É preciso haver continuidade

Em: 4 de novembro de 2013
O dia 8 de novembro é o Dia Internacional de Urbanismo.
O dia 8 de novembro é o Dia Internacional de Urbanismo.

O dia 8 de novembro é o Dia Internacional de Urbanismo. Para retratar a situação urbanística da cidade de Manaus, uma metrópole que cresceu desordenadamente nos últimos 20 anos, o Jornal do Commercio entrevistou com exclusividade o diretor-presidente do Implurb (Instituto Municipal de Ordem Social e Planejamento Urbano), Roberto Moita, arquiteto renomado que alertou para as consequências de um crescimento urbano sem planejamento, das vicissitudes geradas por sucessivas administrações públicas que insistiam em descontinuar as ações de seus antecessores. Para ele, a solução está nas mãos da população que deve cobrar a execução integral das agendas de compromissos assumidas pelos gestores públicos. Moita elencou as principais ações da Prefeitura de Manaus, do Implurb, que em parceria com outras secretarias, luta para preparar a “Cidade Sede Verde” para a Copa do Mundo de 2014.

Jornal do Commercio – Qual o próximo passo da prefeitura na recuperação urbanística da cidade?

Roberto Moita – Nós temos a missão de entregar para a cidade até o final do ano as obras da segunda etapa do Parque da Ponta Negra. Que está em fase bastante adiantada de execução. Todos os programas da prefeitura visam dar autoestima à população manauara. São ações de infraestrutura que compõem esse projeto direcionado para uma nova Manaus.

JC – Sobre a falta de planejamento das zonas Norte e Leste da cidade –que cresceram de forma desordenada –quais as medidas do Implurb para melhoria nessas zonas periféricas ou é só boutique nas zonas Centro-Sul e Oeste?

Moita – Nós estamos, nesse momento, envolvidos com os programas em curso. Mas a prefeitura atua em todos os bairros, há um programa intenso de infraestrutura, drenagem e asfaltamento na região da Avenida das Torres, conhecida como Águas Claras e Parque das Garças. E tem um programa de implementação de pontos de ônibus que varre todas as zonas da cidade, com um novo modelo de parada de ônibus. Os programas são abrangentes. Apesar dos recursos limitados, a prefeitura está contando hoje, praticamente, só com recursos próprios para conduzir essas obras e programas.

JC – E a questão do trânsito, que se mistura com a mobilidade do dia a dia, e afeta o transporte público aliado à deficiência de calçadas inadequadas?

Moita – São três assuntos. Cada assunto deste tem uma dimensão. Você está listando as macro deficiências urbanas no campo da mobilidade. O investimento num programa de transporte público é algo que a cidade faz em horizonte de trinta a cinquenta anos. Nós (gestores anteriores) começamos com o projeto Expresso, foi o primeiro grande programa de mobilidade em transporte público de Manaus e que não teve sucesso. Ocorreram problemas de implementação ou de gestão, o que for, mas ele não atendeu. A cidade hoje está precisando de um redesenho dessa questão, a gestão anterior deu início a um programa que compunha monotrilho e BRT, mas que também não foi implementado. Então nós estamos, nesse momento, reorganizando o herdado sistema Expresso, mas no formato modernizado de um BRS, ou seja, com canaleta exclusiva em vários eixos importantes de transporte da cidade. Porque nossa atitude é de respeito para com o patrimônio público, nós sabemos que esse investimento que inclusive está sendo pago, todos esses investimentos são empréstimos de médio e longo prazo que demoram para ser amortizados e a prefeitura ainda hoje paga esses empréstimos. Tivemos que ter uma responsabilidade com essa infraestrutura que herdamos, que as administrações herdam de um governo para outro. Isso não pertence ao governo A ou B, mas pertence fundamentalmente à comunidade.

JC – Quais são as ações direcionadas para o Mundial de Futebol de 2014, já que Manaus é a terceira sede na preferência de jornalistas e turistas nacionais e internacionais?

Moita – Existe um primeiro desafio que é dar um “tiro” de longo prazo em Manaus em relação à mobilidade urbana e no transporte público. Nós precisamos de várias ações emergenciais e outras para preparar minimamente a cidade na direção do maior evento esportivo do planeta que é a Copa do Mundo de Futebol, que nós vamos ter a alegria e o desafio de sediar. Tivemos que definir um conjunto de obras voltado para essa data alvo que é maio de 2014. É com esse horizonte que nós estamos fazendo recapeamento integral de vias; reurbanização de passeios onde é possível, no tempo e nos recursos disponíveis; promovendo desafogo do trânsito com a criação das baias do ônibus; estamos estudando e atualizando dados da engenharia de tráfego da cidade. Esse é um trabalho em conjunto com a Seminf, Manaustrans e Implurb visando, inclusive, desenvolver uma mobilidade sustentável e alternativa que é o caso de bicicletas. Esses são muitos programas que estão em andamento, mas o que nós temos que entender é que os desafios de Manaus não são de quatro anos, eles são de quarenta anos, pelo menos. É preciso que haja planos continuados com ações sequenciadas entre os governos, que a sociedade defina muito claramente essas agendas e que essas agendas sejam cobradas de governo a governo e que os governos que se sucedam só melhorem essas agendas. Nós temos um problema muito sério de descontinuidade de ações entre governos.

JC – A Reserva Duque é dotada de mata primária, ainda é uma parte da floresta intocada e que está sendo comprimida em seu entorno com a expansão urbana desordenada. Como solucionar aquela questão de invasão do entorno da Reserva Duque?

Moita – Quem viu essa reserva totalmente distante da cidade há trinta ou quarenta anos não imaginava que em algum momento a cidade fosse encostar naquela reserva florestal. Isso é um fato que ocorre há uma década. Ocupações, na sua maioria irregulares, foram as primeiras e depois vieram algumas planejadas pelo governo do Estado com uns conjuntos habitacionais. Eu acho que Manaus é uma cidade que tem essa característica, nós convivemos com mata primária em maior ou menor grau de conservação permanentemente dentro da cidade, nos terrenos remanescentes ainda não ocupados ou nas próprias grandes reservas intraurbanas ainda com muita força como o Inpa, Ufam, Parque do Mindú, a área do CIGS do Exército Brasileiro. São grandes florestas urbanas que estão dentro da cidade e que, de certa maneira, são elementos que marcam essa identidade urbanística de uma cidade no meio da floresta, que tem floresta no meio da cidade – sem trocadilhos.

Redação

Jornal mais tradicional do Estado do Amazonas, em atividade desde 1904 de forma contínua.
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