Entre vitrais e séculos de fé

Em: 24 de outubro de 2025
Templos erguidos desde o período colonial revelam a alma espiritual de Manaus, onde história, arquitetura e devoção ainda caminham juntas.
Crédito: Selma Carvalho Legenda: Catedral de Nossa Senhora da Conceição é marco da fundação de Manaus
Crédito: Selma Carvalho Legenda: Catedral de Nossa Senhora da Conceição é marco da fundação de Manaus

Ao completar 356 anos, Manaus revela que sua história não se mede apenas pelas grandes obras ou pela expansão urbana, mas também pela permanência silenciosa de templos que atravessaram séculos. Entre paredes de pedra, vitrais coloridos e altares esculpidos, a cidade preserva parte de sua identidade e da fé que moldou gerações.

Segundo o historiador Fábio Augusto de Carvalho Pedrosa, mestre pela Universidade Federal do Amazonas, “a Igreja Católica foi a primeira instituição a fincar raízes na região durante o período Colonial, sendo o sustentáculo da Coroa Portuguesa na conquista e expansão territorial através da catequização dos indígenas e, posteriormente, cuidando da vida educacional, social e cultural da comunidade que se formou em torno da Fortaleza de São José da Barra do Rio Negro”.

A primeira igreja de Manaus, dedicada a Nossa Senhora da Conceição, foi erguida em 1695 pelos missionários carmelitas e é considerada o marco inicial da cidade. “Posteriormente, ainda no período colonial, temos a construção da Capela de Nossa Senhora dos Remédios, em 1818, e, já nos anos finais do Império, a Paróquia de São Sebastião, inaugurada em 1888”, explica o historiador.

No coração do Centro Histórico, a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, ou Igreja Matriz, permanece como símbolo da origem da capital. A atual estrutura foi inaugurada em 1878, após um incêndio destruir a antiga edificação em 1850. “A construção da Matriz é um dos capítulos mais interessantes de nossa História. Ela levou exatos 20 anos, de 1858 a 1878, para ser concluída, enfrentando dificuldades de todas as ordens, como a falta de materiais, de mão de obra especializada e, principalmente, verbas públicas”, detalha Fábio Pedrosa.

A Igreja de São Sebastião, inaugurada em 1888 pelos frades capuchinhos italianos, destaca-se pela imponência e ornamentação. “É a mais bela da cidade, com pinturas executadas por renomados artistas italianos”, ressalta Pedrosa. Ao lado do Teatro Amazonas, compõe um dos conjuntos urbanos mais emblemáticos do ciclo da borracha, “onde fé, cultura e poder simbólico se integram no coração da cidade”, complementa Melissa Toledo, vice-presidente do CAU-AM e sócia do escritório Toledo Amazônia.

A Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, por sua vez, “teve papel essencial na história religiosa de Manaus, pois substituiu a antiga Matriz após o incêndio de 1850, funcionando como igreja provisória até 1877”, recorda Pedrosa. O atual prédio, com vitrais e imagens sacras trazidas da Europa, foi construído entre 1901 e 1927.

Durante o Ciclo da Borracha, as igrejas históricas foram embelezadas com o apoio das famílias mais ricas da cidade. “Essas doações possibilitaram reformas estruturais, ornamentações e aquisição de imagens sacras, reforçando a ligação entre devoção e prestígio social”, explica o historiador.

De acordo com Pedrosa, “em síntese, as igrejas históricas de Manaus foram construídas nos estilos Neoclássico e Eclético. Do primeiro, destacam-se a Catedral de Nossa Senhora da Conceição e a Igreja dos Remédios. Em estilo eclético temos a Igreja de São Sebastião”.

Além da arquitetura e dos vitrais, as igrejas guardam segredos pouco conhecidos. “Na entrada da Catedral, por exemplo, há um mausoléu que guarda os restos mortais de três bispos — Dom José Lourenço da Costa Aguiar, Dom Jacson Damasceno Rodrigues e Dom Milton Corrêa — e abriga também a mais antiga e importante imagem sacra da cidade, de Nossa Senhora da Conceição, datada do século XVII”, revela o historiador.

Conservação e patrimônio

Assim como outros bens históricos, as igrejas manauaras requerem atenção constante. “Essas construções falam, através de suas formas e símbolos, da fé, da devoção, da religiosidade, da arte e da cultura da Manaus de outrora”, reflete Pedrosa.

Nos últimos anos, templos como São Sebastião e Remédios passaram por restaurações conduzidas pelo IPHAN-AM, com apoio de emendas parlamentares e doações particulares. “As intervenções buscam proteger a estrutura e revitalizar o uso contínuo pela comunidade, respeitando a arquitetura original e preservando a memória histórica”, observa Melissa Toledo.

Ela ressalta que conservar também é integrar. “O Largo de São Sebastião conecta a igreja ao Teatro Amazonas e a outros edifícios históricos, formando um conjunto harmonioso que valoriza tanto a arquitetura quanto a vida cotidiana. Já templos como a Matriz e Remédios permanecem mais isolados, carecendo de projetos urbanos mais amplos”, diz.

Para Fábio Pedrosa, a preservação desses espaços ultrapassa o campo da fé. “Acredito que a conservação desses templos seja de extrema importância não apenas por questões religiosas, mas também — e principalmente — por questões de memória coletiva, patrimônio e identidade cultural. Em cada um deles reside um pouco das matrizes culturais que formaram nossa sociedade.”

Cultura, turismo e identidade

Os templos históricos de Manaus são marcos vivos da espiritualidade, mas também motores de turismo e cultura. “Eles permitem que diferentes gerações se conectem com a memória da cidade, celebrando tradições religiosas e culturais que atravessam o tempo”, afirma Melissa Toledo.

Eventos como o Círio de Nazaré reforçam esse elo entre fé e identidade, movimentando não apenas devoções, mas também a economia e o turismo.

Manaus, assim, reafirma-se como cidade de memórias: entre vitrais e sinos, preserva a fé que construiu sua história.

 

Box: Principais igrejas históricas de Manaus

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição (Catedral de Manaus)
• Local: Centro histórico (Praça da Matriz)
• Construção: Século XVIII (atual estrutura: 1877–78)
• Estilo: Neoclássico com elementos neogóticos
• Importância: Primeira igreja da cidade, símbolo da fundação e sede da Arquidiocese.

Igreja de São Sebastião
• Local: Largo de São Sebastião, entorno do Teatro Amazonas
• Inaugurada: 1888
• Estilo: Neoclássico com elementos ecléticos
• Importância: Ornamentação interna de artistas italianos; marco do Ciclo da Borracha.

Igreja de Nossa Senhora dos Remédios
• Local: Rua dos Andradas, Centro histórico
• Construção: 1818 (reconstruída entre 1901–1927)
• Estilo: Neogótico
• Importância: Substituiu a antiga Matriz; abriga imagens sacras europeias.

Igreja de São Raimundo Nonato
• Local: Bairro São Raimundo
• Estilo: Neoclássico
• Importância: Ligada às populações ribeirinhas e operárias.

Igreja de Nossa Senhora de Aparecida
• Local: Bairro Aparecida
• Estilo: Eclético com traços neorromânicos
• Importância: Forte devoção popular e presença marcante nas festas religiosas.

Capela do Educandário Dom Pedro II
• Local: Centro de Manaus
• Estilo: Eclético com influência neoclássica
• Importância: Ligada à educação e à caridade.

Capela do Colégio Santa Doroteia
• Local: Centro histórico
• Estilo: Neogótico
• Importância: Educação feminina e religiosa; destaque entre edifícios escolares.

 

Mônica Freires

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