Nacional e seus eventuais impactos na inflação.

A autoridade monetária ressaltou ainda que poderá “retomar o ciclo de ajuste”, se o “processo de desinflação” não ocorrer como previsto. “O Comitê avalia que a conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária. O Copom enfatiza que, apesar de ser um cenário menos provável, não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso o processo de desinflação não transcorra como esperado”, pontuou. “O Comitê reforça que irá perseverar até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”, emendou 

Com a decisão desta quarta (3), a taxa continua no maior nível desde janeiro de 2017. Essa foi a quinta vez seguida em que o Banco Central não mexe na Selic, que permanece nesse nível desde agosto do ano passado. Entre março de 2021 e a agosto de 2022, a taxa saltou de 2% – o nível mais baixo desde 1986 – para o patamar atual, após 12 reajustes consecutivos, em meio a um ciclo inflacionário iniciado sob o impacto da alta dos preços de alimentos, de energia e de combustíveis. O Copom costuma se reunir a cada 45 dias para definir a Selic. Esta foi a terceira reunião deste ano e a próxima está marcada para os dias 20 e 21 de junho.

“Movimento equivocado”

O presidente da Fieam e vice-presidente executivo da CNI, Antonio Silva, considerou que a manutenção da taxa básica em 13,75% foi “movimento equivocado” do BC e frisa que o nível dos juros já se encontra em patamar “excessivamente alto” para inibir a atividade econômica. Segundo o dirigente, as empresas estão tomando crédito “a mais de 30%”, em valor “insustentável” e que se configuraria como um dos principais fatores da desaceleração econômica em 2022.

“Não podemos deixar de considerar o impacto que os recentes eventos relativos a grandes empresas varejistas do país possuem sobre o mercado de crédito. Esses fatores, por si só, têm implicado em aumento de provisões e redução da oferta, acarretando em um crédito mais caro. Nossa expectativa é de que, com a contínua desaceleração do processo inflacionário, o Copom inicie a redução da Selic a partir da próxima reunião, em junho”, ressaltou.

O presidente da Faea, Muni Lourenço, concorda. “É preocupante o nível da taxa de juros em nosso país e particularmente para o setor agropecuário isso vem encarecendo os financiamentos e restringindo investimentos. As feiras e eventos agropecuários que estão ocorrendo neste ano, por exemplo, já têm apresentado níveis de negócios menores devido o patamar de juros altos”, mencionou. 

O presidente do Sinduscon-AM, Frank Souza, ressalta que o encarecimento do dinheiro é ruim para o setor, mas avalia que o governo também é parte do problema. “Quem quer comprar tem mais dificuldade, porque a prestação fica mais cara. O mesmo ocorre para o incorporador. A gente presume que a situação será péssima para imóveis para a baixa renda. A perspectiva é melhor no segmento de médio e alto padrão, onde o comprador suporta uma prestação mais pesada. Mas há outros fatores que também contribuem para esse cenário ruim. Ainda não foram definidos os valores para o Minha Casa Minha Vida, nem as condições orçamentárias para 2023. Pelo que percebo, o BC não vai baixar essa taxa não vai baixar tão cedo. Vamos ver se o governo estabiliza”, lamentou.

Em sintonia, o presidente em exercício da Fecomercio-AM, Aderson Frota, observa que o Banco Central esperou para determinar a Selic no segundo dia da reunião, pois queria ver qual seria a decisão do Fed, que também elevou seus juros. “O fator determinante da taxa é a situação do país, em termos de dívidas e estabilidade de sua economia. O governo precisa entrar em um processo de disciplina orçamentária, para que o BC se ache com disposição de ir diminuindo a Selic, sem nenhum desacerto inflacionário. O que nos incomoda, como setor, é que a taxa acabou vitimando as famílias e tirando o fôlego das vendas. O consumidor está combalido e sem renda”, avaliou. 

“Cautela e paciência”

Em linhas gerais, a ex-vice-presidente do Corecon-AM e professora universitária, Michele Lins Aracaty e Silva, concorda com a avaliação da autoridade monetária, e enfatiza que o cenário é realmente de “cautela com relação à inflação persistente” e também de paciência. “O Banco Central insiste na política monetária restritiva devido ao cenário inflacionário. Tal decisão impacta direta e indiretamente na tomada de crédito pelo consumidor e pelo empresário, que continuarão pagando mais caro. Mas, acredito que a taxa de juros permanecerá muito próxima ao atual patamar”, analisou. 

O também consultor empresarial e professor universitário, Leonardo Marcelo Braule Pinto, é mais enfático ao apontar o efeito colateral do remédio do BC. “Infelizmente, temos esses trade offs da economia, que tornam as decisões mais difíceis. Com juros altos, está sendo possível segurar um pouco a inflação, mas também o crédito em passos rasos. Esperamos, que nas próximas reuniões, já estejamos em um patamar mais equilibrado para diminuir essa taxa nada competitiva ou keynesiana, pois não fomenta crescimento no curto prazo. Mas, esta foi uma medida de longo prazo”, ponderou. 

Já o ex-presidente do Corecon-AM, consultor empresarial e professor universitário, Francisco de Assis Mourão Junior, entende que a manutenção dos juros básicos configura uma queda de braço entre o BC e a Presidência da República. “Infelizmente, ao tentar encaixar a inflação abaixo do teto, teremos paralisação do PIB. Embora o Fed, assim como outros bancos centrais, tenha aumentado sua taxa, os juros do Brasil estão exorbitantes e vêm provocando o recuo do consumo e da produção. Não vejo sinais positivos no curto prazo. Talvez tenhamos alguma redução em setembro ou outubro”, arrematou.

Marco Dassori

É repórter do Jornal do Commercio
Pesquisar