Dados do último Diagnóstico de Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos do Brasil, de 2022, revelam que o país gera mais de 80 milhões de toneladas de lixo/ano e recicla menos de 4%. Cerca de 1.400 municípios não tem nenhuma política pública que promova e incentive a separação do lixo reciclável entre a população. O país perde pelo menos R$ 14 bilhões/ano em resíduos recicláveis descartados em aterros sanitários e lixões irregulares. 77% dos brasileiros sabem que boa parte dos plásticos, por exemplo, é reciclável, mas a grande maioria ainda insiste em descartá-los de forma inadequada. Aproximadamente 800 mil pessoas vivem da reciclagem no Brasil.
Para saber como está a situação da reciclagem, em Manaus, o Jornal do Commercio ouviu o biólogo Daniel Santos, do Instituto Lixo Zero.
Jornal do Commercio: No ítem reciclagem, em que posição nacional se encontra Manaus?
Daniel Santos: Não existe um ranking, mas infelizmente Manaus não está em uma situação que classifique a cidade entre as melhores do país na reciclagem dos resíduos que sua população produz. Dados do relatório da Semulsp (Secretaria Municipal de Limpeza Urbana), em 2022, mostram que o percentual de reciclagem na cidade foi de 2,1% enquanto a média nacional é de 4%.
JC: Por ordem de quantidade, quais são os objetos mais reciclados no país?
DS: De longe o alumínio é o resíduo mais reciclado. Em 2021, 98,7% das latinhas foram enviadas para reciclagem, o maior volume da história. Hoje é difícil você andar por Manaus, ou qualquer outra cidade, e encontrar alguma latinha de cerveja ou refrigerante jogada no chão.
JC: Como está a situação da reciclagem em Manaus? Tem muitas empresas comprando material para reciclar?
DS: Manaus é uma cidade industrial que precisa de muitos, e diferentes tipos, de matéria-prima. Hoje, praticamente todo o material que é coletado nos pontos de reciclagem, é comercializado. Temos grandes empresas de reciclagem na cidade trabalhando na transformação dos resíduos: plásticos, papelão, papel, alumínio e vidro, em nova matéria-prima.
JC: Qual tem sido a atuação da prefeitura nessa questão?
DS: Todos os municípios precisam atender à Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010). O último avanço da prefeitura foi ter assinado um termo de cooperação de logística reversa, em 2020, para embalagens pós-consumo, celebrado com as indústrias fabricantes e os supermercados. Atualmente já são mais de 40 PEVs (Pontos de Entrega Voluntária), localizados nos supermercados, que recebem esses resíduos e, através da Semulsp, são coletados e destinados para associações e cooperativas de catadores.
JC: Quais bairros, ou zonas, de Manaus, mais têm seus resíduos reciclados?
DS: Todas as zonas da cidade possuem PEVs, bem como também associações e cooperativas de catadores. O coletivo Manaus Lixo Zero desenvolveu um site/aplicativo (no Android) que mapeia todos esses pontos e ajuda o cidadão manauara a achar o mais próximo. Não existe número por bairros ou zonas na cidade, mas seria uma maneira de fazer a correta gestão dos resíduos com esses indicadores.
JC: Quem é, atualmente, o maior vilão: os resíduos plásticos ou o lixo eletrônico?
DS: Hoje, o plástico, principalmente o de uso único (descartável) é o tipo de resíduo gerado em grande quantidade a cada segundo. É um resíduo fácil de ir parar em nossas ruas, igarapés e rios, transformando-se em lixo. Para complicar, é um tipo de resíduo bem pouco reciclado, além de sua decomposição o transformar em microplásticos num curto espaço de tempo. Os microplásticos podem ser encontrados em diferentes alimentos (como peixes) e até em temperos (como sal), na água da torneira, de garrafas, inclusive, no ar, e provocam uma série de complicações para a saúde. Já os resíduos eletrônicos (lixo eletrônico) vêm evoluindo e cada vez mais se tornando um problema para o planeta devido ao aumento descontrolado de sua quantidade. Assim como os demais resíduos, devem ser encaminhados de forma correta para empresas especializadas na sua reciclagem.
JC: Existe alguma escola, em Manaus, ensinando os alunos sobre a importância da reciclagem, ou esse tema gera pouco interesse nos educadores?
DS: Hoje as escolas estão cada vez mais abrindo espaço para o tema sustentabilidade, e a questão dos resíduos está entre os principais assuntos mencionados. Em minhas palestras nas escolas é perceptível ver a mudança de comportamento dos estudantes com o tema. A maioria já se utiliza de garrafinhas reutilizáveis para evitar o uso de descartáveis. A escola estadual Liberalina Weill está concorrendo com um projeto no PCE (Programa Ciência na Escola), da Fapeam (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas), e o tema escolhido para desenvolver o projeto foi ‘Escola Lixo Zero’. Se o projeto for aprovado, até o final do ano, poderemos ter no Amazonas, a primeira escola estadual lixo zero.
Evaldo Ferreira: @evaldo.am
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